Jesus revela a sua glória e nos convida a contemplar a plenitude de seu amor e majestade!

    O início de mês de agosto sempre nos presenteia com a Festa da Transfiguração do Senhor. A perícope evangélica de Mateus 17,1-9 insere-se na seção temática da caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, imediatamente posterior ao primeiro anúncio da Paixão e ao pronunciamento petrino em Cesareia de Filipe (Mt 16, 13-28). O texto abre-se com uma indicação temporal precisa e carregada de valor teológico: “Seis dias depois”. Trata-se de uma ressonância exegética direta do Livro do Êxodo (Êx 24, 16), onde a glória de YHWH cobriu o Monte Sinai por seis dias, e no sétimo dia Deus chamou Moisés do meio da nuvem. Mateus constrói uma tipologia mosaica: Jesus é o novo e definitivo legislador, o Profeta prometido em Deuteronômio 18, 15.

    A subida ao “alto monte” evoca a topografia da revelação. O monte, na tradição bíblica, não é mero cenário geográfico, mas o espaço teológico onde a finitude humana e a transcendência divina se encontram. A “metamorfose” de Jesus designa não uma mudança de substância, mas a manifestação visível daquela glória divina que lhe é conatural, contida até então sob a forma de servo (Fl 2, 7). Seu rosto que “brilhou como o sol” e suas vestes que “tornaram-se brancas como a luz” revelam a condição da segunda pessoa da Santíssima Trindade e antecipam a parusia e o corpo ressuscitado.

    A aparição de Moisés e Elias dialoga estruturalmente com a totalidade da Antiga Aliança: a Lei (Torah) e os Profetas (Nebi’im). Ambos experimentaram a teofania no Horeb e ambos tiveram o fim de suas vidas envolvido no mistério divino. Eles conversam com Jesus sobre o seu êxodo, cuja plenitude é alcançada pelo cumprimento da salvação através do mistério pascal da Cruz e Ressurreição.

    A reação de Pedro articula o desejo humano de capturar a teofania na imanência. A palavra “tenda” evoca a Festa dos Tabernáculos, na qual Israel celebrava a habitação de Deus no meio do povo no deserto e aguardava a restauração messiânica. No entanto, a resposta divina vem na forma da nuvem luminosa, sinal da Shekinah, a presença divina que ao mesmo tempo revela e oculta o Mistério. A voz do Pai, aplicando a terminologia dos Salmos reais e do Servo Sofredor (Sl 2, 7; Is 42, 1), pronuncia a fórmula trinitária de filiação e promulga o mandamento supremo da Nova Aliança: Escutai-o!”

    Hermeneuticamente, o mistério da Transfiguração confronta a antropologia filosófica contemporânea. Vivemos sob a hegemonia do que o filósofo Charles Taylor denomina de “a moldura imanente”, na qual a realidade é reduzida a esquemas puramente horizontais, utilitários e fechados ao Transcendente. A pretensão de Pedro em erigir “três tendas” representa a tentativa da razão instrumental de apreender o dom divino, enquadrando o Mistério em categorias de posse e segurança temporal.

    Contudo, como ensina Santo Tomás de Aquino na Summa Theologiae (III, q. 45), a Transfiguração é o sacramentum secundae regenerationis (o sacramento da segunda regeneração): assim como no Batismo a Trindade se manifestou para indicar a adoção filial de Cristo, no Tabor ela se manifesta para revelar a glória futura à qual a natureza humana é destinada. A graça não destrói a natureza, mas a eleva e a diviniza.

    A iluminação das vestes de Jesus ensina que a matéria criada não é desprezível ou destinada ao nada, mas está vocacionada à redenção ontológica. Há uma estética teológica, na linha exposta por Hans Urs von Balthasar: a glória de Deus que reluz no Tabor é o pulchrum (o Belo) inseparável do verum (o Verdadeiro) e do bonum (o Bom). A beleza da Transfiguração atrai a alma humana para fora da apatia, curando a cegueira espiritual causada pelo pecado. Os Pontífices das últimas décadas iluminaram este mistério sob ângulos complementares, oferecendo à Igreja um roteiro seguro para o seu ser no mundo.

    São João Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, introduziu os Mistérios da Luz, colocando a Transfiguração no seu centro. Ele nos recordava que a contemplação do rosto de Cristo no Tabor é o ponto de partida indispensável de toda a ação eclesial. Não há missão autêntica que não nasça da oração profunda e da adoração do mistério. Bento XVI, em suas homilias para este dia e nas suas catequeses sobre a oração, enfatizou a relação entre a subida e a descida da montanha. Para Ratzinger, a oração não é um alienante evadir-se da história, mas um “subir à montanha” para respirar o ar puro de Deus e, em seguida, “descer” portando a sua luz para iluminar as trevas da existência. O Papa Francisco, ao convocar o Pacto Educativo Global e ao refletir sobre a sinodalidade, insiste que o imperativo “Escutai-o” exige da Igreja uma atitude de escuta atenta das dores da humanidade. Para Francisco, a Transfiguração convida a Igreja a não estagnar na segurança do templo, mas a ser uma Igreja em saída, que traz no próprio rosto a luz do Tabor para consolar os desfigurados das periferias existenciais.

    Qual é a palavra definitiva que o Espírito Santo nos dirige a partir da solene liturgia da Festa da Transfiguração do Senhor? Aquela que nos chama a ser Igreja, à luz do Evangelho do Tabor, atuando no mundo como uma comunidade transfigurada e transfiguradora. Não fomos chamados a viver uma fé defensiva, entrincheirada atrás das velhas “tendas” da comodidade espiritual, nem a sucumbir ao cinismo e ao desencanto de um mundo sem Deus. Quando os discípulos caíram por terra amedrontados pela grandeza do Mistério, Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Ao erguerem os olhos, não viram mais ninguém, senão a Jesus, só Ele.

    A partir de tal Mistério, podemos concluir que esta é a identidade e o compromisso da Igreja no mundo: uma Igreja centrada unicamente em Cristo, que mesmo em meio ao ruído de ideologias, opiniões passageiras e polarizações que dividem a sociedade e até o tecido eclesial, a Igreja fixa o seu olhar exclusivamente no Senhor Jesus. Ele é o único Mediador, a única norma de nossa vida e o único Salvador da história; uma Igreja que desce da montanha com as mãos operantes, pois a experiência litúrgica e contemplativa do Tabor não é um fim em si mesma. Celebrar a Transfiguração exige de nós a coragem de voltar às planícies da vida cotidiana, às nossas famílias, aos ambientes de trabalho, às periferias humanas da nossa cidade, para transfigurar a realidade. Onde houver a sombra do abandono, da injustiça, do sofrimento e do vazio moral, a Igreja deve estar presente como sacramento vivo de consolo e restauração; uma Igreja portadora da verdadeira Esperança, pois o mundo em que vivemos padece de um terrível déficit de transcendência. Quando se fecha o céu, a terra transforma-se em um campo de batalha. Cabe a nós, Povo da Nova Aliança, recordar à humanidade que a dor e a morte não são a última palavra sobre o homem. Nós vimos a sua glória! Nós conhecemos a luz do Ressuscitado!

    Povo de Deus que se reúne para celebrar eu proclamo: amada assembleia, levantai-vos! Não tenhais medo! Descei do monte revestidos do esplendor de Cristo. Sede no mundo, marcado por tantas noites e incertezas, o reflexo radiante daquela luz que jamais se apaga. Que a Virgem Maria, a Mulher toda luminosa que soube escutar e guardar cada Palavra do Filho, guie nossos passos pelo caminho da Cruz até a glória eterna da Ressurreição.

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