Iluminados por Deus celebramos o XXIX Domingo do Tempo Comum, quando a Palavra de Deus – Mt 22, 15-21 – nos interroga com a célebre pergunta sobre o tributo a César e com a resposta cortante de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21). Ao olharmos para esta passagem pela ótica do magistério do saudoso Papa Francisco, compreendemos que a divisão feita por Cristo não é um convite ao alheamento do mundo, mas o fundamento de uma profunda ecologia integral. O que é de César? A moeda é, pois, as estruturas econômicas temporais, os tributos da cidade dos homens. Mas o que é de Deus? De Deus é a alma humana, criada à sua imagem e semelhança (Imago Dei), e com ela toda a Criação, pois “do Senhor é a terra e tudo o que ela contém” (Sl 24, 1).
O Papa Francisco profeticamente nos ensinou que o drama do nosso tempo nasce justamente quando o ser humano confunde essas duas esferas: quando permitimos que a lógica da “moeda de César” — a lógica do lucro desenfreado, do consumo descartável e da exploração predatória — invada e domine aquilo que pertence unicamente a Deus. Quando transformamos a Casa Comum em um espaço de apostas e negociações, e o bem-estar dos irmãos em mera mercadoria, estamos entregando a César o que é sagrado, o que pertence ao Criador.
Como nos lembrava o Santo Padre na encíclica Laudato Si’, o mundo não é um mero recurso a ser espoliado, mas um dom amoroso confiado ao nosso cuidado. A lógica do denário romano, que busca acumular, descartar e dominar, contrapõe-se à lógica do Evangelho, que nos chama à economia circular e solidária — uma economia que aprende com os ritmos da própria natureza, onde nada se desperdiça, onde os recursos são compartilhados e onde o ritmo do progresso é medido não pelo acúmulo de riqueza privada, mas pela capacidade de incluir os mais vulneráveis e proteger a terra que nos sustenta.
Dar a Deus o que é de Deus significa reconhecer a Sua efigie não apenas gravada na alma do ser humano, mas refletida na beleza das florestas, na pureza das águas, no ar que respiramos e na dignidade dos pobres e descartados da sociedade. Cada ação de cuidado com a natureza, cada escolha por um consumo consciente, cada esforço para combater a cultura do descarte é uma atitude de culto e fidelidade a Deus. É dizer ao mundo que o valor da Criação transcende qualquer normativa vã ou especulação financeira.
A Primeira Leitura deste Domingo (Is 45, 1.4-6) recorda que o Senhor é o único Deus e que todos os impérios e seus modelos econômicos passam, mas a palavra do Criador permanece. Na Segunda Leitura (1Ts 1, 1-5b), São Paulo elogia a atuação da fé e o esforço da caridade dos fiéis. Hoje, o nosso esforço de caridade precisa ser também um esforço de cuidado ecológico e social. Não podemos amar a Deus, a quem não vemos, se destruímos a Casa Comum que Ele nos deu e se fechamos os olhos ao clamor da terra e ao clamor dos pobres.
Na Eucaristia, a própria Criação é elevada e santificada. Pedimos, pois, ao Espírito Santo que nos converta o coração, libertando-nos da ganância que converte tudo em moeda de troca, e concedendo-nos a sabedoria para sermos guardiões fiéis da Casa Comum. Que saibamos dar a César o testemunho de uma cidadania responsável, mas entreguemos integralmente a Deus o louvor, o cuidado e o amor pela Sua obra de Criação. Amém.
Dom Fr. Diamantino Prata de Carvalho, OFM.
Bispo Emérito da Campanha, MG.



