O Pão E O Sangue Da Vida Eterna – Cartas Do Padre Jesus Priante

Iniciamos neste domingo o Sermão do Pão da Vida, com o qual Jesus Cristo se identificou:
“Eu sou o Pão Da Vida”. Se o Sermão da Montanha (Mt,5-7) é o epicentro do Evangelho de Mateus, o Sermão do Pão da Vida o é no Evangelho de S. João.

Ambos inspiram duas espiritualidades: a ascética (da virtude, do sacrifício e do esforço) e a mística (da contemplação e experiência de comunhão com Deus). Mateus, herdeiro ainda do espírito da Lei Mosaica, afirma Hans von Balthasar, faz condescender Deus com sua graça para nos brindar “toda Lei” cumprida em Jesus Cristo. Ele foi o único ser humano que cumpriu o mandato de Deus: “sejam santos como Eu sou santo”, e o fez de maneira existencial (além de toda moralidade) pela sua Encarnação, unindo onticamente Deus com o ser humano e, por extensão, com toda a Criação. O Mistério da Encarnação, “Deus feito homem”, supera toda dicotomia: Deus/mundo, matéria/espírito, corpo/alma. Não há dois planos: Criação e Salvação. Esta última é a plenitude da mesma Criação, ainda em processo de acabamento que, popularmente, chamamos de “fim do mundo”, cujo ápice já foi atingido com a Ressurreição de Cristo e, com Ele, por toda pessoa que deixa a presente condição terrena e mortal.

A seguir, nos diz São Paulo, toda a Criação atingirá esta meta gloriosa, para ser tudo em Deus. (Ap.21) Esta verdade que nos foi revelada em Cristo nos permite entender melhor e de maneira mais otimista nossa existência e a existência do mundo que habitamos, sujeitos a todo tipo de deficiência e males, pois ainda a Criação de Deus não foi acabada. São Irineu (século. II) teve esta visão mística do cristianismo como graça da união com Deus, da qual foram herdeiros os cristãos da Igreja Católica Ortodoxa, enquanto nós, católicos romanos, com exceção de grandes místicos, seguimos a via da ascética sugerida pelo Sermão da Montanha de Mateus. A Teoria da Satisfação de Santo Anselmo (séc. XI) empobreceu a grandeza do mistério da Encarnação que faz do cristianimo, como afirma K. Rahner, essencialmente místico. Santo Anselmo entendeu a Salvação como um segundo plano de Deus que segue a Criação, separada de Deus por causa do pecado. Mas, seu maior erro foi interpretar a Salvação como um ato de “redenção”. Pelo pecado, contraímos uma dívida infinita para com Deus. Não tendo como pagá-la com nossos méritos, teve Deus de enviar Seu Filho para se tornar homem e assim, com Sua paixão e morte, satisfazer a justiça de Deus, escurecendo o plano salvífico de Deus, fruto de Sua santidade e amor gratuito.

O Sermão do Pão da Vida revela-nos a espiritualidade mística da nossa comunhão com Deus. Hans von Balthasar caracteriza essa espiritualidade como “invasão de Deus”. Não somos nós que vamos a Deus, mas Ele quem vem a nós pela sua Encarnação, para nos divinizar. Este mistério prolonga-se até o fim dos tempos na Eucaristia, pela qual, comungando do Pão Eucarístico, nos diz Gregorio Nazianceno, no século IV, nos tornamos “concorpóreos e consanguíneos” de Deus. Este Pão é mais grandioso e forte do que nós. Por isso, não somos nós que o recebemos e comemos, mas Cristo quem nos o assimila em Deus. Os glóbulos de nosso sangue se tornam eternos e divinos. Com muita propriedade, a cultura cristã nos legou o termo “comunhão” para designar o rito da recepção do
Pão Eucarístico, de fato, por ele nos unimos a Deus existencialmente. Este é o Pão descido do Céu, diz Jesus neste Sermão, para quem dele comer viva eternamente.

A Multiplicação dos Pães

No relato do milagre da multiplicação dos pães, Jesus parece inverter a ordem da sua insistente pregação: “procurai primeiro o Reino de Deus e tudo a mais vos será dado por acréscimo”. Nesta ocasião, Jesus seria mais “marxista”: “Não só de palavra vive o homem, mas de pão”. Por isso, antes de proclamar o Sermão do Pão da Vida, dá de comer a uma multidão faminta que o seguia. Santo Tomás de Aquino questionava no seu tempo, no século XIII, a possibilidade de evangelizar uma pessoa faminta. Não raramente vemos nas portas de nossas Igrejas pobres que nunca entraram dentro delas, a pedir esmolas, pois, de estômagos vazios, a Palavra não entra pelos ouvidos. A fome, diz o filósofo inglês Locke, é a maior prova de que existimos realmente. Mas, também é verdade, que aquele que tem pão em abundância fica insatisfeito e carente de vida sem o Pão da Palavra de Deus.

