Santidade e morte

Luís Henrique Piovezan

A veneração aos santos é uma tradição antiga da Igreja. Os fiéis do começo da Igreja veneravam algumas pessoas falecidas que, por seu exemplo de vida, serviam como inspiração para boas ações. Daí serem consideradas santas aquelas pessoas que, durante sua vida, imitaram Cristo em suas atitudes (cf. 1Cor 1,11), seja numa conversão, seja num martírio, seja numa vida dedicada aos outros. Mais do que mediadores, os santos foram sempre exemplos de esperança aplicada na vida humana.

Assim, mais do que fazer pedidos esperando uma troca com Deus mediada pelo santo, ser devoto é conhecer a vida do santo e imitar seus exemplos, esperando nos aproximar de Deus e do próximo como o santo se aproximou. Não é fazer uma cópia similar da vida do santo, mas se inspirar em seus exemplos para produzir frutos. Por exemplo, se inspirar no “Sim” de Maria, vivendo a entrega a Deus e aos irmãos.

Soa estranho, porém, que uma celebração exaltando a vida eterna dos santos, daqueles que viveram o Reino de Deus na terra, esteja na véspera de uma celebração que recorda a morte e a perda de pessoas queridas. Parece que caímos da alegria da santidade para a triste recordação e desesperança pela certeza inexorável da morte. A exemplo da Páscoa e do Natal, não deveriam ser as datas invertidas? Não deveríamos recordar a morte para depois celebrarmos a santidade?

Não. A Liturgia é sábia neste calendário. Finados não é um dia de desesperança, de chorar pelos mortos. Pelo contrário, é dia de celebrar e pedir a Misericórdia de Deus para todos os falecidos. Pedir a Deus que tenha mais em conta as boas obras do que os deslizes dos falecidos (cf. Mt 25,31-46). É rezar para que Deus os considere santos também.

Essa forma de solenizar indica que a celebração de Finados não é uma promoção da tristeza, do sofrimento e da saudade, mas a celebração da Misericórdia de Deus no fim dos tempos. Como escreveu São João Paulo II, “na realização escatológica, a misericórdia revelar-se-á como amor, enquanto que no tempo presente, na história humana, que é conjuntamente história de pecado e de morte, o amor deve revelar-se sobretudo como misericórdia e ser realizado também como tal” ( Dives in Misericordia, 8).

Há muitas formas de santidade e inúmeros santos (cf. Ap 7,9). Há vidas santificadas que ficaram ocultas na história, mas não ocultas a Deus. Daí celebrarmos “Todos os Santos”, pois temos a esperança de que Deus já recompensou muita gente. E celebramos Finados com a certeza de que os mortos, pela Graça, atingirão a misericórdia divina. Assim, são festas de esperança e têm todo o motivo de estarem interligadas. Em outras palavras, são duas festas que nos mostram que todos podem ser santos. A santidade não é algo inacessível ou extraordinário, que ocorre por atos admiráveis. A santidade não é apenas dos consagrados, mas também é acessível ao leigo. Daí, tenha saudade de seus familiares: é natural. Mas junte a essa saudade a esperança da vida futura.

Luís Henrique Piovezan é estudante de Teologia pelo Centro Universitário Claretiano, engenheiro civil, e Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão na Paróquia de Santa Joana d’Arc

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