Autoconhecimento

    Num tempo marcado pela onda virtual, parcial, superficial, banal e infernal, buscar se conhecer é algo muito difícil e assustador! O autoconhecimento é doloroso.

    Nem todo abraço, riso, amizade, ficar juntos e trocas de presentes são verdadeiros, devido à falta de autenticidade do “eu mesmo”, ou seja, não sou profundo comigo mesmo e tenho medo de mim. Nego viajar profundamente no meu interior. As minhas amarras, algemas, correntes, e grades não me deixam alcançar meu paraíso e cansado pelos meus fardos, desequilíbrio, patologias, vícios, inveja, ciúmes, medo, ódio, vingança, contendas e soberbas não consigo chegar ao meu coração porque ele está em prisão.

    Não tenho sido uma pessoa autêntica por causa das minhas várias faces, são várias e tenho usados para agradar os outros, vivo numa encruzilhada, não consigo me encontrar, me perdi… Não sou eu para mim. De tanto fingir, ser raso, viver na beira, me tornei seco de amor, de fé, de esperança, de humildade, de piedade e de comunhão. Aquilo que não posso alcançar por mim mesmo me apropria, (usurpo). O que é legal fazer eu não faço, e o que é ilegal eu faço, mas não deveria fazer. A vida torna-se um teatro de dramas, com muitas máscaras, um dilema sufocante, farsante e sem caráter.

    Ainda resta um pouquinho de mim que insiste em algo como mudança, ir ao encontro de coisas novas e até mesmo de mergulhar no meu ser com pouca coragem. No meu intimo sinto comover-se e mover-se em relação a minha alma numa escuridão que nada consigo enxergar, no entanto, há uma pequena luz que insiste iluminar  uma vereda ao encontro inteligente da consciência com a transcendência.

    Ninguém pode viver feliz sem se conhecer. Sem o autoconhecimento toma o lugar do “eu” o abismo da escravidão. O meu nome, meu diploma, meu trabalho, meu dinheiro, minha razão social, minha família, minha religião e meus amigos são insignificantes, devido à liberdade que não existe dentro de mim. Tudo isso contemplo na ótica tenebrosa e caótica da minha ignorância. Não me conhecendo, não consigo conhecer o meu semelhante e nem a beleza da vida, das artes e do Divino. Ser órfão do autoconhecimento é viver solidão sepulcral. A boçalidade é o cemitério da estupidez humana. Pessoas com bela aparência, carismática, sem conteúdo e sem sensibilidade é igual mausoléu de mármore. Tem gente que aparentemente está viva, mas na verdade está morta. Sua cerimônia fúnebre é constante com seus falsos parentes e amigos velando seu corpo com beijos, abraços, perfumes, flores, velas, presentes, banquetes, músicas, sacerdotes, declarações sentimentais e até lágrimas, no entanto, esse cenário mórbido ninguém quer revelar e jamais quer ser revelado. É aqui onde o podre exala e muitos fingem esconder a sua fedentina.

    No mundo do ‘fator exibição’, da ostentação, das primeiras páginas, das fotos belíssimas, dos perfumes caríssimos, do andar sedutor, da elegância no vestir, dos banquetes, do falar bem e do profissionalismo de negociar, pode estar oculto o monstro demolidor do vazio, do tédio, do desencontro, da angústia terrível e da depressão. Tudo isso leva a pessoa não se gostar de si mesmo e nem tão pouco do outro. Esse tipo de gente vive na rotina automática, ou seja, não há mais sensibilidade, ternura, carinho, carícia e amor.

    Conhecer a si mesmo foi e sempre será assustador. Assim como o silêncio, o deserto e abissal meditação são afastadas pelas tormentas das atividades cotidianas. Ter dificuldades com transformações, renovações e novidades para vida, são sinais de graves doenças na alma. A razão escurecida a vida caminha perdida. As sombras, os medos tomam o lugar da sabedoria e o conhecimento é obscurecido pelas repetições litúrgicas do relativismo e da mediocridade. As rotinas celebrativas tornam as pessoas chatas, impacientes, imbecis, tolas, fantoches, maldosas e sem futuro.

    Há muitas resistências em prol de coisas novas. Nada muda, se eu não mudar. Enquanto eu não me encontrar, o outro nunca será encontrado. A vida deve ser impactada com encontro de mudanças e dentro desse contexto o autoconhecimento e o autoaperfeiçoamento sempre. A aqui existe a fortaleza para o sentido real da vida na hipotalássica felicidade.

    Por que o autoconhecimento é o máximo para pessoa? Porque jamais alguém pode roubar você de você mesmo. Todos nós temos uma chave da nossa interioridade, o “eu”, quando alguém rouba essa chave invade sua privacidade, domina, controla numa prisão o “eu”, daí, a infelicidade, perda da identidade, demolição emocional, torna-se escrava de ceder prazer ao escravocrata; segue à morte da razão e o sepultamento do coração.

    É um grande desafio procurar se conhecer. Aceitar esse desafio é tomar posse de viver bem pela via da análise interior profunda. Em outras palavras, temos que exercitar a autoanálise para não nos fraudar e afundar em fantasias perniciosas sobre nós mesmos. Para conhecer-se a si mesmo, a pessoa precisa meditar, silenciar e abissalizar no âmago do seu ser. O desafio é concretizado pela coragem de uma limpeza, ou melhor, uma purificação radical de todas as misérias e desgraças do nosso íntimo. O autoconhecimento é um processo que vai da tomada de consciência do indivíduo em relação ao seu desconhecimento de si mesmo, passa pelo movimento interminável do enxergar a si próprio, da autoeducação, autoaceitação, autoprogramação, autoaperfeiçoamento e autorrealização.

    Conviver com pessoas dentro dessa modalidade é o mesmo que viver na celestialidade angelical. A beleza da sua arte interior se contempla no jardim de suas delícias…

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