Quinze anos depois da JMJ, como é o catolicismo que recebe Leão XIV

O papa Bento XVI reuniu cerca de um milhão de jovens na Jornada Mundial da Juventude de 2011, em Madri, capital da Espanha, um evento que marcou toda uma geração. Quinze anos depois, a Espanha se prepara para receber um novo papa, Leão XIV, num contexto religioso profundamente diferente.

Nesse período, a fé e a prática religiosa da sociedade espanhola tiveram mudanças significativas. Às vésperas da visita do papa em junho, especialistas falam sobre essa evolução e a realidade espiritual que Leão XIV encontrará ao chegar à Espanha.

Uma sociedade menos religiosa

Rafael Ruiz Andrés, professor e doutor em sociologia pela Universidade Complutense de Madri e autor da tese As múltiplas faces da secularização: o caso espanhol (1960-2019), diz à ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, que Bento XVI chegou à Espanha no que a sociologia chama de “terceira onda de secularização” desde o início do século XXI.

Ele diz que na sociedade atual — e especialmente entre os jovens — essa secularização se acelerou e se intensificou: “Sem dúvida, vivemos numa sociedade menos religiosa”, diz Andrés.

Segundo os dados mais recentes divulgados pela Fundação Pluralismo e Coexistência no Barômetro da Religião e das Crenças na Espanha no ano passado, quase de metade dos espanhóis (42%) já não se identifica com nenhuma religião, enquanto a percentagem de pessoas religiosas, maioritariamente católicas, está entre 50 a 56%.

Ruiz Andrés diz que, há poucas décadas, a maioria da população espanhola dizia ser católica, o que, em sua opinião, também acentua “nosso sentimento de secularização”. Mas, ele diz que metade da população ainda é um número significativo e, assim, é um fato que não deve ser subestimado.

A juventude católica em 2011 e hoje

O professor diz que atualmente há menos jovens católicos do que em 2011. Mas, ele diz que, na juventude deste ano, “começam a ser detectados sinais de que eles estão novamente interessados ​​em se envolver com o catolicismo”.

Os resultados do relatório Jovens Espanhóis 2026 da Fundação SM mostram um aumento na importância que os jovens atribuem à religião: 38,4% dizem que ela é “bastante ou muito importante” em suas vidas.

O número de jovens que se identificam como católicos também cresceu significativamente: em 2020 era de 31,6% e, no ano passado, subiu para 45%.

O bispo emérito de Segóvia, Espanha, César Augusto Franco Martínez, foi o responsável pela coordenação da Jornada Mundial da Juventude do papa Bento XVI, e foi o autor da letra do hino Firmes na Fé, composto para o evento.

O bispo fala sobre as semelhanças entre as duas gerações. “São jovens que querem viver felizes, que querem alcançar seus objetivos, quaisquer que sejam eles, que têm fé”, disse Martínez à ACI Prensa.

Como reflexo dessa fé juvenil, o bispo cita a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa de 2023, da qual também participou: “Ali pensei que, apesar do tempo que passou, parece que os jovens não mudaram”.

“Em Lisboa também havia um milhão e meio de jovens, e o comportamento, dedicação, generosidade e alegria deles foram verdadeiramente espetaculares”, disse Martínez.

Jovens que vivem sua fé abertamente

O professor Ruiz diz que a juventude católica de 15 anos atrás era marcada pela polarização em torno dos debates sobre direitos sexuais e reprodutivos, aborto e uniões homossexuais. “Poderíamos dizer que a Igreja, naquela época, tinha uma posição mais encurralada em relação aos jovens”, disse ele.

“Acredito que o jovem de 2026, em geral, terá menos receio de falar sobre sua fé e religiosidade com seus pares”, diz o professor. “A geração atual vive o catolicismo de modo mais natural. É algo mais normalizado e, portanto, mais visível”.

