Vamos falar de paz

    Neste ano a nossa região metropolitana do Rio de Janeiro tem se reunido acerca das propostas de Paz. Alguns acontecimentos em nossas Arquidioceses e Dioceses chamaram a atenção e foram interpretadas ideologicamente por muitas pessoas que não conhecem a real situação das cidades. Por ocasião da violência no Jacarezinho emitimos uma nota refletindo sobre a situação e propondo algumas ações. Algumas delas foram, além da presença no local com o povo quando da Missa que ali presidi, também algumas atitudes celebrativas em nossas circunscrições eclesiásticas. Além disso propusemos um Fórum permanente pela Paz no Rio. Uma equipe de Bispos estudou o formatos e possíveis participantes. Iremos ouvir vários atores que vivem ou trabalham nessas regiões e depois propor ações para quem tem a responsabilidade de executá-las. São muitas situações diferenciadas e queremos escutar todos. Iniciamos hoje com os educadores: um representante de cada uma de nossas circunscrições.  Os nossos meios de comunicação estarão transmitindo a partir das 19:30 essas reflexões e assim ocorrerá a cada dois meses. Já temos programação para este e próximo ano. Precisamos falar de paz, ensinar e a promover a paz. Jà falamos muito das violências, mas quase não se ouve falar de ações positivas pela paz – e que existem em nossas comunidades. Tempos difíceis e de muita violência têm nos assustado e nos colocado em grandes questionamentos. Muitas vezes nos sentimos sozinhos, desprotegidos e desamparados diante desta realidade.

     Analisando a realidade atual, com tantos conflitos existentes nos mais diversos âmbitos de nossa sociedade e situações de violência diversas, poderíamos pensar que a paz seria uma utopia. A sensação da ausência de paz também não aflige somente nosso país. Na esfera internacional, os conflitos acontecem por inúmeras razões, como as religiosas, por questões de aumento territorial, por domínio de regiões ricas, por diferenças históricas, por questões étnicas. Estamos justamente nesses dias assistindo situações de violência que nunca faltam em nosso mundo.

    Para que a paz (que começa no coração da pessoa segundo a Sagrada Escritura) possa se tornar algo viável, palpável e possível de ser conquistada (sim, pois isto é fruto de conquista individual e coletiva) é necessário começar a pensar na paz como uma construção individual. Quando cada indivíduo perceber que o coletivo é fruto do individual, que uma sociedade pacífica se constrói com indivíduos pacíficos, tolerantes, desprovidos de preconceitos e atitudes discriminatórias, poderemos pensar na paz universal com mais esperança. A paz é fruto de exercício pessoal diário, na atitude pacífica no âmbito familiar. Não há como conceber paz com violência doméstica, maus tratos, fome, alcoolismo, falta de escolaridade.

    Portanto, a paz passa também por ações governamentais, políticas públicas que proporcionem condições mínimas de uma vivência digna, com perspectiva de futuro para as novas gerações, emprego para a população jovem e adulta, pela não discriminação do idoso ou do diferente, incluindo nestas diferenças a religião, a raça, a orientação sexual, o portador de necessidades especiais, o obeso, o índio, o estrangeiro. Há que ser percebido que a diferença enriquece, acrescenta e aprimora.

    É importante neste aspecto a educação em direitos humanos, desde a educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e no âmbito universitário. Deve englobar o educando, os professores e toda a comunidade escolar e a família, com ações multidisciplinares e integradas. É importante que ações e normas de organismos internacionais sejam respeitadas. A doutrina social da Igreja é sempre um norte a seguir.

    Quando o indivíduo perceber a riqueza que existe na diferença e a possibilidade de crescimento nas relações entre estes elementos diferentes, haverá um avanço considerável. É necessário conviver e administrar as diferenças e não as eliminar. Só assim será possível a humanidade conquistar a paz.

    O que precisamos em nosso Brasil é estruturar uma cultura da paz e isso não é somente papel da Igreja, mas contando com a colaboração dos mais diversos organismos da sociedade civil: polícia, escolas, hospitais, comércio entre outros. Por isso em nosso Fórum permanente iremos envolver todos os atores que podem agir nesse sentido.

    Esse é um passo que todos nós devemos assumir, cada um em sua esfera social. A cultura de paz diz respeito a uma visão de mundo que privilegia o diálogo e a mediação para resolver conflitos, abandonando atitudes e ações violentas e respeitando a diversidade dos modos de pensar e agir.

    Devemos sempre ter em mente que o conceito de cultura de paz parte do princípio de que nem a violência e nem a paz são naturais à atividade humana. Por um lado, é necessário entender que, como fenômeno social complexo, a violência se exemplifica em grupos, pessoas, ações e relacionamentos que necessitam de transformação. Consequentemente, a paz, precisa ser ensinada, aprendida e estimulada para efetivar essa mudança de ótica.

    Por essa razão, o movimento pela paz deve ser de natureza coletiva: cabe a cada um de nós trabalhar e difundir a paz no dia a dia, sendo mais generoso e solidário, e construindo novas formas de relacionamento baseadas em princípios não-violentos. Alguns pontos podem nos indicar alguns caminhos de ação: respeitar a vida; rejeitar a violência; ouvir para compreender; entre muitos outros.

    Desenvolver relações saudáveis é estar constantemente ciente da nossa responsabilidade, entendendo que nossas ações afetam o outro tanto positiva quanto negativamente. Vale sempre cultivar convivências baseadas na empatia e no real interesse, a fim de valorizar a diversidade de experiências, o diálogo e a cooperação.

    Grandes santos da Igreja foram promotores da paz e deixaram para nós o seu rico legado. Referências positivas devem ser divulgadas, a fim de contribuir para o fortalecimento de identidades pessoais e culturais entre os membros de nossa comunidade. É por meio do outro que nos reconhecemos, mas é a partir de um profundo conhecimento de si mesmo que entendemos nossas reais possibilidades e limitações.

    Espero que vocês tenham uma ótima semana, encontrando a paz que faz sentido para cada um de vocês. Lembre-se: paz significa que, apesar de todas as intempéries que podemos ter, permanecemos com a calma em nossos corações. Senhor fazei-nos instrumentos de vossa Paz.

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