19º Domingo do Tempo Comum
Uma alegria simples nos visita neste 19º. Domingo do Tempo Comum, a alegria de nos reunirmos, onde quer que estejamos, para escutar a Palavra que não cansa de nos procurar. De norte a sul deste país, nas capelas do interior da Amazônia legal, nas paróquias e pequenas capelas das grandes metrópoles e nas comunidades ribeirinhas ou rurais, somos hoje convidados a fazer o mesmo caminho de Elias: subir ao monte, silenciar o coração e reconhecer, em meio ao barulho da vida, a presença mansa do Senhor.
O Deus que não está no ruído: A primeira leitura – 1Rs 19,9a.11-13a – apresenta-nos um Elias cansado, fugitivo, refugiado numa gruta no monte Horeb. Ele espera encontrar Deus no espetáculo, no vento impetuoso que despedaça rochas, no terremoto que sacode a terra, no fogo que consome tudo. Mas o texto sagrado é claro e surpreendente: o Senhor não estava em nenhuma dessas manifestações grandiosas. Ele se revelou apenas depois, num sussurro, numa leve brisa.
Quantas vezes nós, brasileiros, também esperamos que Deus se manifeste no espalhafato, na solução instantânea, no milagre visível e ruidoso! O motorista de aplicativo que enfrenta o trânsito das metrópoles por doze horas diárias, a costureira que corre contra o prazo em uma pequena confecção de grande cidade, o agricultor familiar que lida com a seca no sertão nordestino ou com a geada no sul: todos eles conhecem bem o vento forte, o terremoto e o fogo das dificuldades cotidianas. E, no entanto, é frequentemente numa pausa singela, no silêncio de uma noite após um dia exaustivo, que a voz de Deus se faz ouvir com mais clareza no coração.
Penso também na senhora que aguarda o resultado de um exame médico numa fila de posto de saúde, ou no jovem que busca seu primeiro emprego enviando currículos sem resposta. A ansiedade grita como vento impetuoso, mas é preciso, como Elias, cobrir o rosto e ficar à entrada da própria gruta interior, disposto a escutar. O Salmo responsorial deste domingo nos ensina exatamente isso: “Quero ouvir o que o Senhor irá falar, é a paz que ele vai anunciar” (Sl 84(85),9). A paz de Deus não grita, ela sussurra, mas transforma tudo o que toca.
A dor que se transforma em intercessão: Na segunda leitura – Rm 9,1-5 – encontramos um Paulo tomado de tristeza profunda pelo destino de seu povo. Ele chega a desejar ser segregado por Cristo em favor dos seus irmãos de sangue. É uma passagem que revela algo essencial da fé cristã: amar de verdade dói, e a dor pelo outro é sinal de que amamos como Jesus amou.
Quantas famílias brasileiras vivem essa mesma dor de Paulo em relação a um filho que se distanciou da fé, a um irmão que enfrenta a dependência química, a um parente que sofre injustamente! O comerciante que reza pelo filho desempregado, a mãe que acende uma vela por um neto que caminha por estradas perigosas, o professor que se preocupa com um aluno que falta às aulas por precisar trabalhar cedo demais: todos participam, sem saber, dessa intercessão apostólica que Paulo nos ensina. Amar é carregar o outro no coração, mesmo quando ele parece distante ou perdido.
Pedro, o medo e a mão que salva: Chegamos ao Evangelho – Mt 14,22-33 – talvez uma das cenas mais humanas e mais brasileiras de todo o Novo Testamento, ainda que tenha se passado às margens do mar da Galileia. Os discípulos enfrentam uma noite de vento contrário, a barca sacudida pelas ondas, o medo diante daquilo que não compreendem. Jesus vem ao encontro deles caminhando sobre o mar, e Pedro, num gesto de fé impulsiva, pede para ir também. Ele começa a andar sobre a água, mas ao sentir o vento, o medo o vence, e começa a afundar.
Quem, entre nós, nunca viveu esse momento de Pedro? O pequeno empresário que abre um negócio com fé e coragem, mas ao primeiro sinal de crise sente o medo apertar o peito. A família que enfrenta uma enchente, tão comum em tantas cidades brasileiras nos meses de verão, e vê a água subindo enquanto tenta manter a esperança. O estudante que, depois de meses de dedicação a um concurso ou vestibular, começa a duvidar de si mesmo na véspera da prova. Todos nós, em algum momento, caminhamos com os olhos fixos em Jesus, e de repente olhamos para o vento e para as ondas, e começamos a afundar.
Mas a boa notícia deste Evangelho é justamente esta: Jesus não deixa Pedro se afundar. “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro” (Mt 14,31). Não há reprovação definitiva, há um chamado à confiança maior. É a mesma mão que se estende hoje sobre cada lar brasileiro que enfrenta dificuldades financeiras, sobre cada trabalhador que teme o desemprego, sobre cada jovem que busca um sentido para a própria vida.
Uma Igreja que ouve e que estende a mão: Estas leituras nos convidam a duas atitudes complementares. Primeiro, aprender com Elias a buscar Deus no silêncio cotidiano: na oração da manhã antes do trabalho, no terço rezado no transporte público, na gratidão simples antes das refeições. Segundo, aprender com Pedro que a fé não elimina o medo, mas nos ensina a gritar por socorro e a confiar na mão que sempre se estende.
Como Igreja, somos chamados a ser essa mão estendida para tantos brasileiros que hoje enfrentam suas próprias tempestades, sejam elas financeiras, familiares ou de saúde. Cada gesto de solidariedade, cada instituição filantrópica que acolhe o doente, cada comunidade que caminha com quem sofre, é uma continuação viva desse gesto de Jesus na barca.
Que este domingo nos encontre, então, dispostos a silenciar o ruído das nossas próprias tempestades para escutar a brisa suave de Deus, e com a coragem de dizer, como Pedro, “Senhor, salva-me!”, certos de que a mão que nos socorre nunca falha.
Que Nossa Senhora, mãe de todos os brasileiros, interceda por nós e nos ajude a caminhar com fé, mesmo quando o vento parecer contrário. E que a paz do Senhor, aquela que se anuncia no sussurro habite cada lar deste país.


