É importante um momento de relato de lutas por respeito, dignidade e felicidade da mulher. Muitas mulheres travam uma luta invisível
Igualdade e equidade são coisas diferentes
Para Camila Matos, professora de sociologia, coordenadora executiva da Rede de Mulheres Negras do Paraná e mulher de ascendência quilombola, um ponto fundamental para o entendimento das pautas feministas atuais: a distinção entre igualdade e equidade. Segundo a professora, que participou do programa Viva a vida da Pastoral da Criança, a igualdade parte do pressuposto de que todos devem ser tratados da mesma forma, como se tivessem as mesmas condições de vida.
No entanto, a realidade brasileira é marcada por abismos históricos. “A equidade ela fala de reconhecer essa diferença enquanto sociedade e garantir de alguma forma que cada pessoa precisa alcançar de forma real essa oportunidade”. Para Camila, a busca pela equidade não visa simplesmente igualar, mas sim realizar uma “luta permanente e constante para corrigir essa desigualdade produzida ao longo dos séculos”.
O impacto do racismo estrutural é um ponto nevrálgico dessa conversa. Camila explicou que o racismo opera de forma silenciosa e contínua, organizando instituições e expectativas sociais. Para as mulheres negras, isso se traduz em enfrentar a discriminação de gênero somada à racialidade e à classe. Os dados são alarmantes: mulheres negras recebem salários menores e possuem “duas vezes mais chances de sofrermos a violência, inclusive a violência letal”. Além disso, o sistema impõe um menor cuidado com a saúde física e mental desse grupo, dificultando sua ascensão social.
No mercado de trabalho, o preconceito manifesta-se no questionamento constante da competência e na ideia de que as mulheres são menos adequadas para cargos de liderança. Camila ressaltou que a desigualdade salarial persiste mesmo no exercício de funções idênticas e que a maternidade é frequentemente tratada como uma “punição”. Ela também enfatizou o valor invisibilizado do trabalho doméstico, que “ao longo dos séculos sustentou, fez essa base para toda a nossa sociedade”. Esse trabalho, naturalizado como obrigação feminina e frequentemente realizado por mulheres negras devido ao processo histórico de escravização, gera uma sobrecarga que resulta em esgotamento emocional, ansiedade e depressão.
Para mudar esse cenário, Camila Matos defende a ocupação de espaços de decisão. Como as mulheres negras formam o maior grupo em território brasileiro, segundo o IBGE, sua participação na política e na construção de políticas públicas é central para tornar as decisões representativas. “Quando nós, mulheres negras, estamos nesse espaço, a gente reconduz, a gente transforma esse espaço para que as novas gerações possam se sentir acolhidas”. Atualmente, ela coordena a Rede de Mulheres Negras do Paraná, uma ONG política que há quase 20 anos luta pela implementação de políticas públicas que considerem raça, gênero e classe.




