Sexta-feira Santa – Celebração da Paixão do Senhor Homilia (Meditação das Sete Palavras em texto corrido)

             Irmãos e irmãs, hoje a Igreja se cala diante do mistério mais profundo da nossa fé. Não celebramos a Eucaristia, mas nos reunimos para contemplar a Paixão do Senhor, conforme nos é proclamada no Evangelho de João (cf. Jo 18,1 – 19,42). A cruz está diante de nós, não como um símbolo de derrota, mas como o lugar onde o amor de Deus se revela até o fim. E, do alto da cruz, Jesus nos fala. Suas palavras são poucas, mas carregadas de um sentido que ilumina toda a nossa existência.

             A primeira leitura, do profeta Isaías, nos apresenta o Servo Sofredor: “Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossas culpas” (Is 53,5). Esta Palavra se cumpre plenamente em Cristo. Ele não sofre por acaso, mas por nós. Sua cruz não é apenas dor, é redenção.

             E é nesse contexto que escutamos suas palavras. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Mesmo sendo injustiçado, Jesus não acusa, não condena, mas perdoa. Aqui está o primeiro ensinamento da cruz: o amor que salva é o amor que perdoa. Não há caminho cristão sem esta exigência concreta.

             Ao seu lado, um dos malfeitores reconhece sua culpa e suplica: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (Lc 23,42). E Jesus responde: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Até o último instante, a misericórdia está aberta. Nenhuma vida está perdida quando se abre sinceramente a Deus.

             Junto à cruz estão sua Mãe e o discípulo amado. E Jesus lhes diz: “Mulher, eis o teu filho… Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27). Mesmo na dor extrema, Ele não se fecha em si mesmo, mas cria comunhão. A cruz não isola, ela reúne. Ali nasce a Igreja, comunidade dos que permanecem com Cristo.

             Em seguida, ouvimos o grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46; cf. Sl 21[22],2). Jesus assume até o fim a experiência humana do sofrimento. Ele entra na noite da dor, mas transforma esse grito em oração. Mesmo no abandono, Ele continua se dirigindo ao Pai.

             Depois, Jesus diz: “Tenho sede” (Jo 19,28). Sede física, certamente, mas também sede de amor, sede de humanidade, sede de resposta. Aquele que ofereceu água viva (cf. Jo 4,10) agora se apresenta necessitado. Deus tem sede de nós.

             Então, Ele proclama: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Não é o fim de um derrotado, mas a conclusão de uma missão. Tudo foi levado até o extremo. Nada ficou pela metade. O amor foi pleno.

             E, por fim, Jesus diz: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Depois de tudo, permanece a confiança. A cruz termina como começou: na entrega ao Pai. É a obediência total, a confiança absoluta.

             A segunda leitura, da Carta aos Hebreus, nos recorda: “Aprendeu a obediência por aquilo que sofreu e, levado à perfeição, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,8-9). Cristo não apenas sofreu — Ele transformou o sofrimento em caminho de salvação.

             Irmãos e irmãs, a cruz nos coloca diante de uma decisão. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou acolhemos esse amor e deixamos que ele transforme a nossa vida, ou permanecemos indiferentes.

             Hoje, não há muitas palavras. Há silêncio, há contemplação. A cruz está diante de nós como um espelho: revela o amor de Deus e revela também a nossa resposta.

             Que, ao venerarmos a cruz neste dia santo, não façamos apenas um gesto exterior, mas um ato interior: acolher o amor de Cristo e decidir viver segundo esse amor — perdoando, confiando, servindo e nos entregando.

             Porque a cruz não é o fim. Ela é o caminho que conduz à vida nova.

             Amém.

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