O ZELO POR TUA CASA ME CONSUMIRÁ

    Quaresma: tempo para renovar fé, esperança e caridade. É nesse espírito que estamos, neste final de semana, celebrando o terceiro domingo do tempo quaresmal, tempo forte da graça de Deus para a vida de toda a Igreja e para renovarmos nossa vida ante o Senhor que nos ama infinitamente.

    É neste espírito de renovação próprio do tempo quaresmal que o Papa Francisco nos recorda em sua mensagem para a quaresma deste ano que: “No contexto de preocupação em que vivemos atualmente onde tudo parece frágil e incerto, falar de esperança poderia parecer uma provocação. O tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência (cf. Enc. Laudato si, 32-33.43-44). É ter esperança naquela reconciliação a que nos exorta apaixonadamente São Paulo: «Reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20). Recebendo o perdão no Sacramento que está no centro do nosso processo de conversão, tornamo-nos, por nossa vez, propagadores do perdão: tendo-o recebido nós próprios, podemos oferecê-lo através da capacidade de viver um diálogo solícito e adotando um comportamento que conforta quem está ferido. O perdão de Deus, através também das nossas palavras e gestos, possibilita viver uma Páscoa de fraternidade.”

    Renovar a nossa esperança! Em meio a tempos tão desafiadores para todos nós e a um ambiente de lamentos por todas as partes, renovemos nossa confiança naquele que é o Senhor da história e pode todas as coisas.

    É neste contexto que a Palavra de Deus, nos acompanhando neste tempo de caminhada quaresmal, nos apresenta um convite a renovar nosso zelo pelas coisas do Senhor e a purificar a morada de Deus que somos cada um de nós.

    Este convite nos vem dirigido através do relato de Jo 2, 13-25, onde é descrita a atitude de Jesus que, consumido pelo zelo e pelo ardor das coisas do Senhor, purifica o Templo de Jerusalém. Jesus havia subido ao Templo de Jerusalém por ocasião da Festa da Páscoa que se aproximava. Duas situações carregadas de grande significado para o povo Judeu: primeiramente o Templo, lugar por excelência da presença de Deus em meio ao seu povo e a grande festa da Páscoa, a festa da passagem do anjo exterminador e da libertação do jugo do Egito. Ao chegar no Templo, Jesus encontra um ambiente cercado pelo comércio e pela oportunidade de lucrar com as realidades sagradas.

    Tendo uma atitude que num primeiro momento pode nos causar certo espanto, mas nada mais é do que a atitude de alguém que ama inteiramente, Jesus purifica aquele ambiente que é essencialmente voltado para o culto e para o sagrado, expulsando todos os vendedores que ali se encontravam: “Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas.
    16E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!’ 17Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: ‘O zelo por tua casa me consumirá’.
    (Jo 2, 15-17).

    A purificação que Jesus faz do Templo se apresenta como um grande convite para todos nós neste tempo de quaresma: nós somos o Templo de Deus, morada de Deus pela Graça. Assim como Jesus, purifiquemos de nossas vidas toda palavra, toda ação, todo comportamento e até todos os pensamentos que não são condizentes com Aquele que habita em nós. Precisamos sempre nos purificar. Assim como nossas casas e nossos ambientes precisam ser continuamente cuidados e limpos, o Templo do nosso corpo deve ser continuamente purificado, sinal do respeito e do valor que damos àquele que habita em nós.

    Ante o questionamento dos judeus, que pareciam já estar acostumados com aquelas situações de desrespeito, Jesus coloca-se como O Verdadeiro Templo e faz clara referência ao vindouro episódio da sua paixão e morte: Então os judeus perguntaram a Jesus: ‘Que sinal nos mostras para agir assim?’ Ele respondeu: ‘Destruí, este Templo, e em três dias o levantarei.’ Os judeus disseram: ‘Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?’ Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. (Jo 2, 18-21). Deixemos que a celebração dos mistérios pascais sejam exatamente essa oportunidade intensa de purificação do Templo de Deus que somos nós.

    Na primeira leitura (Ex 20, 1-17), vemos o grande momento em que Deus dá a Lei ao seu povo, lei esta que faz parte do código de santidade, onde o povo, para mostrar que é um povo pertencente a Deus, deve viver essa realidade. Apresentados de uma maneira mais ampla, estão contidos aí os 10 mandamentos, que são como que um caminho de liberdade dado por Deus para que o homem possa viver cada dia mais segundo sua dignidade de Filho de Deus, criado à Imagem e Semelhança do Criador. Não podemos olhar para os mandamentos como um jogo que nos foi imposto, mas nele está contido o “manual de instrução” para que o ser humano possa viver dignamente segundo seu destino final.

    O Salmo de resposta vem exatamente exaltar a grandeza do que a Lei do Senhor tem a manifestar em nossas vidas: A lei do Senhor Deus é perfeita, conforto para a alma! O testemunho do Senhor é fiel, sabedoria dos humildes. Seguindo esse contexto da Lei do Senhor que é uma Lei diferente dos preceitos traçados pelos homens é que Paulo, na segunda Leitura (1Cor 1,22-25), vai nos falar da sabedoria de Deus que rompe e surpreende os esquemas traçados pelos homens:  Irmãos: Os judeus pedem sinais milagrosos, os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos.

    Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é dito insensatez de Deus

    é mais sábio do que os homens, e o que é dito fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Só a partir do momento em que nos olhamos e olhamos o mundo a partir da lógica de amor e misericórdia da parte de Deus é que poderemos renovar a nossa esperança.

             Vivamos intensamente a caminhada quaresmal, purificando o Templo de Deus que somos cada um de nós e renovando nosso zelo pelas coisas do Senhor. Renovemos a nossa esperança e sejamos sinais de esperança em meio ao mundo, pois “a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.”  (Rom 5, 5). Dentro de poucos dias celebraremos as Solenidades de São Jose e da Anunciação do Senhor. Que a Virgem Maria e São José nos acompanhem nessa caminhada quaresmal, fazendo-nos cada dia mais vigilantes aos planos de Deus.

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