PASTOR, POETA E PROFETA

    Se lhe perguntássemos com qual dos títulos gostaria de ser conhecido sua resposta seria um sonoro “Nenhum”. Se subvertia a qualquer espécie de honra ou tributo pessoal. Sobre si mesmo um dia escreveu: “Me chamarão subversivo. E lhes diria: eu sou. Por meu povo em luta, vivo. Com meu povo em marcha, vou”. Seu anel de tucum e seu chapéu de palha ou boné faziam as vezes de seus símbolos eclesiásticos, dos quais só a estola não destoava da tradição apostólica. Bispo por ordem clerical, mas pastor sobretudo. Poeta pela veia sentimental, mas profeta. Profeta pela voz das denúncias, porém sempre um suave poeta em paz com seu povo.

                Uma Paz questionadora, insubordinada, pedra no sapato de muita gente. Um revolucionário da inquietude, da mística sempre em ebulição no meio da massa disforme, desigual. Pedia em oração que Deus não permitisse cruzar os braços diante de qualquer injustiça. Viu seu colega sacerdote ser morto numa delegacia, quando ambos tentavam defender uma mulher espancada arbitrariamente. Então escreveu: “Dá-me Senhor, aquela Paz inquieta/ que denuncia a Paz dos cemitérios/ E a paz dos lucros fartos/ Dá-me a Paz que luta pela Paz”.

                Pastor poeta. Muitos torciam o nariz pela ação sempre incômoda dum “bispinho” do interior, de uma simples prelazia encravada no sertão mato-grossense, onde chegou para fundar uma missão em meio a indígenas e marginalizados. Lá chegando encontrou quatro bebês mortos, dentro de caixas de sapatos na soleira de sua casa. Uma velada ameaça. Foi o estopim de um episcopado em defesa daquele povo oprimido, massacrado e ironicamente vítima da concentração fundiária naquela região. Sua verve de poeta explodiu em versos tintos de vermelho, de paixão por esse povo. Escreveu a primeira das denuncias que marcariam seu episcopado, então acusado de ação comunista. Não tinha outro caminho. Sua situação era tão caótica que sentiu na pele as agruras do povo, passou necessidades, sofreu perseguições e incompreensões até dentro da própria Igreja. Um dia chegou a celebrar com “cachaça e bolachas”, por falta absoluta do “pão e vinho” tradicionais. Mas não perdeu a essência do ato místico, onde realmente o essencial era invisível, a presença era a essência naqueles símbolos fora dos padrões. Sua poesia se transubstanciava na oração consagrada de seus poderes sacerdotais.

                Pastor profeta. Em vez da mitra, um chapéu. O ouro do anel tinha a cor do coquinho silvestre. O báculo era um cajado indígena. Acusado de subversivo, foi marginalizado socialmente, a ponto de muitos desejarem sua expulsão do país. Mesmo assim, não se intimidou. Denunciou, anunciou, como todo bom profeta, a ponto de não temer as ameaças de morte que muitos lhe fizeram. Sua poesia tornou-se sua voz profética e inibidora. “Eu morrerei em pé, como as árvores. Me matarão em pé. O sol, testemunha maior, imprimirá seu lacre sobre meu corpo duplamente ungido. De golpe, com a morte, se fará verdade, a minha vida. Por fim, terei amado”. E amou até o fim: “No final do caminho me dirão: – E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes”.

               D. Pedro Casaldáliga. O catalão radicado no Brasil desde 1968 – e que nunca mais voltou para sua terra natal – morreu neste 8 de agosto de 2020, aos 92 anos. Bispo emérito, vinculou seu nome em definitivo aos pobres da prelazia de São Félix, às margens do rio Araguaia. Seu contraditório não foi pertencer a uma corrente de ação libertadora na igreja latino-americana, mas de ter sido, simplesmente, pai dos pobres e exercer seu pastoreio com uma ação profética, poética, radicalmente cristã. Descanse em Paz, na sua inquietude.

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