“Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”.” (Mt 28,10)
Celebramos neste Sábado Santo a solene Vigília Pascal da Ressurreição do Senhor. Ao longo de todo o sábado, a Igreja vive um grande silêncio orante, pois o Senhor morreu por nós na Sexta-Feira; Ele está no túmulo ao longo do dia, e, na madrugada de sábado para domingo, o Senhor ressuscita. Guardamos o aleluia ao longo de toda a Quaresma, e, nesta noite, voltaremos a cantar. Voltaremos a entoar o hino de louvor com grande alegria e entusiasmo nesta noite.
Ao longo deste Sábado Santo, os fiéis se reúnem para limpar e ornamentar a igreja para a vigília que acontecerá à noite. A Igreja, que, após a celebração da Quinta-Feira Santa, ficou desnudada e sem flores, no sábado à noite precisa estar ornamentada com flores, com toalhas impecáveis e limpa.
A celebração da solene Vigília Pascal acontece a partir do pôr do sol. Por ser uma missa de vigília, essa celebração deveria ser de madrugada, pois o Senhor ressuscitou na madrugada de sábado para domingo; mas, devido à realidade pastoral de nossas comunidades, a celebração ocorre a partir das 18h, aproximadamente.
A Vigília Pascal encerra as celebrações do Tríduo Pascal, iniciado na Quinta-Feira Santa, ou seja, é como se fosse uma única celebração em que somos inseridos no mistério pascal de Cristo. Tanto na missa da Quinta-Feira quanto na celebração da Paixão de ontem não houve bênção final; a bênção final voltará hoje, na solene Vigília Pascal. Ao longo do Tríduo Pascal, vivenciamos o mistério central da nossa fé. Por isso, somos convidados a participar de todas as celebrações do Tríduo Pascal, pois as celebrações do tríduo nos introduzem ao grande Domingo de Páscoa da Ressurreição.
A grande Vigília Pascal é a mãe de todas as vigílias; é a celebração mais importante do ano. Nesta Vigília, o Círio Pascal é preparado, renovamos as nossas promessas batismais e somos lavados e purificados pelas águas do batismo. O itinerário quaresmal nos convida a renascer para uma vida nova na Páscoa. Com a celebração da Páscoa, temos a certeza, através da fé, de que, assim como Cristo ressuscitou, nós também ressuscitaremos.
A celebração da Vigília Pascal é longa, pois ela é dividida em vários momentos que retratam toda a história da salvação. São, ao todo, nove leituras, além do rito da luz e da bênção do Círio Pascal, renovação das promessas batismais, aspersão sobre o povo, enfim.
Na Vigília, recordamos toda a história da salvação até chegar a Jesus Cristo. A liturgia do Domingo de Páscoa retrata mais propriamente a ressurreição de Jesus, e as leituras são do Novo Testamento como ocorre em todo o tempo pascal.
A Vigília Pascal traz uma série de significados especiais. A missa começa do lado de fora da Igreja, e acontece a bênção do fogo novo. O Círio Pascal é abençoado e aceso nesse fogo novo. O Círio Pascal representa o próprio Cristo, e o fogo novo, que é abençoado e acende o Círio, significa a luz de Cristo, e nós devemos refletir essa luz a quem encontrarmos. Por isso, cada fiel acende a vela que trouxe para a celebração no Círio Pascal, representando que a luz de Cristo deve ser difundida. Após acenderem as velas no Círio, todos são convidados a entrar em procissão na Igreja. O padre ou o diácono entram por último e, conforme entram na Igreja, diz por três vezes: “Eis a luz de Cristo”. Os fiéis respondem: “Demos graças a Deus”.
Após a entrada do Círio Pascal na Igreja, acontece a proclamação da Páscoa, ou seja, a proclamação da ressurreição do Senhor. Nesse momento, acendem-se as luzes da Igreja, e toda a Igreja se alegra, pois é proclamada a ressurreição do Senhor. Esse cântico faz uma breve passagem histórica por toda a Sagrada Escritura até chegar a Jesus. É uma noite mil vezes feliz, como diz a própria proclamação da Páscoa. A ressurreição de Jesus significa que a luz venceu as trevas, e Ele vem para iluminar as nossas trevas. Somos convidados a ressuscitar com Cristo e sair das trevas.
Permitamos que o Senhor ressuscite em nosso coração, em nossa casa e em nossa vida. Que Ele ilumine a nossa casa com a sua ressurreição e que a nossa família possa se libertar das trevas do pecado e deixar-se iluminar por sua luz. Que possamos, nesta noite, renovar os sentimentos de paz, gratidão e amor. O Círio Pascal é aceso nesta noite santa e permanecerá aceso até o Domingo de Pentecostes. São cinquenta dias em que viveremos as alegrias da ressurreição. Após Pentecostes, o Círio só será aceso nas celebrações de Crisma, Primeira Eucaristia, batizados e nos funerais. O Círio significa ainda a vida nova em Cristo: somos mergulhados nas águas do batismo e ressurgimos novas criaturas.
