COM APARECIDA, CELEBRAR A FESTA DA VIDA

    Mais uma vez celebramos este dia tão especial da Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil. Neste momento, uma suave e profunda comoção toma conta dos nossos corações: sentimos mais viva e acolhedora a presença de Maria. Ela, a Mãe; nós, os filhos amados; e o mesmo amor de Jesus pulsa fortemente entre nós. Somos convidados a voltar o olhar para a pequena imagem encontrada em 1717, nas águas do Rio Paraíba do Sul, por mãos de humildes pescadores. Ela fala em silêncio: revela a Maria humilde e pequenina de Nazaré, que traz em seu ventre puríssimo o Verbo encarnado, a Vida que renova o mundo. Representa a mesma mulher compassiva que percebeu a iminente falta de vinho nas bodas e prontamente apontou a solução para que a alegria transbordasse, dizendo: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (Jo 2,5b). Confiemos sempre em sua poderosa e terna intercessão.

    A Liturgia da Palavra embeleza ainda mais esta solenidade, pois evidencia a grandeza de uma mulher humilde. Maria nada reteve para si; soube colocar-se plenamente em seu lugar de serva, entrelaçando sua existência à vontade de Deus. Sua atitude é espelho e modelo de vida cristã, cuja nobreza espiritual todos devemos aprender a cultivar. A dignidade de Rainha dos Céus e da Terra, que verdadeiramente lhe pertence, brota em plenitude dos méritos redentores de Jesus Cristo. Portanto, sua honra majestática é pura Graça derramada. Maria sabe fazer perfeito uso do título que possui, pois nada pede senão o que cumpre a vontade de seu Filho. Sua realeza traduz-se em puro serviço: serviu na terra enquanto cuidava de Jesus e amparava os apóstolos; serve agora no céu, advogando incansavelmente por cada um de nós.

    Na primeira leitura – Est 5,1b-2; 7,2b-3 –, encontramos a beleza e a nobreza real de Nossa Senhora prefiguradas na figura corajosa da rainha Ester. Contudo, em Maria, essa realeza reluz com um esplendor ainda mais sublime: a sua verdadeira beleza não reside na efemeridade dos adornos deste mundo, mas no fato bendito de que ela sabe amar. A formosura de Maria é o próprio amor de Deus refletido em um coração totalmente puro e disponível; ela é bela porque ama sem reservas, porque abraça os desvalidos, compadece-se das nossas carências e faz de sua vida uma contínua oferta de caridade.

    Foi com essa mesma audácia do amor que a jovem Ester, filha de Israel, apresentou-se com vestes vistosas diante do soberano. Tratava-se de um risco extremo, pois aproximar-se do trono sem ser chamada impunha a pena de morte irrefutável. Ester arriscou a própria existência, pois nada lhe era mais precioso do que salvar o seu povo. Recordemos a história: o rei Assuero escolhera Ester para sua esposa. Na corte, o comissário Hamã, movido por ódio e inveja de Mardoqueu, judeu fiel que se recusava a prestar-lhe reverência, obteve um decreto real para exterminar todos os judeus do Império Persa. Ao tomar ciência do massacre iminente, Mardoqueu cobriu-se de luto e rogou à rainha que intercedesse diante do monarca. Vencendo o medo, Ester foi até o rei e clamou com a força da fé: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida – eis o meu pedido! – e a vida do meu povo – eis o meu desejo” (Est 7,3). Esse pungente clamor pela vida ecoa hoje de forma límpida na voz de Maria. Ela também ergueu o canto da vida ao proclamar no Magnificat a vitória dos humildes, e continua a interceder para que tenhamos vida em abundância. Diante de tantas realidades e estruturas que ferem e desvalorizam a dignidade humana, unamo-nos a Maria para clamar contra a violência, o ódio, a indiferença e a destruição, anunciando incansavelmente a paz, a comunhão e o amor fraterno.

    Recordo-me com carinho das nossas peregrinações ao Santuário Nacional, que testemunham o florir permanente da vida. Essa vida resplandece nas cores dos mosaicos que abraçam o altar central, entoando a exuberância da terra brasileira em hino de louvor ao Criador. Essa arte sacra vai ao encontro da vida pulsante de tantos devotos que, carregando dores, cansaços, súplicas, mas também vitórias e preces de gratidão, ajoelham-se confiantes aos pés da pequena imagem de negra cor. Tudo ali é vida que brota em manancial de esperança. Por isso, comovidos, rogamos à nossa Mãe: “Aparecida, mãe querida, faz brotar em nós a vida nova de teu Filho Jesus. Livra-nos da morte, da violência, da guerra, da fome, das intrigas e divisões. Livra do mal as crianças: tanto as que já nasceram quanto as que ainda estão no ventre materno. Que sejamos também nós portadores da vida levando Jesus a todos os irmãos e irmãs”.

    Maria anseia profundamente que a festa da vida continue – Jo 2,1-11 –. Em Caná, foi o seu olhar maternal que percebeu a falta do vinho e a iminência do fim da alegria da festa. Deu, então, a indicação perene: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Não é ela quem realiza o prodígio, mas o Filho; todavia, cabe a ela conduzir os passos da humanidade à única mediação perfeita, que é Cristo Jesus. Mandam-se encher seis talhas de pedra — número emblemático que remete aos seis dias da criação no Gênesis. Aquelas talhas transbordantes revelam a nova criação inaugurada pelo Redentor. Maria desponta como a nova Eva, Mãe da humanidade regenerada, cooperadora na vitória sobre as trevas e o pecado. O evangelista salienta que as talhas foram repletas até a borda, atestando a superabundância da graça divina e que a redenção alcança o homem por inteiro. A festa da vida pode, enfim, prosseguir sem receio de que o júbilo se extinga.

    E nesta bendita festa da vida que hoje celebramos sob o olhar carinhoso de Nossa Senhora Aparecida, não nos faltará sustento nem vigor para o caminho. O banquete nupcial que o Senhor nos prepara atinge o seu ápice e a sua plenitude no mistério do altar, onde o vinho novo do Reino já se faz presente entre nós. Ao lado de nossa Mãe celeste, somos convidados a aproximar-nos da mesa sagrada para receber o verdadeiro alimento das nossas almas: a Santíssima Eucaristia, pão da vida eterna e cálice da salvação, remédio de imortalidade que renova nossas forças e antecipa na terra a alegria eterna dos céus. Que Nossa Senhora da Conceição Aparecida continue protegendo nossas famílias, o nosso Brasil. Sua presença materna chega a todos os lares e quer fazer morada junto de Jesus que transforma toda a água em vinho de alegria eterna. Viva Nossa Senhora da Conceição Aparecida!

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