Ruiz diz que, embora o número de jovens católicos em 2026 seja menor do que em 2011, agora “um novo diálogo está se abrindo entre a Igreja Católica e a juventude espanhola, para além dessas polarizações, inclusive favorecido pelo próprio contexto do laicismo”.

Rafael Ruiz diz que a religião continua sendo “uma questão muito importante” na Espanha, assim como a tradição, a cultura, a espiritualidade e a busca por sentido, elementos que não desapareceram e que continuam gerando desafios apesar de um contexto de secularização avançada.

O professor exorta os fiéis a ir além das narrativas e dos “relatos muito unilaterais de como entendemos a mudança religiosa”, dizendo que a religião “continua sendo fundamental” e que a secularização na Espanha “não é um destino inevitável”.

Maturidade e profundidade

Para o bispo emérito de Segóvia, a juventude atual é marcada por uma cultura de tsunami “eles querem viver um pouco distantes do que é sensível, daquilo que tem impacto imediato neles, para desfrutar o hoje sem ter muitas pretensões para o amanhã, embora o futuro também os preocupe”.

Falando sobre o “despertar religioso” da juventude atual, ele diz que essa realidade “precisa de maturidade, profundidade e catequese séria”.

“Fé não é um sentimento de hoje que desaparece amanhã; fé é algo muito mais profundo”, diz Martínez. “É relacionar-se com Cristo de um modo vital e existencial, e isso requer profundidade, requer interação, requer oração, requer viver em comunidade e não se deixar levar por modismos que podem ser mais ou menos passageiros”.

Ele diz que muitos jovens expressam preocupações religiosas, embora não saibam como defini-las, especificá-las ou colocá-las em prática. “Vivemos também numa sociedade multicultural e multirreligiosa”, diz o bispo. “Muitos dizem crer em Deus, mas também creem na reencarnação e noutras correntes que vêm da Ásia”.

O bispo diz que o homem “é um ser religioso por natureza, mesmo que negue isso, porque carrega impresso em seu ser o anseio pela transcendência que só Deus poderia ter colocado ali, o anseio pelo infinito, o anseio pela felicidade sem fim, o anseio pela beleza, pela verdade, e os jovens têm isso”.

Ele fala também sobre o aumento nos batismos de adultos: “É um fenômeno que deve ser examinado com muito cuidado e não se deixar influenciar por slogans fáceis”.

Uma mensagem de esperança

O professor Rafael Ruiz diz que a visita do papa Leão XIV à Espanha pode servir como uma “bússola para o catolicismo na Espanha”. Ele fala particularmente sobre a viagem do papa às ilhas Canárias como um gesto de solidariedade com a realidade migratória do país.

“A dimensão social é um dos desafios em algumas áreas da Igreja”, diz Ruiz.

O professor diz que o diálogo de Leão XIV com a sociedade contemporânea será diferente do de Bento XVI.

“Creio que será numa chave pós-secular, a de um líder religioso de uma denominação com influência significativa em nosso país, mas que se dirige a uma sociedade diversa e pluralista, e na qual ele tem uma voz importante que pode ser ouvida por setores mais amplos da própria Igreja”, diz ele.

Ciente dessa realidade, Franco diz esperar que a visita do papa Leão XIV à Espanha “confirme nossa fé e nos encoraje no caminho da esperança neste mundo”, além de oferecer “critérios para julgar a cultura de nosso tempo”.

Depois de dizer que o papa “é um homem muito bem formado teologicamente e bem informado sobre o que ocorre em nosso país e no mundo”, ele espera que a visita de Leão XIV “incentive os jovens e todos a seguir Cristo fielmente e a amar a Igreja sem preconceito, apesar das falhas que nós, cristãos, possamos ter”.

“Para mim, é uma jornada cheia de esperança, e tenho certeza de que vai nos encorajar a sermos cristãos melhores e a vivermos no mundo de hoje como testemunhas do Evangelho”, conclui o bispo.

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