Santos Inocentes: O grito que ainda ecoa em nosso tempo

    Ainda estamos envoltos pela luz do Natal, contemplando a doçura do Menino Jesus na manjedoura, quando a Liturgia da Igreja, de forma abrupta e corajosa, veste-se de vermelho. No dia 28 de dezembro, celebramos os Santos Inocentes Mártires, festa que neste ano dá lugar a Festa da Sagrada Família de Jesus Maria e José. É um contraste chocante: três dias após celebrarmos o nascimento da Vida, recordamos a morte violenta imposta às crianças de Belém e arredores pelo rei Herodes.

    O Evangelho de Mateus – Mt 2,13-18 – nos conta que Herodes, cego pelo medo de perder seu poder terreno para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, ordenou a execução de todos os meninos com menos de dois anos. O choro de Raquel, chorando seus filhos que já não existem, atravessou a história e chega aos nossos ouvidos ainda hoje.

    Celebrar os Santos Inocentes não é apenas olhar para o passado com tristeza; é olhar para o presente com responsabilidade. Quem são os “santos inocentes” de hoje? Onde estão os novos “Herodes”?

    Infelizmente, a matança dos inocentes continua, muitas vezes de forma silenciosa e “legalizada”. Os inocentes de hoje são, primeiramente, aqueles que ainda estão no ventre materno. O aborto é a face moderna e cruel daquela mesma rejeição à vida que Herodes demonstrou. Sempre que o egoísmo, o conforto ou o medo se sobrepõem ao direito sagrado de nascer, revivemos o drama de Belém. Como cristãos, somos chamados a ser a voz desses que não têm voz, defendendo a vida desde a concepção até o seu declínio natural.

    Mas os inocentes de hoje também são as crianças vítimas das guerras insensatas que assolam o mundo, da fome que envergonha a humanidade e da violência doméstica. São os pequenos que sofrem com o abuso, com o abandono e com a falta de oportunidades. Cada criança que sofre é um reflexo daquele Menino Jesus que teve que fugir para o Egito para sobreviver.

    No entanto, a festa de hoje não é sobre o desespero, mas sobre a esperança que nasce da fé. A Igreja venera essas crianças como mártires — “flores martyrum” — as primeiras flores brotadas no jardim do Salvador. Elas não falaram, mas testemunharam Cristo com o próprio sangue. Elas nos lembram que a vida humana é sagrada e pertence a Deus.

    Neste tempo do Natal, ao olharmos para o Menino Deus, renovemos o nosso compromisso com a Cultura da Vida. Que não sejamos indiferentes ao choro das “Raquéis” modernas. Que possamos trabalhar para construir uma sociedade onde nenhuma criança seja vista como uma ameaça ou um estorvo, mas como um dom precioso do Criador.

    Rezemos pelas crianças que não puderam nascer, pelas que nasceram em meio à miséria e pelas que sofrem a violência dos adultos. Que os Santos Inocentes intercedam por nós e despertem em nossos corações a coragem de proteger os pequeninos, seguindo o exemplo de São José, o guardião da vida.

    A todos, a minha bênção e o desejo de que a luz de Cristo vença todas as sombras de morte.

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