TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

    A Festa da Transfiguração do Senhor é força que renova a nossa fé. Ao subir a montanha com os três discípulos, Pedro, Tiago e João, que em breve o acompanhariam também no horto em sua agonia, Jesus revela sua identidade divina e convida-nos a unirmo-nos a Si. A contemplação da visão espetacular do Senhor, envolvido em luz e cujas vestes tornaram-se mais brancas que a neve, abre o coração dos discípulos para a esperança da glória eterna. Adentrar nessa realidade beatífica requer seguir os mesmos passos do Salvador, ou seja, subir outra montanha: a do Calvário. Nesse sentido, a celebração desta liturgia é sinal da presença da Graça que nos transfigura em novos homens e mulheres, libertos pelo sangue redentor de Cristo e conduzidos ao Reino dos Céus para viver a vida para a qual fomos criados.

    Estamos no ano A do calendário litúrgico; por isso, hoje meditamos o relato da Transfiguração narrado pelo Evangelho de Mateus. A narrativa está repleta de vários detalhes fundamentais para a compreensão do que celebramos. Jesus toma consigo três discípulos que sempre estão mais próximos de si; e a subida à montanha com esses homens reverbera a cena do Êxodo, quando Moisés subiu o monte Sinai acompanhado por Arão, Nadab e Abiú (cf. Ex 24,9). Na ocasião, o Senhor renovara a aliança com o povo e Moisés estava prestes a receber as tábuas da lei. Agora, porém, essa aliança é definitiva em Jesus: Ele é a própria Palavra, o mandamento maior encarnado em nosso meio. Além disso, o brilho comparado ao sol que envolve o seu rosto e todas as suas vestes manifesta-nos que Ele é de natureza divina. Ele é o “filho do homem”, conforme a profecia de Daniel (cf. Dn 7,13), que vem para julgar as nações e reunir para si todos os povos. Ao lado dele, surgem Moisés e Elias, representando a Lei e os Profetas, ou seja, as Escrituras de então, e conversam com Jesus assim como conversaram com Deus Adonai; portanto, não há como duvidar: Ele é verdadeiramente Deus.

    Os discípulos, por sua vez, ficaram atônitos. Aliás, quem de nós não sentiria o mesmo? Pedro toma a palavra e propõe armar três tendas: uma para Jesus, outra para Moisés e outra para Elias. Sua motivação é genuína, pois realmente é maravilhoso estar na presença do Senhor. Entretanto, ainda não é o momento de usufruir da glória, pois lhes falta a experiência da cruz, que purifica todas as intenções e disposições humanas para conformá-las à vontade divina. Quando nos colocamos em oração, precisamos estar bem firmes no chão; devemos, sim, almejar o céu, porém com humildade, sem buscar grandes arroubos espirituais. Santa Teresa d’Ávila, por exemplo, conhecida por haver tido diversas experiências místicas, alertava suas filhas carmelitas a não desejarem tais altas contemplações, reconhecendo que somente Deus as concede às almas que Ele mesmo escolhe. Portanto, “Se quereis fazer progressos na oração – diz Santa Teresa – e receber de Deus grandes favores, não desejeis os consolos, mas a cruz”.

    O Evangelho relata que Pedro ainda falava quando a nuvem luminosa os envolveu e ouviram a voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o” (Mt 17,5). No livro do Gênesis (cf. Gn 22,2), Isaac foi chamado pelo mesmo título: “filho amado” de Abraão, a quem Deus pediu para ser imolado em sacrifício. Jesus, por sua vez, oferecerá a vida em sacrifício e então manifestará a sua glória na cruz, como oblação definitiva pela salvação da humanidade. Jesus já havia contado aos discípulos sobre a sua Paixão, Morte e Ressurreição um pouco antes de subir a montanha e ser transfigurado, porém seus seguidores ainda não haviam compreendido. Por causa disso, o alerta: “Escutai-o!” ecoa fortemente, e eles “ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra” (Mt 17,6). O rosto em terra faz recordar que somos criaturas e não criadores; por isso: “Lembra-te que és pó” (Gn 3,19). Assim, diante do mistério não há palavras que um ser humano possa dizer; pelo contrário, a atitude de humildade fecha as bocas e abre bem os ouvidos para escutar o Verbo encarnado. Aliás, a centralidade do seguimento e da fidelidade é a escuta. Todas as vezes em que não ouvimos o Senhor, falhamos, pecamos, abandonamos o caminho. Por isso, reconheçamos a nossa pequenez e deixemos Deus falar e agir em nossas vidas conforme a sua santa vontade.

    A Transfiguração do Senhor é oportunidade de transformação espiritual. Jesus quer ter um encontro pessoal com cada um de nós, revelando-nos a sua identidade e renovando a nossa fé. Nesse sentido, algumas atitudes são necessárias. Primeiro, a oração. Precisamos subir a montanha, ou seja, estar em oração para contemplar o mistério revelado e deixar-nos transfigurar, mudando a forma da nossa vida para sermos outro Cristo no mundo. Em segundo lugar, buscar a sabedoria da Fé, cujo depósito é a Igreja. Deus continua a nos falar por meio do Magistério, das homilias de padres e bispos, da vida dos santos, do testemunho de cristãos piedosos que vivem a fé em suas famílias e trabalhos, bem como de missionários evangelizadores mundo afora. Como afirma a Segunda Carta de São Pedro (cf. 2Pe 1,16), não se trata de fábulas inventadas, mas sim de verdades testemunhadas visivelmente pelos apóstolos e que nos chegam através do ensinamento da Igreja em sua tradição milenar e apostólica. E, em terceiro lugar, precisamos também ser testemunhas e, para tanto, é preciso descer a montanha. Retornar à planície é encontrar o campo missionário, onde ainda existem realidades a serem convertidas a fim de fazer germinar o Reino dos Céus, que transfigura a morte em vida, a opressão em libertação, a dor em alegria. Nesse sentido, ouçamos também o convite do Papa Leão XIV para este mês de agosto, para que nas grandes cidades encontremos novas formas de evangelização que superem o anonimato e a solidão, promovendo a comunidade. Que a luz do Monte Tabor nos guie nessa missão, transformando a nossa vida cotidiana em um reflexo vivo do amor e da glória de Cristo.

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