Nesta noite santíssima, a Mãe Igreja convida todos os seus filhos, dispersos pelo mundo inteiro, a se congregarem em vigília e em oração profunda. Esta é a noite das noites, a “mãe de todas as santas vigílias”, como tão bem a definiu Santo Agostinho. Acabamos de viver uma transição litúrgica que nos toca no mais fundo da alma e transforma o nosso ser: passamos das trevas espessas, do silêncio sepulcral e do luto opressivo do Sábado Santo para a exultação luminosa e incontrolável do Fogo Novo. No adro da nossa Catedral, abençoamos o fogo e acendemos o Círio Pascal. Aquele Círio rasgou a escuridão do templo, recordando-nos, de modo visível, que a luz de Cristo, que ressurge resplandecente, dissipa implacavelmente as trevas do nosso coração e do nosso espírito. Quando entoamos o sublime canto do Exsultet, a Proclamação da Páscoa, a terra inteira rejubilou, pois percebeu que a morte, o pecado e a condenação eterna não têm a última palavra sobre o destino humano.
A Liturgia da Palavra que proclamamos com tanta reverência nesta noite longa não é uma mera recordação histórica do passado, mas o grande memorial da nossa salvação, que se atualiza aqui e agora. Começamos no princípio de tudo, no Livro do Gênesis (Gn 1,1–2,2), contemplando a bondade intrínseca da Criação. Deus organizou o caos e criou um mundo belo e ordenado. Depois, acompanhamos a epopeia da libertação do Povo de Israel no Livro do Êxodo (Ex 14,15–15,1), vendo como o Senhor abriu as águas impetuosas do Mar Vermelho. Ele fez o seu povo passar a pé enxuto, conduzindo-o da escravidão, da servidão e da humilhação do Egito para a gloriosa liberdade da Terra Prometida. Passamos, em seguida, pelas vozes dos Profetas, como a de Ezequiel (Ez 36,16-28), que nos prometeu um coração novo e um espírito novo, garantindo-nos que Deus retiraria do nosso peito o coração de pedra – insensível e endurecido pelo pecado – e nos daria um coração de carne, capaz de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo sem medidas.
Todo este grandioso percurso histórico e teológico, que nos narra a pedagogia do amor divino, culmina no assombro sem igual diante do sepulcro vazio. A Carta do Apóstolo São Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11) já nos preparava, afirmando categoricamente que “fomos sepultados com ele pelo batismo na morte, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”. O Evangelho desta santíssima noite proclama o fato inaudito que transformou para sempre a trajetória do universo. As santas mulheres, que de madrugada acorreram ao sepulcro com os seus aromas e as suas lágrimas pesadas para ungir um cadáver, encontram a imensa pedra rolada. O Anjo do Senhor, envolto em luz celestial, declara-lhes: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou, como havia dito” (Mt 28,5-6). Meus amados irmãos e irmãs, o túmulo está definitivamente vazio! O Filho de Deus não podia ser contido pelos grilhões terrenos. O Seu corpo sagrado, que na tarde de Sexta-feira fora depositado inerte e ensanguentado, irrompe agora na glória majestosa da imortalidade.
É absolutamente imperativo, contudo, que esta imensa alegria pascal não se encerre no conforto dos muros dos nossos templos. A ressurreição de Nosso Senhor nos obriga a olhar para a realidade dos nossos dias com olhos redimidos. A glória do Cristo Ressuscitado deve, forçosamente, iluminar as trevas do desespero e da desesperança que ainda afligem tantos corações no nosso tempo. O triunfo absoluto da vida nos chama a sermos testemunhas vivas do Ressuscitado. A genuína alegria da Páscoa nos impulsiona a sair de nós mesmos, a enxugar as lágrimas dos que choram, a consolar os aflitos e a levar a paz de Cristo a todas as famílias. Ao celebrarmos Aquele que venceu a miséria extrema e inexorável da morte, somos imperiosamente convocados a combater a cultura de morte em todas as suas formas e a defender a dignidade inalienável de cada ser humano, desde a sua concepção até o seu declínio natural. Devemos testemunhar que o Evangelho da ressurreição não é uma fuga da realidade, mas a força capaz de transfigurar as realidades temporais e de nos conduzir à santidade autêntica.
