A Vinha do Senhor e os Frutos que Deus Espera de Nós

    27º Domingo do Tempo Comum, Ano A

    Neste 27º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a contemplar uma imagem muito querida da tradição bíblica: a vinha. Uma imagem simples, tirada da vida do campo, mas que carrega um significado profundo sobre a relação entre Deus e seu povo, entre o Senhor e cada um de nós.

    O canto do amigo e a vinha que decepcionou: A primeira leitura – Is 5,1-7 – abre com um cântico de amor. O profeta descreve o cuidado meticuloso de um homem que preparou sua vinha com todo o zelo possível. Cercou a terra, limpou-a das pedras, plantou videiras escolhidas, edificou uma torre e um lagar. Tudo estava preparado para que a vinha produzisse os melhores frutos. E, no entanto, ela produziu uvas selvagens, amargas, sem valor.

    Esse cântico é, na verdade, um espelho. Isaías nos revela que a vinha é a própria casa de Israel, o povo que Deus escolheu, cuidou e amou com dedicação paterna. E o Senhor, decepcionado, pergunta ao seu povo: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” (Is 5,4). Uma pergunta que ainda hoje ressoa em nossos ouvidos, em nossas paróquias, em nossas famílias. Deus não cansou de nos amar. Fomos nós que, muitas vezes, respondemos com indiferença ao seu cuidado.

    O salmo responsorial – Sl 79(80),9.12.13-14.15-16.19-20 – retoma essa imagem com um clamor sincero: “Voltai-vos para nós, Deus do universo! Olhai dos altos céus e observai. Visitai a vossa vinha e protegei-a!” É a oração de um povo que reconhece sua fragilidade e pede, humildemente, a proteção e a misericórdia divinas. E essa é também a nossa oração hoje, em cada canto do Brasil onde uma comunidade se reúne para celebrar a fé: “Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, e sobre nós iluminai a vossa face! Se voltardes para nós, seremos salvos!” (Sl 79,20).

    A parábola que Jesus contou aos que já sabiam a resposta: O Evangelho segundo Mateus – Mt 21,33-43 – retoma a mesma imagem, mas com um desfecho ainda mais doloroso. Jesus conta aos sumos sacerdotes e aos anciãos a parábola dos vinhateiros que maltrataram os empregados enviados pelo proprietário e, por fim, mataram o próprio filho do dono da vinha, pensando em tomar posse da herança. É uma narrativa que anuncia, de forma velada, a rejeição que o próprio Jesus sofreria e a Paixão que se aproximava.

    O mais impressionante nessa passagem é que Jesus faz uma pergunta e são os próprios ouvintes que respondem, condenando com suas próprias palavras a atitude dos vinhateiros infiéis. Sem perceber, eles pronunciam contra si mesmos a sentença de sua infidelidade. E Jesus completa com uma palavra que atravessa os séculos e chega até nós, aqui e agora: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Mt 21,42). Cristo, rejeitado por muitos, tornou-se o fundamento sobre o qual toda a Igreja se sustenta.

    E a advertência final é clara e nos toca profundamente: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (Mt 21,43). Não podemos ler essa frase apenas como algo dirigido a outros, em outro tempo. Ela nos interpela diretamente. Nós somos, hoje, os vinhateiros a quem foi confiada a vinha do Senhor. E Deus continua esperando de nós frutos de justiça, de misericórdia e de amor.

    Frutos que se colhem na vida concreta: Diante de tantas notícias de violência, de divisões e de sofrimento que atravessam nosso país e, em especial, nossa cidade, poderíamos ser tentados ao desânimo. Mas é justamente aqui que a segunda leitura – Fl 4,6-9 – nos oferece um caminho luminoso. São Paulo, escrevendo aos Filipenses desde a prisão, não perde a paz e nos ensina: “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4,6). E promete: “A paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Fl 4,7).

    Esta é a receita simples e profunda para os frutos que Deus espera de nós hoje, em nossas casas, em nosso trabalho, nas ruas de nossas cidades: ocuparmo-nos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e honroso (cf. Fl 4,8). São frutos possíveis a qualquer pessoa, em qualquer condição de vida. Um gesto de acolhida ao estrangeiro, um cuidado com o doente, uma palavra de perdão numa família ferida, um compromisso honesto no trabalho, uma escuta paciente ao jovem que sofre. Tudo isso é fruto bom, fruto que dura, como o próprio Senhor nos disse: “Eu vos escolhi, foi do meio do mundo, a fim de que deis um fruto que dure” (cf. Jo 15,16).

    Somos convidados a ser vinhateiros fiéis: Cada um de nós recebeu, no batismo, uma vinha para cuidar. Essa vinha é a própria vida, é a família, é a comunidade, é a nação que amamos. E o Senhor não nos deixou sós nesse cuidado. Ele plantou, cercou, edificou a torre, construiu o lagar. Fez tudo o que era necessário. Agora espera de nós a resposta de um coração disponível, disposto a produzir frutos.

    Não sejamos como aquela vinha que decepcionou o seu dono. Sejamos, antes, um povo agradecido, que reconhece o cuidado de Deus e responde com generosidade. Que nossas paróquias, nossos movimentos, nossas famílias sejam verdadeiramente terra fértil onde a Palavra encontra bom acolhimento.

    E que jamais nos esqueçamos: mesmo quando falhamos, mesmo quando produzimos uvas amargas, Deus continua sendo o amigo que não desiste da sua vinha. Ele sempre nos oferece uma nova chance, um novo tempo de graça. Essa é a boa notícia deste domingo: o amor de Deus é mais forte que nossa infidelidade, e sua misericórdia sempre nos convida a recomeçar.

    Que Nossa Senhora Aparecida, cuja novena estamos vivendo, sempre atenta às necessidades de seus filhos, nos ajude a sermos servos fiéis na vinha do Senhor. E que, unidos como um só povo, do interior às capitais, das comunidades ribeirinhas às periferias urbanas, possamos dar ao mundo o testemunho de uma Igreja que produz frutos de justiça, de paz e de esperança.

    Que o Senhor nos abençoe e nos envie, a cada um, como missionários alegres desta boa notícia. “Ut omnes unum sint”, para que todos sejam um (cf. Jo 17,21).

    Ao recordar os 800 anos do trânsito de São Francisco de Assis, neste dia de eleições, confiemos a proteção do Santo Seráfico em favor do povo brasileiro para que seja iluminado na escolha dos que serão eleitos em favor da unidade do povo brasileiro!

    Um abraço fraterno a todo o Brasil, e que Deus vos conceda uma bela e frutuosa semana!

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