Ao cair da tarde desta dolorosa Sexta-feira Santa, a nossa Igreja nos convoca, envolvida em um profundo e respeitoso luto, para vivenciarmos um dos momentos mais comoventes e silenciosos de toda a Paixão: o Descendimento da Cruz. O grande clamor do Calvário já cessou. A terra, que antes tremeu, agora se cala. O véu do santuário encontra-se rasgado de alto a baixo. Lá no alto do monte Gólgota, ergue-se o terrível patíbulo de madeira, e nele repousa, inerte e desfigurado, o corpo sagrado do nosso Redentor. A liturgia e a piedade secular do nosso povo nos convidam agora a nos aproximarmos do madeiro não mais para presenciar o sofrimento ativo, mas para recolher os frutos da redenção, participando espiritualmente do ato de descer o Corpo de Deus da cruz e entregá-lo aos braços de sua Mãe Santíssima.
Para adentrarmos neste mistério de amor e dor, os Evangelhos nos oferecem as diretrizes exatas do que ocorreu naquelas horas crepusculares. O evangelista São João nos relata a urgência ditada pela lei da época: “Como era o dia da Preparação, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado – porque aquele sábado era um dia muito solene –, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirassem dali” (Jo 19,31). Os soldados quebram as pernas dos dois ladrões, mas ao chegarem a Jesus, constatam que Ele já estava morto. Então, cumpre-se de forma magistral a profecia de Zacarias: “Um dos soldados traspassou-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água” (Jo 19,34), para que se cumprisse a Escritura que diz: “Olharão para aquele que transpassaram” (Jo 19,37; cf. Zc 12,10).
É exatamente neste cenário de devastação e pressa que a providência divina suscita a coragem naqueles que antes viviam nas sombras do medo. O Evangelho de São Mateus narra de forma belíssima o surgimento de um homem providencial: “Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo lhe fosse entregue” (Mt 27,57-58). Junto a ele, aproxima-se também Nicodemos. Aquele mesmo mestre da lei que, no início do ministério de Jesus, o procurara na escuridão da noite por medo das represálias, agora caminha à luz do dia em direção ao Calvário, trazendo “cerca de trinta quilos de uma mistura de mirra e aloés” (Jo 19,39).
Contemplemos a atitude destes dois homens. A cruz, que escandalizou e afugentou os discípulos mais íntimos, concedeu uma coragem inabalável aos discípulos ocultos. O amor, quando é verdadeiro, não suporta ver o Amado exposto à vergonha. Com suprema reverência, eles apoiam as escadas no madeiro ensanguentado. O som surdo do martelo e do alicate, retirando os cravos que perfuravam as mãos e os pés do Salvador, ecoa no silêncio da tarde. Com infinito cuidado, eles retiram a coroa de espinhos daquela fronte sagrada, desvencilhando-a dos cabelos empastados de sangue. Cada chaga, cada ferida é tratada com o máximo respeito, pois ali jaz o verdadeiro Templo de Deus, destruído pela maldade humana, mas que ressuscitará em três dias (cf. Jo 2,19).
Como monge cisterciense, não posso deixar de me voltar aos ensinamentos de São Bernardo de Claraval, que tão profundamente meditou sobre as chagas do Senhor. Ele nos ensina que, no mistério da cruz, a majestade de Deus se escondeu totalmente sob o manto da fraqueza humana. O corpo que desce da cruz é a prova cabal e incontestável de que Deus levou o seu amor pela humanidade até as últimas e mais trágicas consequências.
O corpo inerte de Jesus é, então, descido e entregue nos braços de Nossa Senhora. A tradição cristã imortalizou este momento com a imagem da Pietà, a Senhora da Piedade. Diante dos nossos olhos, repete-se em contraste dilacerante o mistério de Belém. Na manjedoura, Maria segurou o corpo quente, cheio de vida e sorridente do Menino Deus, envolvendo-o em faixas com alegria (cf. Lc 2,7). Agora, no sopé do Calvário, ela recebe em seu colo o corpo frio, rígido e sem vida do seu Filho, preparando-se para envolvê-lo num lençol funerário. Neste abraço mudo e doloroso, cumpre-se de forma total a profecia do velho Simeão no Templo: “Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 2,35). A dor de Maria é imensurável, pois ela abraça não apenas o seu Filho morto, mas abraça nele toda a humanidade ferida, redimida pelo preço daquele sangue inocente.
Após este momento de despedida, inicia-se o rito do sepultamento. O Evangelho atesta de forma clara a realidade do total despojamento terreno de Jesus. Segundo São Mateus: “José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que ele havia mandado escavar na rocha” (Mt 27,59-60). E São João complementa o cenário: “Havia um jardim no lugar onde Jesus fora crucificado e, no jardim, um túmulo novo, no qual ninguém ainda fora sepultado” (Jo 19,41).
É nosso dever pastoral alinhar as informações deste mistério sagrado à reflexão que a Igreja do Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), propõe para o ano de 2026. A Campanha da Fraternidade deste ano estabelece como foco o tema “Fraternidade e Moradia”. Quando lemos os dados estritos do Evangelho sobre a morte e o sepultamento de Cristo, não inventamos interpretações forçadas, mas constatamos um fato teológico e histórico absoluto: o Filho de Deus encarnado conclui a sua missão terrena sem possuir uma moradia própria, sem um teto onde pudesse reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20) e, no momento derradeiro, é depositado num sepulcro emprestado, cedido pela caridade de José de Arimateia. O mistério do Descendimento da Cruz nos mostra o Senhor em total solidariedade com a condição daqueles que nada possuem.
O sepultamento é concluído de forma austera. “Depois, rolou uma grande pedra à entrada do túmulo e foi-se embora” (Mt 27,60), atesta Mateus. A pedra sela a sepultura. No entanto, o amor não se afasta. O Evangelho faz questão de registrar a fidelidade silenciosa das mulheres: “Maria Madalena e a outra Maria estavam ali, sentadas de frente para o túmulo” (Mt 27,61). Elas não arredam pé. Elas permanecem vigilantes, unidas na dor, sendo as sentinelas do mistério.
O Sermão do Descendimento não é um epílogo de derrota, mas o limiar da esperança. Ao participarmos deste rito, devemos nos perguntar: com qual reverência nós descemos o corpo de Cristo de nossas próprias cruzes diárias? Como nós tratamos o Corpo de Cristo quando o recebemos na Eucaristia? Como nós amparamos o Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja e que continua a sofrer nas feridas da humanidade?
Ao deixarmos as nossas igrejas nesta noite, mergulharemos no profundo silêncio do Sábado Santo. É o dia em que a Igreja não canta, não celebra a Eucaristia, mas permanece junto ao túmulo, meditando na descida do Senhor à mansão dos mortos. Que possamos levar para as nossas casas a coragem de José de Arimateia, a generosidade de Nicodemos, a perseverança de Maria Madalena e, acima de tudo, o silêncio adorador e confiante da Bem-Aventurada Virgem Maria. Que a nossa fé não desmorone diante da pedra do sepulcro, mas aguarde, com a alma pacificada, o romper da aurora gloriosa da Ressurreição.




