O caminho do Messias passa pela Cruz!

    No domingo passado, acompanhamos o momento solene em que Pedro, iluminado pelo Pai, professou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”. Por essa profissão de fé, Pedro recebeu as chaves do Reino e foi constituído rocha da Igreja. Todavia, a liturgia deste XXII Domingo do Tempo Comum conduz-nos imediatamente à continuação dessa mesma cena, revelando quão rápida pode ser a nossa transição da iluminação divina para a lógica puramente humana.

    Logo após ser aclamado, Jesus começa a revelar abertamente aos discípulos o verdadeiro caminho do Messias: Ele deve ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A reação de Pedro é imediata e visceral. Ele chama Jesus de lado e o repreende: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!” Percebamos a mudança dramática de tom. Aquele mesmo Pedro que fora chamado de “rocha” sobre a qual a Igreja seria edificada, ouve agora da boca de Jesus uma palavra duríssima: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.” Por que uma reação tão severa de Jesus?

    A expressão “vai para trás de mim” é, na verdade, uma ordem para que Pedro retome a sua posição correta: a de discípulo. O discípulo não anda à frente do Mestre para lhe ditar o caminho ou poupá-lo do sacrifício; o discípulo anda atrás do Mestre, seguindo os seus passos. Pedro queria um Messias glorioso sem a Cruz, uma vitória sem entrega, uma fé sem renúncia. Ao tentar afastar Jesus do Mistério Pascal, Pedro agia inadvertidamente como o tentador no deserto. Assim como a experiência do profeta Jeremias na Primeira Leitura (Jr 20, 7-9), que se sentia interiormente consumido por um “fogo ardente” ao anunciar a Palavra de Deus em meio à perseguição, o verdadeiro seguimento de Cristo exige a coragem da entrega integral.

    Jesus volta-se então para a comunidade dos discípulos e estabelece as três condições do verdadeiro discipulado. A primeira delas é a de que se alguém quer seguir a Jesus, deve antes renunciar a si mesmo, o que não se trata de anular a própria personalidade, mas de descentralizar o “eu”. Renunciar a si mesmo é deixar de ser o centro do próprio universo, abandonando o egoísmo e os projetos autorreferenciais. A segunda condição é a tomada da cruz, lembrando que a cruz no tempo de Jesus não era um ornamento ou uma metáfora leve; era o instrumento de execução e de humilhação pública. Tomar a cruz significa assumir com fidelidade e amor as consequências do compromisso com o Evangelho, suportando as dores e tribulações sem fugir nem murmurar. Por último, o seguimento: O destino do cristão não é a cruz em si mesma, mas Cristo; a cruz só tem sentido porque é o caminho pelo qual seguimos os passos do Senhor até a Ressurreição.

    São Paulo, na Segunda Leitura de hoje (Rm 12, 1-2), expressa essa mesma transformação ao nos exortar: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito.” O mundo ensina a buscar o poder, o conforto a qualquer preço e a fuga de todo sofrimento; o Evangelho nos convida à oferta viva, santa e agradável a Deus. Se no domingo passado Jesus nos perguntava “Quem dizeis que eu sou?”, hoje Ele nos faz uma pergunta ainda mais exigente: “Estás disposto a seguir-me até o fim, mesmo quando o caminho passar pela Cruz?”

    Irmãos e irmãs, é fácil aclamar a Cristo quando tudo vai bem, quando as bênçãos são visíveis e a fé produz conforto. No entanto, a maturidade da fé provar-se-á quando surgirem as incompreensões, os momentos de dor, as renúncias éticas no trabalho ou no matrimônio, e a fidelidade aos valores do Reino. Quem tenta salvar a sua vida a todo custo, buscando apenas a autopreservação e o prazer imediato, acaba por perdê-la na pequenez do seu próprio egoísmo. Mas quem perde a sua vida por causa de Cristo e do Evangelho, a encontrará em plenitude.

    Que a celebração desta Eucaristia nos liberte da tentação de adequar o Evangelho às nossas conveniências. Peçamos a graça de aceitar o Mestre por inteiro, não apenas o Jesus dos milagres e da glória, mas também o Jesus Crucificado e Ressuscitado, para que, caminhando atrás d’Ele com a nossa cruz de cada dia, participemos também da Sua vitória definitiva. Amém.

    + fr. Diamantino Prata de Carvalho, ofm.

    Bispo Emérito da Campanha, MG

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