FREUD SEMPRE ATUAL DIANTE DA PANDEMIA

    Grandiosas e dolorosas experiências marcou profundamente a vida de Sigmund Freud. Passou pela Primeira Guerra Mundial, a Gripe Espanhola, pela Grande Depressão, também conhecida como a Crise Econômica de 1929, pela Revolução Russa de 1917, a fundação do partido nazista em 1923, a ascensão do III Reich e o antissemitismo do ditador nazista Adolf Hitler. Freud acompanhou os movimentos culturais, sociais, as crises políticas, econômicas, o comunismo, a Teoria da Evolução, a pasteurização, a Revolução Industrial e os movimentos religiosos como: o espiritismo (França), a teosofia (Rússia/EUA) e o pentecostalismo (EUA). Freud morava em Viena, capital do Império Austro-Húgaro. A Áustria-Hungria era um estado multinacional e uma das grandes potências do mundo na época.

    Freud tem abissal visão de pulsão de morte e de autodestruição do ser humano em sua estrutura psíquica. Escreveu: “A meu ver a questão decisiva para a espécie humana é de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição”. (Freud, O mal-estar na civilização, 1930).

    O eminente médico neurologista, escritor premiado austríaco e criador da psicanálise Dr. Sigmund Freud, foi um homem visionário, muito à frente de seu tempo e conectado à sua cultura. Hoje relemos suas obras com olhares admiráveis, redescobrindo o quanto elas nos servem de cicerone, pois são cada vez mais pontuais e necessárias nestes tempos de pandemia.

    A intelectualidade do pensamento de Freud é colossal! É um genial escritor. Sua vontade titânica de estudar os problemas culturais e históricos da humanidade: da filosofia, da mitologia, da religião, da literatura, da antropologia, da arqueologia, focando sempre em conhecer com profundidade o ser humano. Foi um incansável pesquisador por toda a sua vida, até a sua morte.

    Freud conhecia a fundo os clássicos da literatura: os gregos, Shakespeare, os grandes poetas alemães (principalmente Goethe), os romancistas franceses Balzac, Flaubert e Maupassanp e os russos Dostoievski e Gogol. Frequentava às vezes o teatro, mas em matéria de ópera só gostava de Mozart, sobretudo Don Giovanni, e da Carmen de Bizet.

    Freud explica:

    “O nosso sofrimento vem de três fontes. Primeiro, o poder superior da natureza. Segundo, a fragilidade do nosso próprio corpo. Terceiro, a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. As duas primeiras nos forçam a reconhecê-las e submetermos a elas como inevitáveis, pois a experiência de milhares de anos nos convence disso. Quanto à terceira fonte de sofrimento, não a admitimos, não podemos perceber porque os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam proteção e benefício para cada um de nós. Nesse campo de prevenção do sofrimento, como fomos muito mal sucedidos, surge aqui em nós, por trás desse fato, uma parcela de natureza inconquistável e, desta vez, uma parcela de nossa própria constituição psíquica”.

     “Os seres humanos desejam e buscam, constantemente, poder, dinheiro e sucesso”.

    “Quanto ao Ego, não há nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento do nosso próprio Eu. Ser esta aparência enganadora, apesar de que ele seja continuado para dentro, sem qualquer delimitação nítida, por esta entidade mental inconsciente que designamos como Id, a qual o Ego serve como uma espécie de fachada”. (FREUD, S. O mal-estar na civilização, pp. 81, 83 e 105, 1930).

    Conclusão

    Freud foi um dos mais originais pensadores dos tempos modernos, a tal ponto marcou a ciência, a cultura, a arte e a vida das pessoas que já nem se pode imaginar o século XX sem ele. O renomado criador da psicanálise era um cientista fascinado pelos mistérios do inconsciente humano. Era motivado por um enorme desejo de saber, entender e tratar o ser humano em toda a sua dimensão. As obras de Freud continuam vivas, poderosamente vivas, atualíssimas, não só na psicanálise, na psicologia, na pedagogia, mas também nas diversas culturas da nossa pós-modernidade.

    Freud tinha esmero, elegância e profunda dedicação no atendimento, sabia escutar e buscava conhecer seriamente os dramas dos seus pacientes para proporcioná-los o alívio e a cura. Era um perito em conflitos íntimos, começando por si mesmo. Sua autoanálise é a coerência de um profissional ético que procurou se conhecer para lidar com as demandas humanas. Na abissalidade dos estudos da mente humana, adotou o notável aforismo, inscrição gravada no pórtico do templo de Apolo em Delfos, Grécia: “Conhece-te a ti mesmo”. A sua obra a psicanálise, leva o indivíduo ao autoconhecimento, no mais abissal da interioridade humana o seu encontro. Seu legado intelectual e triunfal é configurado na quantidade e na qualidade de discípulos que tem no mundo inteiro.

    Dr. Inácio José do Vale, Psicanalista Clínico, PhD

    Qualificado em Psicologia Clínica e Educacional

    Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Contemporânea/RJ.

    Autor do livro Terapia Psicanalítica: Demolindo a Ansiedade, a Depressão e a Posse da Saúde Física e Psicológica

    Fontes:

    FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930 [1929]). In: O futuro de uma ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.  Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 21.

    _________. (1915/1969). “Reflexões para os tempos de guerra e morte”. FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. 14.

    _________. Psicologia das massas e análise do eu (1921). São Paulo: L&PM Pocket, 2013.

    HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

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