Após a entrada do Círio Pascal e a proclamação solene da Páscoa, acontece a segunda parte dessa missa, que é a Liturgia da Palavra. Os fiéis são convidados a apagar as suas velas e guardá-las; elas serão acesas em outro momento da celebração, na renovação das promessas do batismo.
Nesta noite, são proclamadas nove leituras, contando com o Evangelho, pois retratam toda a história da salvação até a ressurreição de Jesus. A Páscoa cristã tem suas raízes na Páscoa judaica; as duas estão intimamente ligadas. A Páscoa judaica significa a passagem da escravidão para a liberdade, ou seja, recorda quando o povo judeu foi liberto por Deus da escravidão do Egito até chegar à terra prometida. E a Páscoa cristã significa a passagem da morte para a vida, recordando a ressurreição de Cristo. Por esse motivo, proclamam-se as nove leituras, perpassando toda a história da salvação até a ressurreição de nosso Senhor. Somos lembrados de que não devemos ser escravos do pecado e de que almejamos a vida eterna.
Após cada leitura, é proclamado um salmo responsorial que está intimamente ligado àquela leitura e ao mistério celebrado nesta noite. Após o salmo, há uma oração convidando os fiéis a viverem de forma intensa esse momento.
A primeira leitura dessa Vigília é do Livro do Gênesis (Gn 1,1–2,2). Nessa leitura, vemos como o Senhor criou o universo em seis dias e, no sétimo, descansou de tudo o que fez, e como Ele criou Adão e Eva e os colocou no paraíso. Vemos que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
O salmo responsorial é o 103(104), que nos diz em seu refrão: “Enviai, vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai”. O Senhor criou o universo por meio do sopro do Espírito Criador. Peçamos que, nesta Páscoa, um novo sopro do Espírito Santo venha sobre nós.
A segunda leitura, também tirada do Livro do Gênesis (Gn 22,1-18), mostra como Abraão foi fiel a Deus, e o Senhor promete a Abraão que tornaria a sua descendência maior do que as estrelas. Que possamos ser obedientes a Deus e ouvir a sua voz antes de tomarmos alguma atitude. O salmo responsorial referente a essa leitura é o Salmo 15(16), que diz que o nosso refúgio e proteção é o Senhor; nos momentos de dificuldade e quando estamos diante do pecado, Ele nos acolhe.
A terceira leitura, tirada do Livro do Êxodo (Ex 14,15–15,1), mostra como Deus, por intermédio de Moisés, liberta o povo que sofria a escravidão no Egito, e, assim, passa o povo da escravidão para a liberdade. Um dos significados da Páscoa é a passagem da escravidão para a liberdade; depois, a partir da ressurreição de Jesus, há um novo significado, que é a passagem da morte para a vida. A resposta a essa leitura é o cântico extraído do Livro do Êxodo (15), exaltando o Senhor pelas maravilhas que fez ao povo de Deus.
A quarta leitura, tirada do Livro do profeta Isaías (Is 54,5-14), fala da aliança que Deus fez com o seu povo, uma aliança eterna, que se perpetuaria para sempre. É como uma aliança de casamento: apesar da infidelidade do povo, Deus permanece fiel. O Senhor promete nunca abandonar o seu povo e concretiza a aliança com o envio de seu Filho. O salmo de resposta referente a essa leitura é o 29(30), que nos diz que o Senhor nos livra de todos os nossos inimigos; basta confiarmos em sua graça.
A quinta leitura, também extraída de Isaías (Is 55,1-11), mostra que o Senhor nos chama para ficar com Ele, para nos deleitarmos do banquete que Ele oferecerá a todos nós. Nos dias de hoje, esse banquete é a Eucaristia; na eternidade, sentaremos todos à mesa ao lado d’Ele. O banquete é para todos, sem exclusão de raça, cor ou classe social. A resposta para essa leitura é o cântico de Isaías (12), que nos fala justamente da alegria de beber do manancial da salvação, que somente Deus pode nos proporcionar.
A sexta leitura, extraída do Livro do profeta Baruc (Br 3,9–15.32–4,4), traz o alerta do profeta a todo o povo de Israel para confiar somente no Deus verdadeiro, ou seja, naquele que os libertou da terra do Egito e fez aliança com eles. Somente Ele tem palavras de vida eterna.
O salmo de resposta para essa leitura é o 18(19), que justamente diz em seu refrão: “Senhor, tens palavras de vida eterna”. Devemos confiar somente em Deus, e só Ele pode nos salvar.