Neste propósito de renovação, a espiritualidade cisterciense, que tanto marca a minha vocação e o meu ministério, oferece-nos uma luz puríssima e segura. O grande “doutor melífluo”, São Bernardo de Claraval, em um de seus belíssimos e vibrantes sermões pascais, exorta-nos a que a ressurreição de Cristo seja o arquétipo da nossa própria ressurreição interior. Ele ensina de forma magistral que “a Páscoa é a passagem; se Cristo passou da morte para a vida, também nós devemos passar do vício para a virtude, do orgulho para a humildade, do egoísmo destrutivo para a caridade operante”. Ressuscitar com Cristo implica, sem meios-termos, deixar para trás as vestes velhas e gastas do homem pecador. Significa rejeitar visceralmente a tibieza que nos afasta de Deus e nos revestirmos da luz incandescente da graça, tornando-nos sentinelas e defensores destemidos da fé católica e da verdade do Evangelho.
Para selar de forma indelével este compromisso de vida nova, a Liturgia desta vigília nos conduz à pia batismal. Na Vigília Pascal invocamos o poder vivificador do Espírito Santo sobre as águas. Aquela mesma água primeva, que outrora destruiu o mal no dilúvio e que salvou o povo escolhido no Mar Vermelho, torna-se agora o seio fecundo e purificador da Mãe Igreja, de onde nascem os novos herdeiros do Reino de Deus. Renovamos, com fé convicta, as promessas do nosso Batismo. Quando o sacerdote interrogar: “Renunciais a Satanás e a todas as suas obras e seduções?”, o “Sim, renuncio” deverá ressoar com a força e a coragem de quem se compromete a combater o mal e a viver na liberdade dos filhos de Deus. Em seguida, quando professamos a nossa fé no Deus Trindade, acendemos novamente as nossas pequenas velas na chama viva do Círio Pascal. Somos, assim, enviados como portadores luminosos dessa mesma luz para o mundo imerso em sombras.
O cume, o ápice e a fonte inesgotável desta santíssima noite é a Liturgia Eucarística. O Cristo que despedaçou as cadeias da morte não é uma lembrança vaga ou um fantasma distante; Ele está real, vivo e glorioso, oferecendo-Se a nós de forma substancial no Pão da Vida e no Cálice da Salvação. A Eucaristia que agora celebraremos é o banquete definitivo e inefável do Reino de Deus, o prelúdio antecipado das bodas do Cordeiro, onde, finalmente, saciaremos toda a nossa fome do divino e encontraremos a verdadeira paz para as nossas almas. Aproximemo-nos deste altar com a alma descalça, o coração transbordante de infinita gratidão e o espírito tomado pelo santo assombro.
Que o Aleluia que regressa festivamente à nossa liturgia não seja apenas um cântico efêmero em nossos lábios, mas a atitude constante, sólida e transformadora das nossas vidas cotidianas. Levem a alegria arrebatadora desta noite para os vossos lares. Sejam os consoladores dos aflitos, os apóstolos da misericórdia e os construtores incansáveis da civilização do amor, onde impere a paz luminosa de Nosso Senhor. A morte foi definitivamente vencida! O amor divino triunfou sobre todos os ódios!
Desejo, do fundo do meu coração de pastor, a toda a nossa caríssima Arquidiocese, a todas as famílias e, de modo muito especial, àqueles que mais sofrem as agruras e os abandonos deste tempo, uma Santa, Abençoada e Feliz Páscoa! Que a Bem-Aventurada Virgem Maria, Nossa Senhora da Alegria, que jamais vacilou na escuridão do Sábado Santo e que rejubilou com a ressurreição vitoriosa de Seu Divino Filho, nos envolva e nos guarde perpetuamente no seu sagrado coração materno.