“UM HOMEM DE BAAL-SALISA TROUXE PARA O HOMEM DE DEUS (O PROFETA ELISEU) VINTE PÃES DE TRIGO NOVO. ELISEU ORDENOU DISTRIBUIR AO POVO PARA MATAR SUA FOME“ (2Re.4,42- 44)

Os pães das primícias ou pães da proposição que este homem de Baal-Salisa trouxe ao profeta Eliseu eram sagrados, destinados a Deus, e só podiam comê-los seus sacerdotes. No entanto, como fez o rei Davi, quebrando sua sacralidade, foi distribuído para o povo para matar a fome. Jesus reportou-se a este fato para humanizar a santidade do Sábado. Em Cristo tudo é sagrado e santo. Tudo carrega a faísca do ser e a vida que nos vem de Deus, embora para aceder a este mistério tenhamos de “consagrar” algo concreto da Criação e oferece-lo a Deus para Ele vir a nos, como que Encarnado nessas nossas oferendas. Assim, na Eucaristia, oferecemos o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho do homem, e o recebemos transformados no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não é verdade que converter as pedras das catedrais em pão e dedicar o tempo improdutivo da oração no trabalho tornaria o mundo menos faminto. Jesus aproveitou o gesto de Maria em Betânia, derramando sobre seus pés um frasco de valioso perfume que, na opinião de Judas, poderia ter sido vendido para dar de comer aos pobres, para nos revelar que sem esse perfume a Ele oferecido não veriamos o rosto humano dos pobres. (Jo.12,). Sem o incenso da oração, as águas das nuvens tornam infrutíferos nossos campos e nossas vidas insatisfeitas.

EU VOS EXORTO A CONSERVAR A UNIDADE DO ESPIRITO… PORQUE HÁ UM SÓ DEUS E PAI DE TODOS E EM TODOS.” (Ef. 4,1-6)

O amor fraterno, vínculo da paz, fundamenta-se na unidade. O ser de cada ente é essencialmente UNO. Não existem batatas, mas a batata que todos os sacos possíveis cheios delas não podem conter. Por isso, em francês se usa o partitivo “du” para se referir a toda e qualquer porção de uma coisa. Ninguém compra pão, mas algo (du) pão . Este simples exemplo aplica-se a Deus e toda a Criação.

Trindade Una Santa

Não existem três deuses: Pai, Filho e Espírito Santo, mas um só Deus em três pessoas. Da mesma maneira, não existem trilhões de estrelas ou grãos de areia. O universo dos entes participa de um só ser, que é Deus. “Nele tudo subsiste.” (Jo.1) e ” tudo será Nele.” (Ap.21)

Sem uma pequena dose de panteísmo, como defendia o filósofo holandês Spinoza (sec. XVII) é impossível conceber o mundo criado. Se um grão de areia ou uma estrela qualquer tivesse o Ser em si mesmo, tudo seria reduzido a nada e Deus deixaria de existir.

Deus é a unidade absoluta da qual toda criatura recebe o
Ser e a vida porque, além de ser UNO, é também amor, comunicando seu Ser divino gratuitamente. Impregnado desse seu amor estão todas as criaturas, como declarou Teilhard de Chardin: “o mundo está
‘amorizado ‘ por Deus”.

O Ser não é um gélido monólito, mas comunhão de amor.

A suprema categoria das coisas não é a substância, como pensou Aristóteles, esse substrato impávido que as sustenta, mas a relação. A chamada Teoria das cordas de alguns físicos mostraria esta verdade cósmica. Nada existe, tudo coexiste porque é essencialmente relação. As “cordas” que unem e relacionam entre si os entes existentes é o amor de Deus derramado em toda a Criação. Por este amor, que nos deixa ser livres, somos ao mesmo tempo unidos a Ele eternamente.

Nada e ninguém se perderá. “Somos Dele e a Ele pertencemos”. A grande evolução de todas as filosofias e religiões nos foi dada por Cristo, revelando-nos que Deus é UNO e trino. Sua unidade é fonte de todo ser, e Seu amor fonte da vida que é comunhão. Fomos criados à Sua imagem, três pessoas divinas unidas pelo amor, por isso não podemos existir sem amor, que recebemos na medida em que o damos.

Infelizmente o filósofo romano Boécio (sec. V) nos legou uma definição de pessoa ateia, separada de Deus, amor e unidade, dizendo: “Pessoa é uma substância individual de natureza racional”. Consagrava assim o egoísmo e individualismo, origem de todo conflito, angústia e solidão. As religiões que ainda ignoram o Deus de Jesus Cristo, Pai, Filho e Espírito Santo, o Deus da Comunhão, não só separam as pessoas entre si como também de Deus.

Boa parte das guerras ao longo da História foram conflitos religiosos e o temor do Deus no qual creem muitos torna incerta a sua própria salvação. Sem o mistério da Trindade, a cuja imagem fomos criados, jamais seremos humanos e fraternos e, muito menos, filhos de Deus.

“TOMANDO JESUS CINCO PÃES E DOIS PEIXES QUE UM MENINO TRAZIA CONSIGO, DEU GRAÇAS E ORDENOU OS DISTRIBUIR A TODA UMA MULTIDÃO DE CINCO MIL PESSOAS.” (Jo. 6,1-15)

A chave, não só para interpretar, mas para crer que um texto ou narrativa é palavra de Deus é que essa palavra nos fale vivamente na nossa própria vida ou situação presente do mundo, anunciando nossa Salvação.

