Que eu veja!

    O itinerário do discipulado é um dos enfoques da liturgia deste 30° Domingo do Tempo Comum. Nessa perspectiva, podemos observar, dentre tantos outros, três elementos significativos nas leituras bíblicas que confrontam nossa profissão de fé com os atos exigidos por essa mesma proclamação. Primeiramente, a certeza da presença de Deus em nossas vidas; em segundo lugar, o desapego às honrarias por causa do serviço prestado e, por fim, a nossa abertura para a disponibilidade da missão. Ora, a Sagrada Escritura nos interpela de tal modo que procura aproximar, coerentemente, nossas palavras e ações.

    Eis que na Primeira Leitura (Jr 31,7-9) vemos as marcas de um povo dividido, chagado, enfraquecido. No entanto, a esperança nunca os abandona, Deus está sempre pronto a dar vida àqueles que d’Ele se aproxima, por mais que as lágrimas os acompanhe, o Senhor os conduz seguros, por um caminho reto, como um pai cuidadoso que não descuida de seu filho amado. Este é o desejo divino para o povo, que ele nunca perca a esperança e, igualmente, não se feche aos seus desejos egoístas esquecendo sua identidade coletiva.

    O cego, descrito pelo evangelista Marcos (Mc 10,46-52) no caminho de Jericó, retrata o discipulado daqueles que realmente desejam seguir o Cristo. Eis que ele proclama: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” (Mc 10, 47). Essa profissão de fé movia aquele homem ao ponto de, num salto, despojar-se de tudo o que tinha para ir até Jesus. Quão maravilhosa é essa verdade: reconhecer que somente o Messias é capaz de fazer com que o ser humano enxergue plenamente.

    A exigência do autor sagrado na Segunda Leitura (Hb 5,1-6) é referente ao desapego às honrarias, muitas vezes fruto de um ministério que não tem o Cristo como foco. O serviço aos irmãos é o sentido de todo ministério na Igreja e deve ser exercido sem desejo de atrair para si “holofotes”. Nosso labor deve evidenciar única e exclusivamente aquele que é a causa primeira da missão da Igreja, Jesus Cristo. Eis um desafio grandioso de um tempo caracterizado pela necessidade de autopromoção, sermos filantropos anônimos.

    A desafiadora realidade atual exige do discípulo uma volta às fontes de sua fé, um retorno ao amor primeiro. É urgente ao cristão pôr seu coração no coração do Cristo e sentir o pulsar de amor capaz de transformar uma realidade de morte, vingança e ódio em espaço de acolhida e sincero perdão que gera vida. Só assim as cegueiras contemporâneas vão se dissipando e conseguiremos enxergar a face do amor.

    Abrir os olhos dos cegos era um sinal messiânico de destaque. A Primeira Leitura traz uma profecia, escrita por Jeremias para animar o “resto de Israel”, as tribos do Norte, deportadas pelos assírios em 721 a.C., sugerindo-lhes a perspectiva da volta (pois no tempo de Josias, ao iniciar Jeremias seu ministério profético, a Assíria estava muito fraca e Josias reconquistando a Samaria). As tribos serão reunidas. Mesmo os cegos e coxos estarão aí. Bartimeu é o representante desta profecia, quando Jesus sai de Jericó, na direção de Jerusalém, centro da antiga Aliança.

    Mas Bartimeu é, também, o protótipo dos que querem ver (“eu sou o cego no caminho, curai-me, eu vos quero ver”). Esta é a condição para salvação. Ele é salvo, porque tem fé. Ele a demonstrou de modo palpável, insistindo em chamar a atenção de Jesus, apesar das reprimendas da multidão e dos próprios discípulos. Ele invoca Jesus como Messias (“Filho de Davi”), em plena multidão, e Jesus confirma sua invocação pelo atendimento que lhe concede. Pressentimos aqui as multidões de Jerusalém aclamando Jesus como o que traz presente o “Reino de nosso pai Davi”. Mas, apesar de todo o entusiasmo, Ele continuará seu caminho até o Gólgota.

    A liturgia dos domingos do Tempo Comum não acompanha Jesus no resto do caminho da cruz: a Semana Santa é que faz isto. Portanto, será bom, neste 30° Domingo, fazer uma meditação sintética sobre este caminho, que a alguns domingos estamos acompanhando. Caminho paradoxal, de sinais e desconhecimento, fé e incompreensão, entusiasmo e aniquilação… Cada um traz em si alguma esperança messiânica, alguma utopia. Será que ela corresponde ao critério de Cristo, que mostra ser, ao mesmo tempo, a negação e a plenitude daquilo que esperamos? Para receber em plenitude, precisamos admitir uma revisão daquilo que esperamos. Talvez seja isso que sugira a oração do dia: amar o que Deus ordena e receber o que Ele promete.

    Mesmo no fim do caminho, os apóstolos não compreenderam, mas um cego chegou a ver com clareza, para seguir Jesus pelo caminho. Compreender Jesus não é uma questão de status na Igreja (aqueles apóstolos que queriam ocupar os primeiros lugares, como vimos domingo passado), mas de deixar-se transformar por Jesus. Aliás, no ponto final da caminhada de Jesus, no Gólgota, os apóstolos vão primar pela ausência; só vamos encontrar aí as mulheres que acompanharam Jesus pelo caminho. Portanto, o seguimento radical de Jesus pelo caminho até a cruz não é privilégio do clero.

    Será que nós nos deixamos abrir os olhos para seguir o Messias na etapa decisiva de sua caminhada? Para isso, precisamos saber que somos cegos: não temos, por nós mesmos, a capacidade de seguir Jesus no seu caminho messiânico, caminho de amor e justiça radicais. Muitas vezes somos tão obcecados pelas miragens do progresso e do consumo que nem suspeitamos de nossa cegueira. Mas o cego de Jericó invoca Cristo, é por Ele curado e segue-O no caminho que outros, em condições bem melhores, não quiseram seguir (por exemplo, o homem rico). Imagem de nossa sociedade, de nossa cristandade. O povo dos pobres, submerso nas trevas da opressão econômica e da dominação cultural, que lhes impedem de ter uma visão do que está acontecendo, encontra em Jesus quem lhe abre os olhos, de modo que possa segui-Lo, desimpedido e participando com Ele, até a cruz que liberta os irmãos e irmãs.

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