Uma reflexão sobre a Mensagem do Papa Leão XIV para o 6º Dia Mundial dos Avós e dos Idosos
Uma grande alegria nos invade ao recebermos, mais uma vez, a palavra do Santo Padre dirigida aos nossos avós e aos nossos idosos. O Papa Leão XIV, em sua mensagem para o 6º Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, (4º domingo de julho, neste ano dia 26, dia de Santana e São Joaquim) escolheu como fio condutor uma promessa que atravessa toda a Sagrada Escritura e que toca o coração humano em sua ferida mais profunda: a promessa de que jamais seremos esquecidos por Deus.
O profeta Isaías – Is 49,15 – recorda que o amor do Senhor supera até mesmo o amor de uma mãe pelo seu filho, e acrescenta, no versículo seguinte, que os nossos rostos estão gravados nas próprias palmas das mãos de Deus – Is 49,16. Que imagem bela e consoladora! Não somos números, não somos casos, não somos um peso a ser administrado. Somos filhos e filhas amados, cada um com seu nome, com sua história, com seu rosto único diante do Pai.
Como pastor desta Igreja que caminha no Rio de Janeiro, cidade de contrastes tão vivos entre a beleza e a dor, sinto no coração o peso das palavras do Papa quando ele fala do véu que se estende sobre a vida de tantos idosos, esbatendo seus rostos e relegando-os ao esquecimento. Conheço casas onde reina a solidão. Conheço também instituições onde a ternura, ainda que presente em muitas mãos generosas, luta contra a lógica fria de reduzir a pessoa a um número de leito ou a um diagnóstico. Deus habita esta cidade, e habita também cada lar onde um idoso espera, silenciosamente, por um olhar que o reconheça.
A Igreja como casa de todos: O Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco e agora renovado pelo Papa Leão XIV, não é apenas uma data no calendário. É um convite permanente para que a Igreja seja, de fato, mãe de todos os seus filhos, em qualquer idade da vida. Nosso lema episcopal, Ut Omnes Unum Sint, para que todos sejam um – Jo 17,21 –, encontra aqui uma aplicação concreta e urgente. A unidade que tanto desejamos entre nós não pode deixar de fora aqueles que, muitas vezes, se sentem à margem da vida familiar e comunitária.
Junto ao Santo Padre, quero renovar o convite feito especialmente aos mais jovens: retomem o bom hábito de visitar os avós, os idosos da família, e também aqueles que já não recebem visita alguma. Uma visita simples, um telefonema, um momento de escuta, tudo isso pode se transformar em sinal concreto daquela promessa antiga: eu nunca te esquecerei. A cultura digital, como bem recorda o Papa em sua Carta Encíclica Magnifica humanitas, multiplica as conexões, mas o coração humano continua a precisar de proximidade real, de mãos que tocam, de olhos que se encontram, de tempo dedicado sem pressa.
A fragilidade como vocação: Um dos pontos mais tocantes da mensagem pontifícia é o convite dirigido diretamente aos idosos: não tenhais medo da fragilidade. Esta palavra me parece essencial para o nosso tempo. Vivemos numa sociedade que idolatra a força, a produtividade, a juventude, e que muitas vezes olha para a velhice como decadência. O Papa Leão XIV nos ensina algo diferente e profundamente evangélico: a fragilidade, quando aceita e vivida com fé, abre o coração ao apoio mútuo e à invocação de Deus, tornando-se fonte de reconciliação e de paz verdadeira.
Isso me faz recordar as palavras do profeta: a vossa salvação está na conversão e em terdes calma, a vossa força está em terdes confiança – Is 30,15. Que bela síntese da espiritualidade cristã da velhice! Não se trata de negar as limitações que chegam com os anos, mas de descobrir que, justamente ali, na fraqueza reconhecida, Deus encontra espaço para agir com maior liberdade. Como bem lembrou o Beato João Paulo I, citado pelo Papa, Deus tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece ser noite. Ele é pai, mas também é mãe, como recorda Santo Agostinho ao dizer que Deus aquece, alimenta, amamenta e protege.
Renascer na velhice. Há uma frase da mensagem que merece ser meditada com calma: um homem e uma mulher podem renascer na velhice, tal como Jesus ensina a Nicodemos – Jo 3,4-6. Para muitos, é justamente nesta etapa da vida, quando as certezas humanas se afrouxam e as perguntas essenciais se tornam mais urgentes, que acontece o verdadeiro encontro com Deus. Não é incomum encontrarmos, em nossas paróquias e comunidades, idosos que descobrem ou redescobrem a fé depois de décadas de distância. A eles digo com toda a certeza: nunca é tarde para se dirigir a Deus. Este caminho pode se tornar um grande dom, não só para quem o percorre, mas para toda a família e comunidade que o acompanha.
Um chamado à missão e à paz. Retomemos o apelo do Santo Padre à oração pela paz. Vivemos tempos marcados por violências que atingem também as famílias e preocupam especialmente os avós, que se perguntam que mundo estão deixando para os seus netos. Que cada idoso, com sua experiência e sua fé, se torne intercessor incansável pela paz do mundo, e que cada jovem aprenda, junto aos mais velhos, o valor da paciência, da memória e da esperança. Que este Dia Mundial dos Avós e dos Idosos seja, para todos nós, ocasião de conversão do olhar. Que aprendamos a ver em cada rosto envelhecido não um fardo, mas um tesouro. E que a promessa do profeta continue ressoando em cada casa, em cada asilo, em cada coração solitário: eu nunca te esquecerei.
Que Nossa Senhora Mãe da Igreja, Mãe atenta e fiel, e São José, cuidador silencioso, intercedam por todos os nossos avós e idosos, para que sintam, todos os dias, o abraço terno de Deus.


