DE UMA CRIAÇÃO À OUTRA – CARTAS DO PADRE JESUS PRIANTE

As leituras deste domingo sugerem múltiplas mensagens. A Bíblia toda é um conjunto polifacetado de anúncios, doutrinas, normas, conselhos, bênçãos e maldições, atributos de Deus e do seu agir na história, visando sempre nossa salvação, revelada em forma de promessa e de esperança. Mais do que uma doutrina ou prática moral, a Biblia leva-nos ao encontro de comunhão com Deus, feito carne (histórico) e feito palavra humana na pessoa de Jesus de Nazaré. Presente no tempo faz mais de 2000 anos neste concreto planeta azul, escolhido por Deus para ser sede da vida e do sentido do universo. Neste singular espaço e tempo da Criação, Jesus Cristo é tudo quanto Deus tinha a nos dizer. Por isso, afirma São Paulo: “Porque se confessares com tua boca e com teu coração que Jesus é o Senhor (Deus) serás salvo” (Rm.10) . Nessa confissão salvífica não há doutrinas nem mandamentos, apenas um ato de Fé, pelo qual recebemos a Vida Eterna.

Na nossa condição humana, vemos e pensamos a realidade em perspectiva, desde um ponto de vista, pois a verdade é uma ingente montanha que supera toda possível visão da nossa razão. Seguindo a perspectiva dos domingos anteriores desta Quaresma, percebemos nossa Salvação como fruto da Aliança de Deus conosco. Num primeiro momento, Deus revelou-se aliado do ser humano e, por extensão, com toda a Criação, como um “Deus de vivos e não de mortos”, pró vida.

No mítico Noé, deixou-nos o sinal físico do Arco-íris como sacramento e garantia de que a vida, particularmente do ser humano, não será exterminada ainda que tenhamos de passar por guerras, doenças ou catástrofes.

Numa segunda etapa, essa mesma Aliança de Deus foi revelada na pessoa histórica de Abraão como solene promessa de que a vida de todos os povos e gerações será bendita e feliz. Neste domingo, a Aliança Divina através de Moisés, 1200 anos A.C, reveste-se de uma nova dimensão: Deus não só quer nosso bem e o bem da Criação, como também, os que fomos dotados de consciência, sejamos bons e santos como Ele é santo. A bondade e a santidade torna nossa vida, já neste mundo, melhor.

“EU SOU O SENHOR, TEU DEUS, QUE TE TIROU DA ESCRAVIDÃO DO EGITO. NÃO TERÁS OUTRO DEUS, COMO SEU ALIADO, FORA DE MIM” (Ex. 20,1-17).

Crer que Deus existe é tão problemático para um ateu como para um monge. Só podemos experimentar sua existência pela Fé, postulada pela mesma razão.

Desde a premissa: “Deus existe”, afirma H. Kung, a realidade de nós e do mundo torna-se mais lúcida e coerente. Sem Ele, o ser e a vida carecem de sentido.

A consciência cognitiva de Deus que a Fé brinda a nossa razão, se fez consciência moral na entrega do “Código da Aliança” a Moisés e seu povo. Antes, ao menos como prescrição divina, a humanidade carecia de lei. Isso explica o episódio de Abraão mentir, apresentando Sara como irmã e não como sua esposa ao Faraó (Gn.12) que pretendia possuí-la, castigando Deus, não a Abraão como mentiroso, mas ao Faraó. Antes de Moisés, afirma São Paulo, não existia consciência de pecado. Este nos veio pela Lei, a cumprir uma função pedagógica de nos levar a Deus, mostrando a impossibilidade de nos salvar por nós mesmos.Se a razão precisa dar lugar à Fé para poder pensar de maneira sensata, a lei ou a consciência moral precisa dar lugar à graça da Salvação que nós veio por Cristo, para sermos bons e santos. São Paulo foi, talvez, o homem mais consciente do dever moral e da impossibilidade de poder realizá-lo. Por isso, após conhecer a graça de Cristo, considerava tudo um “lixo”, inundando seus discursos de ação de graças por ter sido salvo gratuitamente em Cristo (Ef.2,8).

A proclamação dos mandamentos tem de ser enquadrada no contexto da Aliança. A vida é experimentada como uma luta, na qual todos, fatalmente, seremos derrotados, se Deus não for nosso aliado. Nossos dois grandes inimigos são o pecado e a morte, com seus ingentes exércitos de males físicos, psíquicos, sociais, cósmicos e diabólicos. De todos eles temos, por segura e certa, a Vitória em Cristo Ressuscitado. O Código da Aliança Mosaica, expressão da lei natural a inspirar toda lei positiva, faz possível nossa convivência humana. Esse Código adotou diferentes versões, tanto nas diversas tradições judaicas e cristãs. Mas, o grande erro consiste em apresentá-lo desligado das suas palavras introdutórias: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da escravidão do Egito. Não terás outro Deus, como seu aliado fora de mim”. São estas palavras as que fundamentam e dão sentido à Lei de Deus, tido, não como legislador e juiz, a premiar ou castigar, mas como Salvador.

A Aliança de Deus não é, nem tem o sentido de contrato: “do ut des” (dou para que você de ), mas de comunhão de forças. Deus rema conosco no mesmo barco rumo ao Reino dos Céus. Com Ele, todos chegaremos. A lei não é uma estipulação do “até aqui e basta”, mas um dinamismo de vida para Deus contra toda esclerose do puro legalismo.