Nada mais anti-evangélico do que iniciar a leitura do Evangelho dizendo: “Naquele tempo…” O chamado Método Crítico Histórico
adotado na hermenêutica bíblica, que transfere a mensagem para outros tempos, mata seu poder vivificante.

A Palavra de Deus não é letra, mas espírito. Por isso Jesus nos assegurou: “céus e a terra passarão, mas minha palavra não passará” (Mt. 24,35). O povo canta com toda verdade: “Tua Palavra me dá vida…Tua Palavra é eterna”.

A narrativa do milagre da multiplicação dos pães é palavra vivificante para nossos dias.

Uma multidão faminta seguia Jesus, até os números 5, 5000 (*)
sugerem os povos dos cinco continentes, dos quais quase um terço das pessoas sofrem de fome crônica. Deus não é indiferente a essa tragédia humana, e revela
Sua Providência, na maneira como Ele dá o pão de cada dia a todos seus filhos. Os discípulos lhe disseram: “Há aqui um menino que tem, cinco pães e dois peixes”. A generosidade daquele menino faz possível o milagre. Jesus ordenou ao povo se acomodar sobre a relva para receberem o alimento. Na narrativa deste mesmo episódio no Evangelho de Mt.14, Jesus disse aos seus discípulos: “dai-lhes vos mesmos de comer”. O maná deixou de cair no deserto quando o povo passou a se nutrir dos frutos da terra prometida. A fome é um insulto a Deus Pai e o maior fracasso de todo progresso humano.

“Primeiro viver, depois filosofar” dizia Cícero. A economia é a ciência que direta ou indiretamente move o mundo, visando sempre os maiores benefícios, mas se deixa morrer uma pessoa de fome, essa ciência deixa de ser humana e carece de sentido.

Não é verdade que a terra não tenha recursos para sustentar tanta gente, pois poderia triplicar sua população e ainda haveria pão para todos. O problema da fome é que há um menino ou alguns meninos que tem cinco pães que não estão dispostos a partilhar, impedindo ao mesmo que Deus possa nos dar o Pão de que precisamos.

Quando nos apropriamos do pão que Deus dá a todos, sempre nos faltará. A mesma ciência econômica revela esta verdade.

Os bens se multiplicam na medida que se movimentam e circulam. Como a água dos poços, brota deles mais, quanto mais água deles for tomada. Um poço seca quando ninguém tira sua água. “Dando que se recebe” é a lei da graça de Deus.

“E TOMANDO OS PÃES, JESUS DEU GRAÇAS”.

Antes de realizar o milagre e distribuir o pão ao povo, Ele deu graças a Deus pelos cinco pães que tinha nas Suas mãos, para significar que o pão que comemos cada dia, mesmo com nosso trabalho, nos vem de Deus.

Tertuliano (sec. III) diz que também os campos rezam e bendizem a Deus, por isso produzem seus frutos.

Não só os cristãos, pessoas de outras religiões, costumam dar graças antes da refeição. – E após o povo ficar saciado, foram recolhidos doze cestos cheios de pão restante… Também este detalhe evangélico é palavra viva para todos os tempos. Hoje um quarto dos alimentos que Deus nos brinda são jogados no lixo por estômagos fartos e enjoados, ou o que é pior, para manter seus preços, a serviço e culto do deus dinheiro, que sacrifica e devora os seres humanos. Esquecemos as palavras primordiais de toda economia que Deus pronunciou ao criar o ser humano: “Eu dou para vocês toda classe de ervas e de frutos como alimento” (Gn.1,28) e o disse no plural, como também é no plural que pedimos o “pão nosso de cada dia nos dai hoje… “ (e não “me dai hoje” – no singular. NdE)

Companheiro em latim significa comer o pão juntos (cum pane). Deus se faz presente ao “partir o pão”. Todo pão é sagrado porque vem de Deus a nos dar vida, que na Eucaristia se faz divina.

O POVO QUIS PROCLAMAR A JESUS REI, À VISTA DAQUELE PRODÍGIO, mas Ele se retirou sozinho à montanha para orar.

Enquanto estamos neste mundo, disse Santo Inácio de Loyola, tudo temos que fazer como se Deus não existisse e, ao mesmo tempo, como se tudo proviesse Dele. Bonhoeffer preferia dizer: “Deus ocupa-se de nossas coisas últimas e nos dá as penúltimas”.

O Reino de Deus reserva Seu reinado para o fim das nossas vidas e da história da Criação.

Padre Jesus Priante
Espanha
(Edição por Malcolm Forest. São Paulo.)

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(*) Pode-se afirmar também que o número dos cestos de pães que sobraram, 12, é sugestivo do número das 12 tribos de Israel e do número de apóstolos. Nota do editor.

Celebraremos em 2022 o Bicentenário do Primeiro Santo Brasileiro, Santo Antônio de Santana Galvão (1839 – 1822).

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