A CURA PELA PALAVRA

                Anos e anos após seu nascimento, Freud ainda explica. Ou pelo menos tenta. Sua doutrina, a psicanálise, surgiu em 1896, após sucessivas experiências do grande cientista e escritor, de buscar novas alternativas de cura para distúrbios psicológicos. Seus estudos partiram do princípio de que somos movidos pelo inconsciente.

                A experiência e doutrina freudiana revolucionou o tratamento psiquiátrico. Princípio básico: saber ouvir. A cura estava no fluxo do inconsciente, através da palavra. Do desabafo. Nasceu aqui o divã do psicanalista. A arte da escuta ganhou espaço nos consultórios médicos, até mesmo entre nazistas e psicopatas mais, que acompanharam o crescimento dessa nova ciência humana. Diante dos impasses do comportamento pessoal, lá estava Freud, com suas teorias e soluções.

                Nada mudou. Apenas a unanimidade não é a mesma. Hoje alguns ousam contradizer as teorias do grande psicanalista, apontando-lhe falhas e acusando-o de abusos e deslizes antiéticos no processo de pesquisas. Dos questionamentos, um nos chama a atenção: por que a psicanálise faz mais sucesso entre católicos?

                A resposta é simples. Antes, porém, vamos aos fatos. Ainda engatinhando em seus princípios e teorias, a psicanálise preenche uma grande carência humana de atenção, afetividade, carinho, princípios básicos da fraternidade apregoada pelo cristianismo. O panorama de sua receptividade é maior entre povos latinos, em especial argentinos e brasileiros. Todavia, seu maior sucesso foi entre os franceses, onde a psicanálise tornou-se modismo e onde foram publicadas as maiores obras sobre o assunto. Só agora, a psicanálise ganha o continente asiático, aonde chega embrulhada no rol das novidades que o Ocidente lhe oferece. Explica-se: entre os chineses, por exemplo, os valores da individualidade são experiências recentes, descobertas de liberdade cujo confronto o Estado até então não permitia.

                E daí, qual a relação com o catolicismo? Nenhuma, se não existisse similaridade entre o divã do psicanalista e o genuflexório do confessionário. Nesse aspecto, as duas atividades, psicanálise e confissão, têm tudo a ver, são deveras idênticas, com uma diferença essencial: a última redime por completo.

                Aqui se explica aquela verdade: quanto menor a fila do confessionário, mais cheio o cofre dos psicólogos e psicanalistas. Quanto mais raramente o católico busca sua reconciliação pessoal, mais freqüentemente se confronta com seus conflitos e limitações próprias do comportamento sócio-cultural. A falta de sacerdotes predispostos ao atendimento espiritual, à valorização do ato confessional, mesmo que em caráter penitente, está levando muitos católicos a engrossarem as filas da psicanálise. Eis o porque desse sucesso entre os católicos, razão que merece muito mais críticas do que aplausos, pois denuncia claramente a permuta de um sacramento por um modismo. Nada contra os psiquiatras ou psicólogos de plantão. Eles possuem espaço e valores indubitáveis na sociedade. Ressalto somente uma constatação óbvia.

                Para citar Jesus – o pai da psicanálise e psiquiatra por excelência – reporto aqui sua palavra, a verdadeira palavra que cura: “O importante não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”. A palavra, esta não só cura, mas igualmente cria e explica. Pois, no princípio, Deus disse… E tudo se fez.

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