SOMOS TODOS DEPENDENTES

                Se algo de bom é possível tirar de uma crise que afeta a todos, em especial quando esta nos aponta o tênue fio entre vida e morte, a solidariedade é um desses benefícios. Salta aos olhos esse sentimento humano diante do caos e das dores que nos afligem. A sensibilidade e a religiosidade estão à flor da pele de grande maioria. De repente, o ser humano descobre que nada mais é do que um dependente incondicional das forças que nos regem, em especial aquela que nos deu a vida, o próprio Criador.

                Fonseca, parceiro e irmão nessas reflexões, bem definiu esse assunto: “Se fecharmos a porta para todos os males, o bem ficará fora também”. Isso mesmo, meu caro. Não é hora de tamparmos o Sol dessa realidade com a peneira de argumentos sem sentido. É preciso encarar fatos e respeitar limites, se quisermos prosseguir nessa aventura existencial. Então Fonseca prossegue: “A dualidade desafia nosso discernimento. Precisamos acolher a todos, portadores do bem e portadores de males. Sabe você que vivi e vivo ainda em família o esfriamento de ter sido dependente químico. Hoje chego à conclusão de que todos são. Você é dependente de um elemento químico elementar: o oxigênio. Se você ficar três minutos sem consumir 02 vem a óbito. A pandemia vem ensinar que estamos todos no mesmo “balão de oxigênio”, nossa casa comum! Somos portadores de uma autonomia de apenas três minutos. Por isso retirem suas tristezas e alegrias do caminho que eu quero desfilar com minha poderosa respiração de três minutos”.

                Diante desse quadro, sobra-nos o que vem do alto, do Espírito que habita em nós e consola nossas almas, nosso coração angustiado. É preciso renascer sempre, mesmo diante das tribulações de um momento negro. Nascer de novo. Foi esse o desafio proposto a Nicodemos. “O vento sopra onde quer”, disse-lhe Jesus, acrescentando: “ouve-lhe o ruido, mas não sabes donde vem, nem para onde vai, Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8). O segredo da vida não está no ar que respiramos, mas no sopro divino que renova nosso espírito todos os dias, ou seja: o Espírito Santo que ilumina e aquece nossa alma, que conduz e governa nossas vidas, que consola nosso espírito sedento de luz…

                Esse sim é o alento da vida daqueles que acreditam num mundo novo. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça”. Isso é misericórdia, amor divino, com a ação de seu Espírito em nós. Essa é a vitória da vida sobre e morte, da qual floresce a promessa que abre todas as portas da nossa insegurança, diante dos males de um mundo em guerra constante. “A paz esteja convosco!” é a saudação daquele que venceu a morte e hoje sopra sobre seus discípulos um novo alento de vida e esperança: “Recebei o Espírito Santo”…

                Enfim, Deus pode tudo, bem o sabemos. Morrendo, destruiu a morte, diz trecho da grande oração eucarística… Essa é a chave de que necessitamos para superar nossos momentos de insegurança. Fé. Fé incondicional e irrestrita, mesmo quando o ar que respiramos esteja carregado e nebuloso, e sopre sobre o mundo o cheiro fétido da morte. Olhemos para o Alto. Jesus ressuscitado se põe em nosso meio vencendo paredes físicas, portas e janelas fechadas, mas estar em nosso meio não basta. Temos que abrir as portas de nosso coração, as paredes que nos separam dessa realidade encarnada em nós: Deus dentro de nós! Como Tomé, vamos repetir: “Meu Senhor e meu Deus”! Então, sim, Ele viverá em nós, em nosso coração. Misericórdia, Senhor!

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