Escreve o padre Wladimir Porreca: “Padres e bispos: vincular, reconhecer e pertencer para não adoecer”
A saúde mental e psíquica de padres e bispos tem sido profundamente impactada pela ausência — e, em alguns casos, pelo excesso — de apoio afetivo e efetivo. Cuidado afetivo: o cuidado que toca o coração e cuidado efetivo: o cuidado que se traduz em ações concretas.
Essa realidade atravessa dioceses e paróquias em todo o país e revela uma fragilidade estrutural: vínculos fraternos frágeis, uma lógica institucional centrada na preservação administrativa e a insuficiência de estruturas de cuidado humano tornam o ministério ordenado um espaço de vulnerabilidade emocional, espiritual e material.
Todo ser humano necessita de vínculos saudáveis (seguros) que ofereçam segurança emocional para viver bem, especialmente diante de suas necessidades afetivas, relacionais e existenciais. Para padres e bispos, essa necessidade é ainda mais intensa, pois o ministério frequentemente os coloca em situações de solidão, exposição pública e responsabilidade contínua.
Um vínculo saudável (seguro) é aquele que no relacionamento humano: acolhe a pessoa sem julgamentos; sustenta nos momentos de fragilidade; permite expressar emoções sem medo; oferece presença estável e confiável; cria um espaço onde o ministro pode ser pessoa, e não apenas função.
O reconhecimento saudável se expressa em atitudes simples e profundamente humanizadoras: demonstrar gratidão pela presença e dedicação, validar o esforço e a entrega, celebrar conquistas, apoiar fragilidades e criar um ambiente onde o ministro ordenado se sinta visto e valorizado. Esse reconhecimento também reduz sentimentos de ciúme e inveja — emoções que, no ambiente religioso, podem se revestir de linguagem espiritual e tornar-se ainda mais destrutivas e selvagem.
O apoio afetivo e efetivo em construir vínculos, reconhecimento e pertencimento constituem um dos mais importantes fatores de proteção emocional, espiritual e relacional para padres e bispos. Ambientes eclesiais que valorizam, reconhecem e acolhem o ministro ordenado como pessoa — e não apenas como função — fortalecem
Gestos simples, como visitas, refeições partilhadas, conversas sinceras e presença fraterna, exercem impacto profundo sobre a saúde mental. Do mesmo modo, condições materiais dignas — moradia adequada, estabilidade financeira mínima, acesso à saúde e tempo real de descanso — são elementos essenciais para evitar sofrimento psíquico.
Quando vivida de modo evangélico autêntico, a comunidade eclesial é um verdadeiro ambiente saudável terapêutico. A corresponsabilidade pastoral reduz sobrecargas, distribui tarefas de modo mais justo e permite que padres e bispos tenham tempo para descanso, oração e cuidado pessoal — dimensões indispensáveis para a maturidade afetiva e espiritual.
A cultura hierárquica piramidal, profundamente enraizada, continua produzindo consequências desastrosas para a saúde integral do clero. Como afirma Pe. Wladimir: “Relações de proximidade e confiança, espiritualidade samaritana, escuta sem julgamento, pertencimento, reconhecimento e presença afetiva, como também a gratidão fortalecem o coração e a missão do ministro ordenado”.
Prof. Dr. Inácio José do Vale, PhD.
Profissional de saúde mental
Especialista em Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria
Especialista em Psicologia Clínica pela Faculdade Dom Alberto-RS.
Autor do livro Terapia Psicanalítica: Demolindo a Ansiedade, a Depressão e a Posse da Saúde Física e Psicológica
Fonte: Padre Wladimir Porreca – Diocese de São João da Boa Vista – pwladimir@gmail.com