“ANUNCIAMOS CRISTO CRUCIFICADO, ESCÂNDALO PARA OS JUDEUS E LOUCURA PARA OS GENTIOS, MAS, PARA DEUS, PODER E SABEDORIA” (1Cor.1,22-25).

Também podemos ler este texto na perspectiva da Aliança. A sabedoria e poder da cruz era desconhecida em todas culturas e povos antes de Cristo. O sofrimento era maldito e carente de sentido. De fato, sem a Ressurreição, a vida é uma paixão inútil.

Cristo trouxe ao mundo a lúcida e brilhante interpretação da nossa existência e de toda a Criação como um processo de “gestação” que passa necessariamente pela dor, culpa, limitação, insatisfação, carências e morte. Nesse processo salvífico não estamos sós, o mesmo Deus, em Jesus de Nazaré, está conosco. Ele assumiu nosso o sofrer, o pecado e a morte na cruz para, também com Ele renascer, livres de todo mal, pela sua Rssurreição (Rm. 6).

Nosso morrer e viver é de Cristo.(Fp.1,21). Na primeira Criação, Deus desceu ao nada para dar ser e vida às coisas. Na segunda Criação, em Cristo, desceu ao inferno de nossos pecados, dores e morte para tornar-nos imortais e gloriosos. Esta lógica divina escandaliza a todas as religiões e contradiz toda razão humana. No entanto, é poder e sabedoria de Deus.

“DESTRUÍ ESTE TEMPLO, E EM TRÊS DIAS EU O LEVANTAREI” (Jo.2,13-25)

A humanidade e toda a Criação são em Jesus de Nazaré, Corpo e Templo de Deus a ser transformado gloriosamente pela Ressurreição. Deus criou o mundo em duas etapas: no pecado, na dor e na morte, e na santidade da vida feliz e imortal. Nessa ponte da passagem de uma Criação à outra, é que nós e o universo transitamos até o fim dos tempos. Passagem que celebramos através da Pascoa, feita real e presente na Eucaristia, enquanto esperamos a vinda gloriosa de Cristo a findar o percurso da Salvação universal.

Não viajamos sós. Cristo estará conosco, como nosso aliado, até a última criatura atingir a meta do Reino de Deus. A partir da Ressurreição de Cristo, após quase 14 bilhões de anos da aventura cósmica e de três milhões de anos da aventura humana, “a ideia da morte é uma homenagem à vida” (Augusto Cury em “O Futuro da Humanidade”). De fato, diz o mesmo autor, “o maior bem que podemos fazer a uma semente é enterrá-la, só assim terá a vida que sonhou”. A Ressurreição de Cristo, nossa Páscoa, nos permite passar por este mundo sem temor, como pássaros que enfrentam as tempestades que, ainda com seus ninhos destruídos pelo vento, continuam a cantar nos dedos nus das árvores.

A Pascoa é a única chave para ler o sentido da História humana.

“O ZELO DE TUA CASA ME DEVORA”.

Estava próxima a Páscoa. Jesus entrou no Templo de Jerusalém, expulsando com autoridade as pessoas que nos seus átrios negociavam a troca de moedas e venda de animais para o povo dar culto a Deus com suas oferendas e sacrifícios. Ele lhes disse: “Não façais da casa do meu Pai uma casa de comércio”, lembrando o Sl,69,9: “O zelo da tua casa me devora”. O gesto de Jesus visava revelar a verdadeira Aliança de Deus.

Não são os nossos sacrifícios e oferendas que aqueles comerciantes do templo propiciavam ao povo o que nos salvam, mas a graça de Deus. O culto que temos de dar a Deus é de ação de graças, um culto eucarístico.

Casa (em grego, “oikos”) tem o sentido de família. O zelo pela família humana que, em Cristo tornou-se Família Divina, e da qual nada nada nos poderá separar (Rm.8), mostra-nos que nossa Salvação é desejo e vontade do mesmo Deus. Sua Aliança não rege-se pelo contrato mútuo a cumprir cada um sua parte, mas é por inteiro compromisso de Deus pela nossa Salvação, apesar de nossos pecados, contra todo “tráfico religioso” que todos praticamos, obrigando a Deus a nos dar algo em troca do cumprimento de nossas promessas, sacrifícios e oferendas.

Caberia também aplicar as palavras de Jesus à propalada “Globalização”. Não façais da casa comum da humanidade, a Terra, uma casa de comércio como de fato estamos fazendo, mas uma casa de verdadeiros irmãos a partilharem as mesmas alegrias e tristezas. Meta impossível de realizar até não reconhecer que, em Cristo, somos todos filhos do único Pai, que é Deus.

Estamos ainda longe de algum dia fazer presidir a Cristo a assembleia da ONU, como aliado de todos os povos. Até isso não acontecer, nunca seremos verdadeiramente humanos nem irmãos. Os conflitos e as guerras continuarão a encher as páginas da nossa História. Esta é a razão pela qual não nos cansamos de suplicar:

“Vem, Senhor, Jesus”. O slogan dos Cursilhos de Cristandade: “Eu e Cristo, maioria absoluta”, é a síntese da nossa Fé e a esperança de Salvação e também de todo humanismo. Sem Cristo somos minoria desprovida de futuro.

Padre Jesus Priante
(Edição e título por Malcolm Forest. São Paulo.)

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