Pandemia feriu nossa ilusão de onipotência

Achávamos que crises generalizadas eram coisa do passado

Quem, como eu, nasceu a partir da segunda metade do século XX, cresceu sob ilusão de que de que o pior na história da humanidade já tinha ficado para trás. Pragas, pestes, guerras, escravidão, colapsos do sistema social… Tudo isso parecia coisa do passado, especialmente no mundo ocidental. 

Com a evolução das ciências humanas, biológicas e exatas que nos precedeu, com a evolução da civilização, com hábitos de higiene e normas de saneamento básico, tínhamos a ilusão de que a humanidade já tinha encontrado seu caminho, que estávamos na trilha da luz, e que, embora ainda atravessássemos crises pontuais e ajustes obviamente ainda se fizessem necessários, tudo tendia a melhorar sempre.

Até que, em 2020, mais de 50 anos depois de o homem ter chegado à Lua; quando é possível fazer contato em tempo real por áudio e vídeo com qualquer pessoa do planeta, quando existem telefones equipados com dispositivos de identificação facial, edifícios com amortecimento para terremotos e até carros autônomos capazes de atravessar continentes através de comandos por satélite, surge uma crise sanitária global que nos mostra como não somos tão avançados quanto imaginávamos.  

Uma pandemia que jogou por terra nosso equivocado senso de onipotência, que foi capaz de revelar o quão frágeis somos, que nos fez lembrar que não existimos sem respirar, que nos mostrou o quanto somos dependentes dos outros e dos recursos naturais para sobreviver e que atestou, de maneira incisiva, o quanto somos humanos. 

Correção de rumo

A pandemia expôs, de maneira brutal, as principais falhas da nossa sociedade. Revelou toda a desigualdade social, o descaso com nossos sistemas de saúde, a falta de preocupação com o meio-ambiente, a falta de informação e o descompasso na nossa comunicação. Além disso, ainda se tornou estopim para o ódio e para disputas de poder. 

Mas não nos desesperemos. Essa, a pandemia, me parece uma daquelas muitas provações pelas quais as civilizações passaram, e superaram, ao longo da história. Eclesiastes, capítulo 7, versículo 10: “Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta”.

De nada adianta idealizarmos o passado e nos remoermos pelo presente. Mesmo em um momento difícil como o atual, me parece mais sábio refletir sobre onde estamos, enquanto espécie humana, e como aqui viemos parar. 

A maior parte das crises que atravessamos até hoje, de alguma forma, foram fundamentais para que delas surgisse algo melhor, para que o ser humano respondesse por meio da ação de modo que aquilo não se repetisse ou para que pelo menos estivéssemos prontos para lidar com tais acometimentos de maneira a minimizar seus estragos.

Quem sabe deste momento não surja uma oportunidade para corrigirmos os erros do passado?

Por isso é importante que encaremos a situação com humildade. Pois ela nos mostra, de maneira incontestável, que ainda temos muito o que aprender.

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