“Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam e vós lhes dais no tempo certo o alimento”. Esta oração do salmista ecoa em nossos corações a grande verdade: Deus é o sustento de nossas vidas. Aqui está a centralidade da liturgia do 18° Domingo do Tempo Comum, pois nos faz clamar com a confiança de que o Senhor nos atende e nos dá o alimento de que necessitamos: seu Corpo e Sangue na Eucaristia. Até agora, nós nos tínhamos preparado com o Evangelho de Mateus e as parábolas que nos falavam do Reino dos Céus. Após tantos ensinamentos, Jesus dá o testemunho prático do que se trata esse Reino que tanto mencionou. A multidão faminta nos recorda o povo da antiga aliança, que também, no deserto, sentiu fome e foi saciada com o maná. Jesus é o novo Moisés; porém, agora, não dá mais um pão que precisa ser recolhido todos os dias por voltarem a estar famintos. Ele é o Pão da Vida, e quem D’Ele comer nunca mais terá fome (cf. Jo 6,35).
A primeira leitura – Is 55,1-3 – proclama a libertação vindoura. Localizada na profecia do trecho chamado pelos exegetas de Deutero-Isaías, a passagem trata de animar o povo exilado na Babilônia a fim de prepará-los para o retorno à sua terra. Enquanto alguns já não viam mais perspectivas de se verem livres do exílio, o profeta surge com voz forte para anunciar a boa-nova que confere razões para que o povo volte e reconstrua Jerusalém. Um novo capítulo na história está para ser escrito: é a era da libertação, na qual não haverá mais dívidas, fome e escassez, e quem concederá, a partir da renovação da aliança, a graça da abundância será o próprio Deus. Nesse pacto eterno, o Senhor convoca a nós também para o seu banquete e nos sinaliza para que não gastemos nossos bens com futilidades passageiras (cf. Is 55,2); faz-se urgente buscar o que permanece e o que somente pode saciar a nossa fome e sede de vida plena. Deus nos oferece um grande dom, abre a sua mão e sacia os seus filhos (cf. Sl 144,16); portanto, observemos hoje se ainda estamos desperdiçando nosso tempo, dinheiro e talentos com aquilo que não vale a pena. Como na parábola do tesouro escondido, que ouvimos no domingo passado, vendamos tudo o mais que temos para adquirir esse precioso bem: o Reino dos Céus.
O amor de Deus por seu povo é eterno. Na leitura de São Paulo aos Romanos – Rm 8,35.37-39 –, animamos o nosso espírito porque nada pode nos separar desse amor. Diante dos desafios, sofrimentos e perseguições, podemos até nos sentirmos debilitados e tentados a desistir. Nessas horas, a Palavra é o alimento espiritual para que recuperemos as forças e sigamos anunciando o Reino sem medo. Deus é amor e nos envolve em seu amor que tem rosto e nome: Jesus Cristo. Ele nos observa da maneira como vê a multidão: “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14b). Sim, em nosso meio há muitos que necessitam de cura física e espiritual; quiçá ainda nem conta temos de que precisamos ser curados. Portanto, olhemos para Jesus: Ele nos olha, nos ama e quer-nos livres. Por isso, antecipa-se e vem ao nosso encontro, cura-nos de nossas fraquezas e protege-nos dos perigos e de tudo aquilo que quer nos separar do seu amor.
Depois da cura, receberemos o alimento sagrado, o pão da Eucaristia. Os discípulos recordam Jesus de que a hora já era adiantada, pois certamente Nosso Senhor estava tão focado na missão que sequer percebeu o tempo passar. Quando fazemos o que amamos, por mais que isso nos custe horas de trabalho intenso e sem descanso, não sofremos; pelo contrário, enchemo-nos de gratidão. Jesus, tão dedicado ao cuidado pastoral da multidão, não quer mandá-los embora sem alimento. Os discípulos ainda não compreenderam que o Reino de que tanto ouviram falar já começa a acontecer aqui e agora, com o pouco que podemos oferecer. Jesus manda dar de comer, mas conta com o nosso esforço e transforma o pouco em abundância, pois, “não podemos fazer grandes coisas – diz Santa Teresa de Calcutá –, mas podemos fazer pequenas coisas com grande amor”. Diante de tantas indiferenças e misérias humanas, como cristãos temos por dever oferecer aos mais necessitados aquilo que podemos para saciar a sua fome material e, especialmente, a fome de sentido e de plenitude que somente a Eucaristia pode dar.
As ações do Senhor, antes de repartir o pão e os peixes, são as mesmas da Última Ceia e que até hoje celebramos em cada missa: “Ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção” (Mt 14,19b). O pão material reverbera no milagre maior: o pão eucarístico do qual todos são convidados a comer. Na sequência de Corpus Christi, composta por Santo Tomás de Aquino, cantamos: “toma-o um, tomam-no mil, tanto este quanto aquele, mas não se esgota quando o tomam”; portanto, a Eucaristia não se acaba. Pelo contrário, o milagre alimenta a multidão, todos comem e se satisfazem, e ainda sobram 12 cestos cheios, indicando a plenitude. Quanto mais queremos desse pão, melhor necessitamos estar dispostos a recebê-lo; por isso, nos preparamos com a Confissão sacramental. Os efeitos da Eucaristia na alma serão tão mais bem vivenciados quanto melhor estivermos preparados. Portanto, não nos cansemos de buscar a reconciliação com Deus, que é misericórdia e sempre nos perdoa. Igualmente, munamo-nos de orações diversas que, antes da Santa Missa, ajudam-nos a, de coração humilde, resguardarmo-nos para acolher tão sublime sacramento.
Neste 18° domingo do Tempo Comum, a Liturgia da Palavra é um convite irrecusável a reconhecermos em Jesus o verdadeiro alimento que restaura, cura e preenche o vazio da nossa existência. Não somos chamados a ser meros espectadores do milagre da multiplicação, mas participantes ativos que colocam à disposição do Senhor o seu pouco para que Ele o transforme em abundância na vida dos irmãos. Que ao nos aproximarmos da mesa eucarística, devidamente preparados pela reconciliação e pela oração, deixemo-nos inflamar por essa compaixão divina, tornando-nos também nós, no mundo, sinais vivos da generosidade e do amor de Deus que jamais se esgota.



