EPIFANIA E PANDEMIA

                Num tempo em que as esperanças humanas se atrelam a qualquer perspectiva; num tempo em que a fé passa a ser um dos pilares de renovadas esperanças ou mesmo objeto de questionamento e ceticismo ainda maiores; num tempo em que epifania deixa de ser simples manifestação religiosa presente no calendário litúrgico ou mesmo nas manifestações populares a enaltecerem a coragem e disposição de três reis que tudo abandonaram para seguir uma estrela no firmamento; neste tempo, nesse mesmo tempo histórico e atual é que Deus se manifestou e se manifesta. A lembrança dos magos do oriente possui lições bem oportunas para nossos dias.

                Senão, vejamos os fatos. Os poderes humanos sempre estiveram e estão ligados aos reinados e ou territórios que demarcam povos e nações. O reinado de Herodes era soberano enquanto legitimado pelos poderosos que lhe davam sustentação política. Conquanto outros povos ainda titubeavam em seus reinos de desencantos e desesperanças. Buscavam sinais que pudessem diminuir suas incertezas num mundo limitado pela força e poderio bélico. Roma dominava, mas outros povos também reivindicavam direitos, demarcavam territórios, buscavam um futuro de liberdade e paz. Era o caso dos magos do oriente, seguidores de uma estrela que lhes apontava novo horizonte. E esta vai lhes revelar Jesus, o menino da manjedoura!

                Passados os primeiros momentos da revelação (a manifestação divina a todos os povos, representados por homens revestidos de autoridade governamental) eis que a história dá um salto para nos apresentar “a voz que clama no deserto”. João, o Batista, seria o precursor Daquele que daria novo sentido ao exercício de qualquer autoridade constituída diante do povo. Eis, pois, que a epifania, a grande manifestação de Deus entre nós, se compraz no gesto da água derramada, a purificação primeira que o batismo realiza naqueles que aceitam esse gesto como primeiro passo da vida sacramental da Igreja de Cristo. Eis que a partir de então “o céu se abriu”. A revelação contida na cena do Batismo de Cristo não foi um simples acontecimento poético; mais um a se purificar no vale do Jordão, mas uma verdadeira epifania, melhor dizendo, uma teofania, onde a divindade de Cristo se manifestou claramente, com a manifestação do Pai e do Espírito em forma de pomba: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu benquerer” (Lc 3,22). A Trindade estava ali.

                Postas essas cenas e fatos históricos, seus efeitos ainda levantam interrogações. Os poderes constituídos daquela época não diferem dos que agora nos regem. Muitos Herodes continuam a matar inocentes, criancinhas, pequeninos. Os infanticidas ainda agem. Outros, alguns poucos vindos de terras longínquas, de realidades diferentes da nossa cultura e das nossas crenças, ainda oferecem o que está ao alcance deles. Querem contribuir com a construção de um mundo novo, um novo tempo. Ao passo que muitos dos nossos, figurinhas carimbadas como seguidores fiéis dos mandamentos e da crença num Deus Único e Verdadeiro, sequer valorizam o Batismo do Espírito que dizem ter recebido. Uma verdadeira pandemia de contradições e distorções religiosas. Um sentimento contrário a tudo que a doutrina cristã nos ensina a praticar. Enquanto perdurar esse negacionismo, essa belicosidade entre fé e razão, ciência e política, fake news e realidade, estaremos contribuindo para uma nova e maior pandemia: a negação de Deus. Dobremos nossos joelhos e nos deixemos purificar nas águas de um novo rio, que ainda corre entre nós: aquele que nos ilumina com seu Espírito e nos cura com seu Fogo.

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