A ação da piedade popular do descendimento da Cruz “conclui” o dia da Sexta-Feira Santa. A Sexta-Feira Santa, como bem sabemos, é um dia de oração, reflexão, silêncio, jejum e abstinência de carne. O primeiro ato litúrgico da Sexta-Feira Santa do qual podemos participar é a adoração ao Santíssimo Sacramento na parte da manhã; ainda em algumas paróquias, podemos participar do sermão das Sete Palavras de Cristo na Cruz. O segundo momento do qual podemos participar nessa Sexta-Feira Santa é a Ação Litúrgica da Paixão e adoração à Santa Cruz; em seguida, a procissão com a imagem de Nosso Senhor morto e Nossa Senhora das Dores pelas ruas do bairro.
Antes da procissão acontece o sermão do descendimento da Cruz. O padre profere o sermão quando todos os fiéis, reunidos no lugar apropriado, presenciam a instalação da cena do Calvário, com as três cruzes: a de Jesus e as do bom e do mau ladrão. O sermão é de uma riqueza teológica muito grande, e precisamos resgatar esses momentos para reavivar a fé popular do povo. Aqui em nossa Arquidiocese temos os vários autos da paixão, o principal do qual ocorre nos arcos da lapa. É um modo artístico e cultural de passar esse acontecimento ao nosso povo.
É importante que, ao chegar da procissão, se permita aos fiéis venerar e rezar diante da imagem do Senhor morto e de Nossa Senhora das Dores. O povo de Deus precisa compreender melhor o mistério da Paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor.
Outros sermões enriquecem e fazem parte da Semana Santa, como, por exemplo, o sermão das dores de Nossa Senhora, o sermão do encontro, o sermão do depósito e o sermão das Sete Palavras de Cristo na Cruz. Procuremos participar desses sermões da Semana Santa e enriquecer teologicamente a nossa fé. Só temos uma Semana Santa ao longo de todo o ano e apenas uma Sexta-Feira Santa; portanto, façamos o esforço de participar dela.
Além do sermão proferido pelo sacerdote, esse momento, na medida do possível, é encenado: usa-se uma cruz própria ou algum paroquiano representa esse momento, encenando Jesus. À medida que se encena, dá-se mais vivacidade ao momento. Normalmente, esse ato é realizado em um lugar alto, na frente da igreja, para que todos os fiéis possam ver e participar.
Não podemos deixar o Senhor pregado na Cruz; temos que tirá-lo dessa Cruz, limpar as suas feridas e entregá-lo à sua Mãe para que possa sepultá-lo. Sabemos que o Senhor venceu a morte: não está mais no sepulcro nem na Cruz; o madeiro está vazio, pois o Senhor da vida venceu a morte. Precisamos tirá-lo da Cruz para que Ele possa ressurgir glorioso no Sábado Santo. Jesus ressurgirá glorioso com a marca dos pregos e da lança em seu corpo. Peçamos que os nossos pecados tenham sido pregados na Cruz, e que possamos ressurgir para uma vida nova na Vigília da Ressurreição. Essa é a proposta da Quaresma e da Páscoa: deixar “morrer” em nós o homem velho e ressurgir para uma vida nova.
Ao tirar o corpo do Senhor da Cruz e entregá-lo à sua Mãe, podemos lembrar de tantas mães que recebem os corpos de seus filhos nos braços, que infelizmente são mortos precocemente devido à violência, às drogas ou a acidentes. Com certeza, a dor de Nossa Senhora foi a mesma; mas Ela recebeu o conforto de Deus e guardava tudo em seu coração, tendo a certeza de que Ele ressuscitaria dos mortos. Rezemos por essas mães dos dias de hoje, que recebem o corpo de seus filhos em seus braços, para que recebam de Deus o conforto e acreditem na vida eterna. Ninguém quer ver o outro sofrer, ainda mais sendo filho; por mais que seus pecados tenham sido grandes, não cabe a nós julgar as suas atitudes. Entreguemos aqueles que morrem precocemente à misericórdia de Deus.
A partir do evento da Cruz e Ressurreição, os evangelhos começaram a ser escritos. Os evangelhos fazem memória de tudo aquilo que Jesus fez e têm o intuito de guardar em perpétua memória tudo aquilo que Ele realizou enquanto esteve entre nós. Normalmente, escreve-se sobre uma pessoa após a sua morte, para que tudo aquilo que ela fez permaneça vivo na memória.
