Total confiança em Deus misericordioso

    A confiança em Deus é fundamental ao cristão, mas este corre o risco de não atingir o meio termo ao cultivar esta virtude. Há dois extremos a serem evitados: a presunção e  a pusilanimidade. Muitos confundem a misericórdia divina com a complacência de Deus, como se Ele não se importasse com os erros cometidos pelo ser humano. São aqueles que cometem pecados até graves, mas, acobertados por uma falsa fidúcia, ficam com sua consciência tranquila, porque mal formada e incorretamente informada sobre a retidão do Ser Supremo. Ousam até comungar não estando em estado de graça, cometendo assim um horripilo sacrilégio.  No seu último livro “O nome de Deus é misericórdia” o papa Francisco se referiu ao que  ele declarara em  uma  de suas homilias: “Pecadores, sim. Corruptos, não”. Explicou: “ A corrupção é o pecado que ,em vez de ser reconhecido como tal e nos tornar humildes, é transformado em sistema, torna-se um hábito mental, um modo de viver. Não nos sentimos mais necessitados de perdão e de misericórdia, mas justificamos a nós mesmos e aos nossos comportamentos”. Trata-se, de fato, do efeito de  um procedimento presunçoso. Outros, porém, por não conceituarem corretamente a confiança no Senhor rumam para o desespero. Andam pelos vales sombrios da timidez e vivem receando pela sua salvação eterna. Estes se esquecem que Deus é Pai e não decodificam os gestos de bondade de Jesus tão generoso em perdoar como fez com Madalena, a Mulher adúltera, o Bom Ladrão. Estes deveriam mentalizar o que o Papa Francisco no seu referido livro declarou: “Misericórdia é a atitude divina que abraça, é o doar-se de Deus que acolhe, que se dedica a perdoar. Jesus disse que não veio para os justos, mas para os pecadores. Não veio para os sadios, que não precisam de médico, mas para os doentes. Por isso, pode-se dizer que a misericórdia é a carteira de identidade do nosso Deus. Deus de misericórdia, Deus misericordioso”. Adite-se que segundo os Mestres espirituais os homens são mais inclinados para a presunção e as mulheres se deixam levar mais pela pusilanimidade. O justo termo entre estes dois posicionamentos é obtido evidentemente por um verdadeiro  conceito da justiça e da ternura divinas. Deus perdoa sempre, mas é preciso que alguém ao cometer um desvio ético  reconheça com humildade seu erro e peça o perdão divino. Eis porque o papa Francisco na citada obra exaltou o papel importantíssimo da Confissão, onde a ferida do pecado “deve ser curada e medicada”. Entretanto, sem uma convicta fé na misericórdia de Deus é impossível se chegar a uma absoluta confiança no Pai celeste.  O Pe. Grou, místico do século XVIII, no seu magnífico livro “Manual das almas interiores”, mostra como obter a vitória contra o demônio e contra si mesmo como efeito desta adequada confiança em Deus. É necessário, diz ele, estar atento contra o próprio julgamento e a própria vontade; crer cada dia no amor de Deus, enfraquecendo assim o amor  próprio; sacrificar os interesses pessoais aos interesses do Criador; entregar-se inteiramente a Deus, para que o amor próprio dê lugar ao  amor divino. Em síntese, trata-se de viver intensamente o que se reza ao Pai do Céu na oração que Jesus ensinou: “Seja feita a vossa vontade”. A vontade de um Deus que é Senhor misericordioso só pode trazer felicidade para os que reconhecem que Ele é justo e clemente. Deste modo a fidúcia aumenta a certeza na bondade divina e a misericórdia de Deus inflama na prática desta virtude da confiança. Tudo isto deve ser meditado e vivido intensamente neste Ano Santo da Misericórdia. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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