Ensinaram-nos, desde pequenos, o que era bom ou mau, o que se podia ou não fazer. Alguns de nós paramos aí, isto é, sempre esperamos que alguém nos diga o que temos de fazer. Mas a verdade é que ser cristão não torna a nossa vida mais fácil. Ser cristão não é uma espécie de almofada ou colchão que nos proteja de todos os perigos do mundo. Ser cristão não é ter encontrado um refúgio, às vezes fisicamente, na Igreja, onde nos afastamos das dores e dos problemas que encontramos na nossa vida familiar ou em nosso trabalho. Ser cristão não é um chamado para sermos crianças, isto é, pessoas que perguntam sempre ao pai, ou ao sacerdote, para que lhes diga o que devem fazer.
Ser cristão é, ao contrário, um chamado para que cresçamos como pessoas, para que amadureçamos, sejamos responsáveis, vivamos em liberdade, assumamos as nossas próprias decisões e nos arrisquemos. Não porque assim ganharemos o prêmio da vida, mas porque essa forma de viver é a Vida em si mesma. O “desígnio de Deus”, segundo nos diz a primeira leitura do vigésimo terceiro domingo do Tempo Comum(cf. Sb 9,13-18), é que vivamos em liberdade.
Jesus, no evangelho(cf Lc 14,25-33), nos convida a segui-lo. Mas não nos diz o que temos de fazer a cada instante. Diz-nos que segui-lo é a condição para chegar à vida e que temos de estar dispostos a deixar tudo, absolutamente tudo, para acompanhá-lo.
Ele nos convida, desta forma, a vivermos o dom da liberdade, a nos livrarmos de todas as amarras que nos escravizam. A família é, às vezes, um convite para nos mantermos sempre crianças, a sermos um a mais do rebanho, a fazermos não aquilo que devemos fazer, mas o que outros esperam que façamos. Seguir a Jesus é deixar a casa em que vivemos. Não propriamente no sentido físico ou geográfico, mas no sentido afetivo. Deixar esse lugar mental em que nos sentimos seguros e temos respostas para tudo. Seguir a Jesus é sair para o mau tempo e deixar-nos afetar pelo que pensam, sentem e sofrem nossos irmãos, os homens e as mulheres deste mundo.
Carregar nossa cruz significa aceitar nossas feridas e limitações, nossos erros do passado. Não negá-los, mas assumir que é parte de nossa história, de nosso ser. E caminhar com os olhos erguidos, confiando que Deus irá curar todas essas feridas, confiando que o dom da liberdade, do encontro alegre com o irmão e com Deus compensará amplamente tudo àquilo que tenhamos deixado para trás.
Ser cristão e seguir a Jesus têm muito a ver com aprender a ser livre e descobrir que somos filhos de Deus e irmãos de todos. Jesus nos mostra o caminho e nos ensina que somente deixando tudo poderemos encontrar a vida e a felicidade.