O SANTO CASSADO

                Óforos vivia na Grécia, por volta de 250 DC. Não contente com as brigas em que se envolvia, para defender seus príncipes e reis, que acabavam por decepcioná-lo sempre, passou a estudar as virtudes e integridade de seus eleitos, antes de tomar para si o mérito de suas defesas.

                O primeiro rei, apesar de simpático e audacioso em seus projetos, mostrou-se temeroso ao simples pronunciar de um nome: Diabo! Concluiu que esse rei não era tão valente quanto imaginava! Resolveu então servir àquele que fazia curvar a reluzente coroa de um soberano. Um dia, caminhando por uma estrada, viu o Diabo se desviar de uma cruz, demonstrando respeito e medo. Óforos resolveu, então, servir ao Senhor da cruz, do qual até o Diabo desviava o seu caminho e para o qual se curvava respeitoso.

                Disposto a servir àquele Senhor, seguiu o conselho de um sábio: “Para servir ao Cristo era preciso, por primeiro, servir aos irmãos!”. Passou a transportar pessoas entre as margens de um caudaloso rio sem pontes. Então um alegre menino se utilizou daquele serviço. O peso daquela criança parecia aumentar a cada passo. Chegou à outra margem ofegante, como se tivesse carregado o mundo. Interrogado, o menino respondeu: “Carregastes nas costas não só o mundo, como também Aquele que o criou”.

                Desde então, tornou-se “Cristóforos”, em grego “o que carrega Cristo”. Essa é a lenda que deu origem à devoção a São Cristóvão, padroeiro dos motoristas e navegantes, que uma revisão ritual da Igreja, em 1969, excluiu de suas festas litúrgicas. Porém não da devoção popular, para o qual o santo continua a transportar os viajantes deste mundo.

                Lenda ou não, a vida de São Cristóvão merece nosso respeito e veneração. Vivemos um momento de caça aos “santos”, porém com um verbo mais objetivo. Cassar apenas não basta; precisamos mesmo é caçar. Para tal, necessário se faz uma revisão das virtudes e méritos de nossos eleitos, “antes de tomar para si o mérito de suas defesas”. A caçada já resulta em alguns cassados. A aparente santidade de alguns nos remete aos contos e fábulas do passado, em especial ao clássico do lobo em pele de cordeiro. Infelizmente, uma alcateia deles anda solta, caminha livre por nossas estradas, desviando-se Daquele que é o soberano de todas as verdades. Só Cristo nos dá forças para suportar o peso desse mundo de incoerências!

                A realidade não é lenda. Quando uma escandalosa ventania faz agitar as águas de um outrora tranquilo e maravilhoso lago de esperanças, não podemos simplesmente virar-lhes as costas e nos abrigarmos em nossas redomas. É esse o momento de acreditar na força interior da fé que nos move e somar-se às dificuldades do povo, se quisermos vencer o lago em reboliço, se ainda desejarmos alcançar a outra margem, a praia de nossos sonhos. Aos que se desiludem com os mandos e desmandos de seus “soberanos”, aos que se desesperam na busca de virtudes entre humanos, aos que enxergam mais qualidades entre os senhores das trevas do que na simplicidade da fé cristã, um desafio lhes sobra: deixar de lado o peso da própria mesquinhez. Há um fardo muito mais precioso do que o das aparentes ilusões: a cruz da fé. Ela nos ensina a carregar Cristo em nossos corações.

                Todo cristão, por extensão de seu ministério, é também um cristóforo, carrega consigo o Cristo. Com o peso dessa responsabilidade haveremos de alcançar a outra margem, sem medo de perder nossas esperanças. Para bom entendedor… Ou melhor, usando as palavras de Cristo: “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!”.

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