A voz que clama no deserto

Só do deserto pode surgir uma voz com tamanha força e autoridade. A cidade é muito agitada e rumorosa para dar espaço a ela. A zona urbana não possui ouvidos que se ocupem do que ela tem a dizer. A velocidade e a pressa não permitem parar, silenciar e escutar. O deserto e o silêncio constituem o terreno fértil para o nascimento de uma palavra inédita e criativa, livre e libertadora, nítida e transparente – uma palavra que vem de Deus. Palavra suficientemente suave para penetrar o coração e a alma dos ouvintes e, ao mesmo tempo, suficientemente estridente para sacudi-los do torpor.

É verdade que a metrópole também acaba tomando o aspecto de um estranho deserto – o deserto moderno. São tantos os rumores e ruídos e tantos os problemas e preocupações que tomam posse de cada indivíduo, que multidão rima com solidão. Solidão atropelada por gente sempre atarefada, rio de águas turvas e desencontradas, que corre em todas as direções. Nome, olhar, toque, palavra, história, cultura, valor – nada disso tem vez e voz. Daí a necessidade da “voz que clama no deserto”, enviada pelo Deus que “habita esta cidade” para “preparar os caminhos do Senhor”.

Segundo o quarto Evangelho, João Batista, ao ser insistentemente interrogado sobre a própria identidade, se autodefine “a voz que clama no deserto” (Jo 1,23). Recorre ao livro do profeta Isaías para explicar sua missão de precursor, bem como seu apelo à conversão pelo batismo (Is 40,3-5). Que diz a voz? “Abram no deserto um caminho para o Senhor. Na região da terra seca, aplainem uma estrada para o nosso Deus. Que todo vale seja aterrado, e todo monte ou colina sejam nivelados”.

Voz de fogo, profética e veemente: evoca o clamor pela justiça, o direito e a paz que emanam das páginas do Antigo Testamento e, simultaneamente, aponta para o perdão e a misericórdia, tão característicos do Novo Testamento. A um só tempo, une e divide a nova e a antiga Aliança. Denuncia o acúmulo de riqueza, poder e prepotência no topo da pirâmide socioeconômica e anuncia uma “estrada plana”, porque o Senhor Deus se compadece do pobre, do indefeso, do estrangeiro e do excluído.

Voz mais atual que nunca. Bastaria um olhar rápido às estatísticas no interior de cada nação, bem como à economia globalizada, para dar-se conta de como o crescimento econômico e o progresso técnico, longe de conduzirem a um “desenvolvimento integral” (na expressão da Populorum Progressio), aprofundam o abismo entre países desenvolvidos, países emergentes e países subdesenvolvidos. E aprofundam igualmente os desequilíbrios entre pessoas, regiões e setores sociais de uma mesma nação. Seguindo ainda a linha da Gaudium et Spes e da Populorum Progressio, estamos diante de um crescimento cujo motor é viciado desde a partida. Não somente traz imbutido o vírus da desigualdade socioeconômica, mas tende a ampliá-la no ato mesmo de por-se em marcha. Cresce para uma minoria privilegiada, ao mesmo tempo que empobrece a grande maioria da população.

Disso resulta que, de acordo com as palavras do Papa João Paulo II, “os ricos tornam-se cada vez mais ricos às custas dos pobres cada vez mais pobres (Discurso durante sua viagem ao México). Os números, gráficos e tabelas que diferenciam a riqueza de uns poucos e a pobreza de inteiras populações tendem a distanciar-se sempre mais. O mais grave é que, por trás desses números, gráficos e tabelas, existem nomes e rostos e mãos e braços de trabalhadores e trabalhadoras com suas famílias. Gente muitas vezes condenada ao desemprego ou subemprego, à migração forçada, quando não ao recrutamento por parte dos traficantes de seres humanos para fins de exploração trabalhista e sexual.

Diante de semelhante cenário mundial, onde está João Batista? Onde está sua voz profética? Parece silenciosa ou silenciada, desapontada e apática, indiferente e desacreditada. Por que a devoção popular ao santo raramente se traduz em um compromisso social ditado por sua voz. Por que esta, antes tão vibrante e afiada como um “machado na raiz”, agora se deixa abafar pelas fogueiras, as festas e as romarias? São João Batista – Rogai por nós e fazei-nos recuperar tua voz profética!

 

Fonte: Jornal o São Paulo

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