Superação da Violência

    O tempo quaresmal, como tempo de conversão, possibilita o caminho da renovação batismal. Os exercícios quaresmais do jejum, da oração e da esmola nos abrem para o encontro com Aquele que é a plenitude da vida, com Aquele que é a luz e a vida de toda a pessoa que vem a este mundo (Jo 1, 10). A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano tem como centro justamente a reflexão sobre esses três temas. O jejum abre o nosso ser para a receptividade da vida nova, da liberdade. A oração é a exposição de quem espera ser atingido pela misericórdia d’aquele que nos amou primeiro e até o fim. (Jo 4,10). A esmola é o amor partilhado; é deixar-se tomar pela dinâmica da caridade; é sair de si mesmo; é deixar-se tocar pela presença do outro, especialmente do mais necessitado.

    No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como itinerário de libertação pessoal, comunitário e social. Ela nos questiona sobre a necessidade de conversão ao mesmo tempo que propõe à sociedade uma realidade a ser superada. Por isso a CF ao ser trabalhada pela Igreja Católica, é no entanto, dirigida a todas as pessoas que boa vontade que examinam a realidade que hoje vivemos.

    O tema da campanha da fraternidade é “fraternidade e superação da violência” e o lema é inspirado no Evangelho de São Mateus: “vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8). A campanha tem como objetivo geral: “construir a fraternidade, promovendo a cultura de paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”. Nós sofremos e estamos quase estarrecidos com tanta violência. Em nossa cidade se visibiliza tantas guerras e confrontos que chamam a atenção do mundo. O tema da superação da violência e, por isso, da segurança tornou-se uma das principais realidades a serem discutidas e tem inspirado diversas formas de políticas públicas. Nesse sentido, como sentido de acolher a proposta da Campanha da Fraternidade deste pude escrever uma carta pastoral específica para nossa arquidiocese: “bem-aventurados os que constroem a Paz” no intuito de incentivar esse trabalho em nossa realidade urbana.

    No texto base da CF 2018 podemos aprofundar os vários itens. O item ver, está dividido em três partes: a violência na convivência humana, a violência e as estruturas sociais e a violência e algumas manifestações na sociedade. A violência e algumas manifestações na sociedade, é uma espécie de raio-x das causas que levam à violência, em todos os níveis. No ponto, a violência e as estruturas sociais, por exemplo, encontramos a relação da violência com a economia e mercado, a acumulação do capital, o fenômeno do consumo, a desigualdade e a violência promovidas pela lógica do mercado e a violação dos direitos fundamentais. No que diz respeito a violência e algumas manifestações na sociedade, estão elencados as drogas, o processo de criminalização institucional (negligência do Estado em relação às políticas sociais e justiça punitiva), os sujeitos violentados, como juventude pobre e negra; povos indígenas, mulheres exploradas sexualmente e as vítimas de tráfico humano, além da intolerância (raça, cor e religião etc).

    O julgar apresenta uma abordagem do tema no Antigo Testamento (AT) e outra no Novo Testamento (NT). Essa divisão é apenas pedagógica, uma vez que o AT possui elementos suficientes para mostrar que, sendo Deus misericordioso, não se coloca ao lado a violência e estabelece caminho para superá-la. E o Novo Testamento culmina com a resposta definitiva de Deus para a superação da violência. No agir, encontramos ações concretas para a violência.

    Quanto alguns dados da violência em nosso país, o Brasil é a oitava maior economia mundial. No entanto, é o décimo país mais desigual do mundo segundo o relatório do desenvolvimento humano, de 2016, da Organizações das Nações Unidas (ONU). A seguir, alguns dados sobre a violência no Brasil, extraídos no Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2018: Mortes por arma de fogo: 60 mil por ano, 123 por dia e 5 pessoas por hora. Violência contra mulher: estima-se que pode ter chegado a 454 mil casos. 45.460 estupros em 2015. Mortes entre jovens: 52 mil mortes por homicídio, 52,63% eram jovens, 71,44% negros e 93,03% do sexo masculino.

    Mas o que podemos fazer para vencer este mal da violência?               Para a Igreja no Brasil, superar as várias faces da violência é uma tarefa de todos. Assim, a Campanha da Fraternidade quer identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas para a superação da desigualdade social e da violência. A superação da violência nasce da relação com outro. A cultura da paz acontece em todas as realidades da vida e na relação com todos os seres. O primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar é na família. Os comportamentos e estímulos de superação da violência exercitados na família balizam as a serem desenvolvidas na comunidade e na sociedade. Vejo que além das ações para superar a violência o primeiro ponto ou ainda o ponto de partida, seja a mudança do coração da pessoa humana, de onde partem todas as ações, e por isso a necessidade da oração e a espiritualidade, pois, sua prática pode transformar comportamentos em atitudes, ou seja, elas são parte do processo de conversão.

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