Na celebração da Paixão, adoramos a Santa Cruz, mas não adoramos o madeiro em si; adoramos Aquele que morreu nela e venceu a morte. É comum, enquanto adoramos a Cruz, entoarmos este cântico: “Vitória, tu reinarás; ó Cruz, tu nos salvarás”. A Cruz, que para muitos é derrota ou o fim, para nós é vitória e o início de uma nova vida. Desde o nosso Batismo, somos marcados com a Cruz de Cristo, e a fé na Cruz nos acompanhará ao longo de toda a vida, até o dia de nossa morte.
Jesus se entrega à Cruz livremente. Ele, que foi aclamado como Rei ao entrar em Jerusalém, é crucificado e recebe como “sinal” de realeza a coroa de espinhos. Como um cordeiro conduzido ao matadouro, Ele sofre em silêncio e é entregue à morte de Cruz. Jesus, desde o início, é um rei diferente: nunca quis o poder terreno, não vivia em palácio nem vestia roupas de ouro, mas viveu sempre a humildade e ensinou unicamente o amor. A vida pública de Jesus foi uma subida rumo a Jerusalém e tinha como meta selar eternamente a aliança de amor de Deus com a humanidade.
O descendimento da Cruz inicia-se tirando primeiro a inscrição “INRI”, que significa: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, escrito em hebraico, latim e grego. Essa inscrição se torna para nós uma profissão de fé, e rezamos diariamente no Pai-Nosso: “Venha a nós o vosso Reino”. O Reino de Deus só se fará presente em nossa vida a partir do momento em que fizermos a vontade de Deus. Ele é o caminho, a verdade e a vida.
“Tirem a coroa de espinhos”: essa coroa não era digna de um rei, ainda mais de um rei como Jesus. Puseram uma coroa falsa naquele que era o verdadeiro Rei. Os espinhos simbolizam as consequências do pecado. Muitas vezes, nós cravamos essa coroa em Jesus quando não realizamos a sua vontade e cometemos pecados.
“Desprendam o braço direito”: ao ser crucificado, Jesus recebeu pregos em suas mãos e pés. Imaginemos a dor que Ele sentiu. Nós também colocamos esses pregos em Jesus todas as vezes que pecamos e não fazemos a sua vontade. Ferimos Jesus também quando não permitimos que as nossas crianças tenham uma educação de qualidade.
“Desprendam o braço esquerdo”: é preciso desatar os braços do Mestre — o braço que foi estendido e preso na Cruz, o braço que foi feito para abençoar e fazer o bem, não pode permanecer preso. Que, todas as vezes que o nosso braço nos levar a pecar, lembremo-nos das feridas que Jesus sofreu ao ter seu braço preso na Cruz.
“Desprendam os pés”: os pregos de seus pés, certamente, eram maiores que os das mãos, pois pregaram seus dois pés juntos. Imaginemos tamanha dor, somada ao flagelo, à coroa de espinhos e aos pregos das mãos. Que, todas as vezes que impedirmos alguém de caminhar ou privarmos alguém de liberdade, recordemos o que Jesus sofreu ao ter seus pés pregados.
Por fim, “desçam o corpo de Jesus”: nesse momento, façamos um profundo silêncio em sinal de respeito ao Mestre, que, falecido, é retirado da Cruz. Imaginemos a cena do corpo de Jesus sendo entregue a Maria, sua Mãe. Lembremo-nos, então, de tantas mães que recebem seus filhos mortos em seus braços — vítimas da violência, de balas perdidas, do tráfico, de doenças, entre outras causas. Que o Espírito Santo conforte o coração dessas mães, do mesmo modo que confortou o coração de Maria Santíssima.
Após retirar o corpo do Senhor da Cruz, sepultemo-lo, crendo que Ele ressuscitará dois dias depois. Da mesma forma que Jesus disse a Lázaro: “Vem para fora”, digamos também: “Senhor, vem para fora”. Vem nos libertar da fome, da pobreza, da violência, das drogas e da falta de fé. Vem trazer moradia digna para todos. Que, com a Ressurreição no Sábado Santo, tudo se faça novo e o mundo se renove com a luz que ilumina as trevas.




