A manhã desta Sexta-feira Santa nos envolve em um profundo e reverente silêncio. Entramos em nossas igrejas despojadas; os altares estão completamente desnudados, sem toalhas, sem flores, sem o brilho das velas. Os sinos emudeceram. É o dia em que a Mãe Igreja se senta aos pés do madeiro para contemplar, atônita e silenciosa, o mistério insondável do amor de Deus, que entregou o Seu próprio Filho Unigênito pela nossa salvação. Nesta manhã de profundo recolhimento, a sabedoria secular da nossa piedade cristã nos convida a meditar sobre o testamento espiritual definitivo de Jesus: as suas Sete Últimas Palavras proferidas do alto da cruz. São pequenos fragmentos de voz, verdadeiros testamentos de amor, que rasgam a escuridão espessa do Calvário e iluminam o nosso caminhar até o fim dos tempos.
A primeira palavra de Jesus é uma prece de insondável misericórdia por seus próprios algozes. O evangelista São Lucas registra o momento em que, enquanto os cravos rasgavam a sua carne sagrada, Jesus ergue os olhos ao céu e diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). O Mestre não profere maldições, não roga pragas, mas inaugura de forma radical a nova lei do perdão. Essa palavra nos interpela fortemente hoje. Em nossa sociedade contemporânea, marcada pela exclusão, quantas vezes nós crucificamos o Cristo novamente na pessoa dos nossos irmãos mais pobres? Quando a nossa cegueira e indiferença coletiva permitem que famílias inteiras habitem em condições desumanas, nós participamos, ainda que por omissão, dessa crucifixão. O perdão que Jesus suplica ao Pai deve nos constranger a uma sincera conversão, para que não sejamos nós a perpetuar a violência da desigualdade social.
A segunda palavra é dirigida a um condenado ao seu lado. O chamado “bom ladrão”, iluminado pela graça derradeira, reconhece a inocência de Jesus e suplica-lhe uma simples lembrança. O Mestre responde com a mais bela promessa já ouvida pela humanidade: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). O Paraíso é a nossa morada definitiva, a casa paterna de onde o pecado nos havia expulsado e que Jesus agora reabre. É providencial meditarmos sobre isso neste ano em que a nossa Igreja, por meio da Campanha da Fraternidade de 2026, volta o seu coração para o tema “Fraternidade e Moradia”, iluminada pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A promessa irrefutável da moradia celestial não nos isenta da luta por moradia digna aqui na terra. Pelo contrário: quem tem os olhos fixos e a esperança firmada no Paraíso não pode suportar ver o seu irmão desprovido do direito fundamental a um teto seguro neste mundo.
A terceira palavra funda a nossa grande família espiritual, a Igreja. Olhando para a Virgem Maria e para o apóstolo São João, de pé junto à cruz, Jesus diz: “Mulher, eis aí o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). O evangelista faz questão de acrescentar que, a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa. No ápice da sua dor, Jesus não quer que Sua Mãe fique desamparada nas ruas, sem um teto, sem uma família que a sustente. Ele providencia um lar para ela. Como herdeiros de São João, nós somos convocados a ser esta casa que acolhe. Acolher Maria em nossa casa significa também acolher os preferidos do seu Filho. Quando uma sociedade falha em garantir habitação e proteção para as suas mães e os seus filhos, ela falha no mandato sagrado do Calvário.
A quarta palavra é um grito que rasga os céus escurecidos do meio-dia. O Evangelho de São Mateus narra esse instante aterrador: “Por volta da hora nona, Jesus deu um forte grito: Eli, Eli, lamá sabactâni?, isto é, Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). O Verbo Encarnado assume o Salmo 22, mergulhando na mais total desolação e solidão humanas. Esse grito desesperado de abandono continua a ecoar de forma ensurdecedora nas grandes cidades do nosso país. É o grito silencioso e angustiado das populações invisíveis, daqueles que não têm onde morar, dos que sobrevivem nas áreas de risco, sentindo na própria pele o abandono do poder público e da sociedade. Ouvir este grito de Jesus na cruz exige que abramos os nossos ouvidos e o nosso coração para o clamor por habitação e justiça social em nossa cidade.
A quinta palavra revela o profundo esgotamento físico, mas também o ardente desejo espiritual do Redentor. O evangelista João relata: “Para que a Escritura se cumprisse até o fim, Jesus disse: ‘Tenho sede'” (Jo 19,28). Trata-se da sede literal de um homem torturado, sangrando e desidratado, mas é infinitamente mais do que isso: é a sede pela salvação das almas, a sede de ver a vontade do Pai realizada, a sede de justiça. No Brasil de hoje, a sede de Cristo se manifesta de forma gritante nas estatísticas que nos entristecem e que embasam nossa reflexão quaresmal: milhões de brasileiros habitam em moradias tão precárias que sequer possuem acesso à água potável e ao saneamento básico. A moradia digna exige infraestrutura vital. Dar de beber a Jesus hoje é lutar concretamente para que a água limpa e as condições de saúde cheguem aos lares mais afastados e esquecidos.
A sexta palavra é o majestoso selo de uma missão cumprida de forma perfeita. Tendo provado o vinagre, Jesus diz, em um brado de consumação: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Não pensem que este é o suspiro de um homem derrotado e esmagado pelo fracasso. Ao contrário, é o grito de vitória do Cordeiro que realizou perfeitamente a vontade Daquele que O enviou. A obra da redenção está feita. A ponte entre o céu e a terra foi reconstruída com o seu próprio corpo. O Filho de Deus, que se esvaziou de sua glória e veio morar entre nós, foi até as últimas consequências do amor. Contudo, a aplicação dessa obra de amor na história exige a nossa firme participação. O nosso compromisso com o Evangelho da vida e com a promoção da moradia digna é a nossa forma irrenunciável de darmos continuidade, na sociedade, ao amor que Ele consumou de forma absoluta no madeiro.
A sétima e última palavra é a confiança extrema, o mergulho definitivo no amor do Pai. São Lucas nos comove com este suspiro final: “Jesus deu um forte grito e disse: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Dizendo isso, expirou” (Lc 23,46). A kenosis, o esvaziamento do qual nos instrui o Apóstolo Paulo, atinge aqui o seu limite máximo. Cristo entrega tudo, não retém absolutamente nada para Si; nem mesmo a própria vida. É exatamente neste abandono submisso e confiante nas mãos do Pai que brota a nossa salvação. Quando a Igreja nos convoca a partilhar os nossos bens, a não reter o nosso egoísmo, a estender as mãos aos sem-teto e a lutar por uma sociedade mais igualitária, ela nos chama a imitar essa atitude de total despojamento e doação que vemos em Jesus.
As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz não são uma lembrança poética do passado. Elas são o vigoroso programa de vida da Santa Igreja Católica. Neste dia de silêncio, luto e rigoroso jejum, permitamos que estas sete flechas de amor penetrem no mais íntimo dos nossos corações. Se, de fato, o Verbo veio morar entre nós, que o nosso próprio coração e as nossas atitudes sejam a sua morada viva e atuante. Purificados por este sangue que escorre da cruz, sejamos construtores de justiça, para que cada família brasileira encontre o seu espaço, a sua casa e a sua dignidade.
Permaneçamos em oração silenciosa e recolhimento durante esta manhã. Preparemo-nos espiritualmente para a solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, que celebraremos logo mais, às três horas da tarde, adorando com lágrimas e gratidão o sagrado madeiro do qual pendeu a Salvação do mundo.



