A Fartura que Vem de Deus 18º Domingo do Tempo Comum

    Neste 18º Domingo do Tempo Comum a liturgia nos apresenta uma das cenas mais belas e mais repetidas ao longo da história da salvação: a de um Deus que não se cansa de alimentar seu povo. É uma alegria enorme poder, mais uma vez, sentar-nos à mesa da Palavra e reconhecer ali o rosto de um Pai que nunca abandona seus filhos à própria sorte.

    A primeira leitura – Is 55,1-3 – abre-se com um convite que atravessa os séculos e continua ressoando com força total nos dias de hoje. O profeta fala em nome do próprio Senhor, dizendo a todo aquele que tem sede que venha às águas, e a quem não tem dinheiro que venha comer e beber sem pagamento algum. É de causar espanto: num mundo antigo, e também no mundo de hoje, tudo tem preço, tudo se compra e se vende. Deus, porém, oferece de graça aquilo que realmente sacia. Ele nos convida a não gastar nossas forças, nosso tempo e nossa energia com aquilo que não alimenta verdadeiramente o coração. Quantas vezes corremos atrás de coisas que prometem satisfação e nos deixam ainda mais vazios. O profeta nos chama de volta à fonte certa: inclinai o ouvido e vinde a mim, diz o Senhor, e tereis vida.

    O Salmo responsorial, tirado do Sl 144(145),8-9.15-18, continua essa mesma melodia de confiança. Ali cantamos que o Senhor é misericórdia e compaixão, que sua ternura abraça toda criatura, e que ele abre a mão prodigamente para saciar todo ser vivo. É uma imagem que toca profundamente quem trabalha diariamente ao lado de pessoas fragilizadas, doentes, necessitadas de cuidado e de esperança. Deus não é um Deus distante, calculista, que mede o quanto vai dar. Ele abre a mão com generosidade, como faz uma mãe ou um pai que não sabe recusar pão ao filho que tem fome.

    A segunda leitura, Rm 8,35.37-39, traz a certeza que sustenta toda vida cristã diante das dificuldades. São Paulo pergunta o que poderia nos separar do amor de Cristo, e enumera tribulação, angústia, perseguição, fome, perigo. Ele já havia experimentado tudo isso na própria pele. E conclui, com uma força que atravessa gerações, que nada, nem a morte, nem a vida, nem qualquer poder deste mundo será capaz de nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus. Esta é uma palavra que precisa ressoar com particular intensidade em nosso tempo, marcado por tantas incertezas, por crises econômicas, por solidão, por doenças que atingem corpo e espírito. A fé cristã não promete uma vida sem dificuldades, mas garante que em meio a todas elas nós continuamos amados e sustentados.

    E chegamos ao Evangelho, Mt 14,13-21, no qual encontramos talvez a mais tocante manifestação da compaixão divina. Jesus, ao saber da morte de João Batista, buscava um momento de silêncio, um lugar deserto para rezar e refazer as forças. Mas as multidões o seguiram, e ele, em vez de se afastar, encheu-se de compaixão por elas. Essa é uma característica fundamental do coração de Cristo: mesmo diante da própria dor, ele se abre ao sofrimento do outro. Quando a hora se adianta e os discípulos sugerem que a multidão vá embora buscar comida, Jesus responde com uma frase que continua interpelando toda comunidade cristã até hoje: dai-lhes vós mesmos de comer.

    Os discípulos, assustados, apontam para a escassez: só temos cinco pães e dois peixes. E ali reside o coração do milagre. Jesus não faz surgir comida do nada, ignorando o que já existia. Ele pega o pouco que os discípulos tinham, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção e o entrega de volta para ser distribuído. O milagre acontece justamente na partilha daquilo que parecia insuficiente. E a multidão, mais de cinco mil homens sem contar mulheres e crianças, come e fica satisfeita, sobrando ainda doze cestos cheios.

    Esta página do Evangelho tem uma força extraordinária para iluminar a vida das nossas comunidades, das nossas famílias, dos nossos ambientes de trabalho e de missão. Quantas vezes nos sentimos como aqueles discípulos, olhando para os problemas ao redor e pensando que os recursos que temos são pequenos demais diante da necessidade tão grande. Poucas mãos para tanto trabalho, poucos recursos para tanta gente que precisa de cuidado, pouca força para enfrentar tantos desafios. O Evangelho nos ensina algo simples e profundo: o que importa não é a quantidade que temos, mas a disposição de colocar o pouco nas mãos de Deus e distribuí-lo com generosidade.

    Cada instituição, cada família, cada equipe que se dedica a servir o próximo, seja na saúde, na educação, na assistência social ou em qualquer forma de caridade organizada, vive constantemente esta experiência da multiplicação. O que parece escasso, quando oferecido com fé e compartilhado com amor, torna-se suficiente e ainda sobra para outros. É este o segredo profundo revelado pelo Evangelho de hoje: Deus multiplica aquilo que colocamos generosamente em suas mãos.

    Convido cada um de vocês, onde quer que esteja lendo estas palavras, a fazer o mesmo gesto dos discípulos. Trazer a Jesus o pouco que possui, o pouco tempo, o pouco talento, os poucos recursos, e confiar que, bendito por ele, isso se tornará bênção para muitos. Não fiquemos paralisados pela sensação de insuficiência. Como diz o profeta Isaías, o convite é para vir sem medo, mesmo sem ter muito para oferecer, porque quem alimenta verdadeiramente é o próprio Senhor.

    Que este domingo nos renove o desejo de ser, como a Igreja sempre foi chamada a ser, sinal visível da compaixão de Cristo diante das multidões cansadas e necessitadas do nosso tempo. Que cada gesto de partilha, cada mão estendida, cada trabalho realizado com amor se torne, como os cinco pães e os dois peixes, instrumento de uma multiplicação que só Deus sabe realizar.

    Vamos em frente, com esperança e com os olhos voltados para o céu, como fez Jesus antes de partir o pão. Que o Senhor continue abrindo sua mão sobre cada um de nós, saciando nossa sede mais profunda e nos enviando, como discípulos missionários, para alimentar quem tem fome, consolar quem sofre e anunciar, com a própria vida, que nada nos separa do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.

    Que a Virgem Maria Nossa Senhora da Glória, mulher da partilha e do serviço, interceda por todos nós. E que a bênção do Senhor desça sobre cada família, cada comunidade e cada obra de caridade, para que todos sejam um, como reza o Evangelho de São João, no capítulo dezessete, versículo vinte e um.

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