Uma reflexão para pais e filhos à luz do Evangelho
Neste mês em que celebramos o Dia dos Pais, partilho algumas reflexões simples, nascidas da oração e da vida, sobre este dom precioso que é a paternidade.
Todo ano, quando chega agosto, as famílias se preparam para homenagear seus pais. Há presentes, almoços, mensagens carinhosas. Isso é bom e deve continuar sendo celebrado. Mas convido cada um, pais e filhos, a ir um pouco além da data comemorativa e olhar para a paternidade como aquilo que ela realmente é: um reflexo, ainda que imperfeito, do próprio coração de Deus.
O que a Escritura nos ensina sobre a paternidade? São Paulo, escrevendo aos cristãos de Éfeso, tem uma frase que sempre me toca profundamente. Ele fala do Pai, “de quem toda paternidade, no céu e na terra, recebe o nome” – Ef 3,14-15. Isso significa algo muito bonito: antes de qualquer pai humano existir, já existia a paternidade de Deus. Todo pai que ama, que cuida, que educa com firmeza e ternura, está participando, mesmo sem saber, de algo que vem primeiro de Deus.
Jesus, no Evangelho de Lucas, nos deixa a parábola que muitos chamam de “do filho pródigo”, ou ainda “do Pai Misericordioso” – Lc 15,11-32. Um filho decide ir embora, gasta tudo o que tinha, cai na miséria e decide voltar para casa, não por amor, mas por necessidade. E o que faz o pai? A Escritura diz que ele “o viu ainda de longe, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o beijou”. Não houve sermão antes do abraço. Não houve cobrança antes do afeto. O pai correu.
Esta imagem precisa tocar o coração de todos nós. Ser pai não é, antes de tudo, exigir perfeição dos filhos. É estar disponível para correr ao encontro deles, sempre que voltarem, mesmo quando erraram, mesmo quando se afastaram, mesmo quando o caminho escolhido não foi o que sonhávamos para eles.
E há ainda aquela palavra simples de Jesus em Mateus: “Se vosso filho pedir pão, algum de vós lhe dará uma pedra? […] Se vós, então, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celeste dará boas coisas a quem lhe pedir!” – Mt 7,9-11. Jesus usa a experiência comum da paternidade humana para nos ensinar sobre o amor de Deus. Isso nos diz algo importante: mesmo com todas as nossas falhas, existe algo de bom, de verdadeiro, de sagrado, na maneira como um pai cuida de seus filhos.
A paternidade nos desafios do nosso tempo. Não podemos, porém, fechar os olhos para a realidade concreta que vivemos. Muitos pais hoje enfrentam jornadas de trabalho exaustivas, que roubam o tempo que deveria ser dedicado aos filhos. Sabemos que a ausência paterna, por diferentes motivos, sociais, econômicos ou por escolhas pessoais, tem marcado profundamente muitas famílias em nossas cidades. Também sabem os que as telas, os celulares e as redes sociais têm ocupado espaços que antes eram preenchidos por conversas, brincadeiras e silêncios compartilhados entre pai e filho.
A paternidade contemporânea pede uma conversão pastoral e humana. Não basta sustentar financeiramente uma casa. É preciso ser presença. É preciso olhar nos olhos. É preciso perguntar como foi o dia, ouvir de verdade a resposta, e não apenas assentir enquanto se olha para uma tela. Muitos filhos hoje não pedem grandes presentes de seus pais. Pedem tempo. Pedem atenção. Pedem que o pai esteja ali, de corpo e alma, nos momentos simples do dia a dia.
Por outro lado, quero também falar diretamente aos filhos, jovens e adultos, que estão lendo este texto. A honra aos pais não é um mandamento ultrapassado. Ele continua vivo entre os dez mandamentos entregues por Deus a Moisés e permanece atual em cada geração. Honrar pai e mãe não significa concordar sempre com eles, nem fingir que não existem feridas ou distâncias. Significa reconhecer, com maturidade e gratidão, o esforço, muitas vezes silencioso e incompreendido, de quem tentou, com os recursos que tinha, oferecer amor e cuidado.
Sabemos que existem filhos que carregam mágoas profundas por causa de pais ausentes, ríspidos ou que falharam gravemente em sua missão. A esses filhos quero dizer, com todo respeito e delicadeza, que a fé cristã nunca pede que se finja que a dor não existe. Ela pede, isso sim, um caminho de cura, que pode passar pela oração, pelo perdão e, quando possível e saudável, pelo diálogo. E, para aqueles cujos pais já partiram desta vida, que este dia seja também de oração e de gratidão pela memória que deixaram.
O chamado à conversão e à esperança: Este Dia dos Pais pode ser uma ocasião preciosa de reconciliação. Convido cada pai a fazer um pequeno exame simples: tenho estado presente na vida dos meus filhos? Tenho conversado, brincado, orado com eles? Tenho pedido perdão quando erro? E convido cada filho a se perguntar: tenho valorizado o esforço dos meus pais? Tenho manifestado gratidão, mesmo diante das imperfeições que todo ser humano carrega?
A vida cristã nos ensina que a família é o primeiro lugar onde aprendemos a amar e a ser amados. É na convivência familiar, com seus acertos e desafios, que aprendemos a paciência, o perdão, a alegria de estar junto. Que possamos, neste tempo, renovar os laços familiares, buscando na oração diária, mesmo que breve, o alimento para essas relações tão importantes.
Convido as famílias a colocarem, ainda hoje, um momento de oração juntas. Pode ser simples: um Pai Nosso rezado à mesa, um agradecimento sincero antes de dormir, uma palavra de perdão que estava sendo guardada há tempo demais. Pequenos gestos como esses fortalecem os vínculos e trazem para dentro de casa a presença viva de Deus.
Que Nossa Senhora da Assunção, Mãe atenta e cuidadosa, interceda por todos os pais e por todos os filhos deste Brasil. Que São José, pai adotivo de Jesus, homem justo e silencioso, ensine aos pais de hoje o caminho da presença discreta, firme e amorosa. E que o próprio Cristo, que nos revelou o rosto misericordioso do Pai, continue guiando cada família rumo à unidade e à paz. Que este Dia dos Pais seja, mais do que uma data no calendário, um recomeço de amor dentro de cada casa.