A sétima leitura é extraída do Livro do profeta Ezequiel (Ez 36,16-17a.18-28). O Senhor alerta o povo para não adorar deuses falsos, ou seja, não adorar bezerros de ouro ou imagens de madeira. Somente Ele é o Deus que fez um pacto com eles, e eles não devem romper esse pacto. O salmo de resposta para essa leitura é o 41(42), que nos diz em seu refrão: “A minha alma tem sede de Deus”. Devemos sempre desejar esse Deus vivo, que nos fala por meio da sua Palavra e nos alimenta por meio da Eucaristia.
Após a sétima leitura, canta-se o hino do Glória, que foi omitido durante todo o tempo quaresmal. E com o Glória tocam-se os sinos, retiram-se as coberturas das imagens e acendem as velas do altar. Após o Glória, iniciam-se as leituras do Novo Testamento, que são uma carta de Paulo e o Evangelho da noite. Durante o Glória, tocam-se os sinos da Igreja, e os fiéis são chamados a cantar com grande alegria, pois Cristo ressuscitou.
A oitava leitura é proclamada após o cântico do Glória, para fazer uma ligação do Antigo com o Novo Testamento: é a leitura da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 6,3-11). Paulo diz que, através do batismo, nos tornamos pessoas novas, e, se Cristo morreu para nos libertar, é em nome d’Ele que somos batizados; por meio do batismo, venceremos o pecado e nos tornaremos novos homens e mulheres. O salmo de resposta para essa leitura é o 117(118), que é a aclamação ao Evangelho. Nesse momento se anuncia solenemente o canto do Aleluia que, a partir de agora, volta a ser cantado em nossas celebrações. Louvai ao Senhor, Cristo Ressuscitou, Aleluia.
O Evangelho é de Mateus (Mt 28,1-10). Esse Evangelho retrata o episódio da ressurreição, quando, após o sábado, no primeiro dia da semana, ou seja, o domingo, dia da ressurreição do Senhor, Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo do Senhor. De repente, aconteceu um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu, removeu a pedra e sentou-se nela. Suas vestes eram muito brancas, como a neve. Os guardas que tomavam conta do túmulo tremeram e caíram por terra de medo.
O anjo diz às mulheres que não tenham medo, pois o Senhor havia ressuscitado e não estava mais ali. Ele as convida a ver onde o Senhor estava e pede que fossem depressa avisar aos discípulos: Ele havia ressuscitado dos mortos, conforme prometera. O anjo diz para elas irem à Galileia, pois lá Ele deveria aparecer a eles.
De repente, o próprio Senhor apareceu diante delas e disse a mesma mensagem que o anjo havia dito. Jesus diz: “Alegrai-vos”, pois a sua ressurreição deve ser uma alegria para todos nós. É a mesma alegria que um dia viveremos no céu.
A missão de Jesus iniciou na Galileia, e ali também deveria se manifestar plenamente aos discípulos, ou seja, dali Ele confirmaria o envio antes de voltar para o Pai. Na verdade, a missão não termina, mas Jesus a confia aos discípulos e deixa que o Espírito Santo os conduza. A partir do envio dos discípulos, inicia-se a Igreja primitiva.
Sejamos como as mulheres do Evangelho de hoje: saiamos correndo e anunciemos a todos que o Senhor ressuscitou. Quem sabe já ao final da missa de hoje, amanhã ou nos dias que sucedem a Páscoa, anunciemos para quem ficou em casa, no nosso trabalho, escola e comunidade que o Senhor ressuscitou. Ele vive, venceu a morte e está no meio de nós. Celebraremos, ao longo de cinquenta dias, a Páscoa da Ressurreição, e essa alegria que a ressurreição nos traz não pode ficar apenas em um dia, mas deve se estender.
Após as leituras e a homilia, acontece a terceira parte dessa grande Vigília Pascal, que é a Liturgia Batismal. Primeiro, faz-se a Ladainha de Todos os Santos; depois, benze-se a água nova, na qual seremos imergidos. Depois da bênção da água, renovam-se as promessas do Batismo, renunciando ao pecado e afirmando nossa fé em Deus. O Círio Pascal é mergulhado três vezes nessa água nova, e, em seguida, essa água, que foi benzida, é aspergida sobre todos os presentes. Se houver batismo de novos catecúmenos, acontece nesse momento. A renovação das promessas batismais deve ser bem solenizadas por é o momento em que colocamos em prática as consequências de conversão e mudança de vida.
Após a Liturgia Batismal, segue o rito da comunhão, e a missa continua como de costume. Após a oração final, há a grande bênção final da Vigília Pascal. Recebamos essa bênção da mesma forma que os discípulos receberam o envio de Jesus ressuscitado. Que possamos sair renovados dessa Vigília Pascal, cheios do Espírito Santo, e, por cinquenta dias, celebrar as alegrias da Páscoa.
Desejo a todos e a cada um dos que celebram, em sua comunidade, a Vigília Pascal, uma santa e abençoada Páscoa do Senhor Ressuscitado. Aleluia, aleluia, aleluia!




