A liturgia do 17° Domingo do Tempo Comum continua a nos interpelar sobre a adesão ao Reino dos Céus. Deus tem um projeto de amor para nós e quer-nos como filhos amados habitando o seu Reino. Jesus apresenta-nos o rosto de Deus, que é misericórdia, convidando-nos a manter o espírito de oração e ação a fim de que hoje, uma vez compreendidos os mistérios da fé, participemos do seu Reino — que também é nosso. Nesse sentido, quando a sociedade se sufoca com o egoísmo de tantas coisas transformadas em “valores”, cada cristão deve apresentar o único e verdadeiro tesouro que, como canta o salmo, “vale mais do que milhões em ouro e prata” (Sl 118,72).
A leitura do livro dos Reis – 1Rs 3,5.7-12 – relembra uma personagem importante para a história do Povo de Deus: o rei Salomão. Seu reinado foi considerado de grande esplendor em obras humanas e divinas, uma vez que soube bem administrar Judá. Sua marca, admirada até mesmo por governantes de outras nações, foi a sabedoria, que na leitura de hoje é afirmada como dom de Deus. O herdeiro de Davi pede a Deus que lhe conceda sabedoria para governar e instruir o seu povo, e o texto afirma que “essa oração de Salomão agradou ao Senhor” (1Rs 3,10). Com esse exemplo, refletimos hoje: nós também sabemos o que pedir? O Catecismo define que “a oração é a elevação da mente e do coração a Deus, ou o pedido de bens a Deus”; sendo assim, reflitamos sobre quais bens temos pedido.
No domingo passado, São Paulo nos recordava que o Espírito vem em nosso auxílio, pois “não sabemos o que pedir nem como pedir” (Rm 8,26). Portanto, somente uma oração motivada pela graça é capaz de acertar. Tantas vezes colocamos valor onde não há; queremos que o Senhor resolva tal situação e ajeite os caminhos do modo como queremos; todavia, esquecemo-nos de que nossos desejos são imperfeitos. De fato, o coração sábio e inteligente sabe que a melhor parte está na vontade de Deus — por isso digamos hoje, com fé: “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Nas Escrituras, o coração humano é o centro vital da pessoa. Em outro momento, Nosso Senhor dissera: “onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6,21), alertando-nos para as prioridades e valores de nossas vidas. Hoje, Ele nos recorda que o Reino é o verdadeiro tesouro que precisamos buscar.
Com esta liturgia, encerramos o ciclo de leituras das parábolas sobre o Reino – Mt 13,44-52 –, meditando a partir das comparações do tesouro escondido, da pérola preciosa e da rede de peixes. Nas duas primeiras, o sentido é o mesmo: o que realmente importa é estar em comunhão com o projeto de Deus. Diante de tantos bens, aquele que contempla o Reino é capaz de, sabiamente, discernir e optar por ele; por isso, “vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”. Nada mais tem valor senão aderir ao caminho de Jesus. Para entrar nessa dinâmica, é preciso dar tudo do que tenho e sou, sem reservas, sem segundas opções. Por vezes, somos tentados a adaptar o seguimento cristão para não termos de abandonar certos costumes, manias e predileções pessoais. São as nossas quinquilharias, que precisam ser deixadas para trás — e isso só será possível com a força do Espírito. Nesses momentos, é importante rezar sabiamente, pedindo as luzes do Espírito Santo para que nos mantenhamos firmes na verdade.
A terceira e última parábola retoma o sentido daquela do domingo passado. Os peixes bons e ruins são recolhidos pela rede e, no momento certo, separados. Aqui identificamos uma característica do Evangelho de Mateus, que escrevia para comunidades cristãs desanimadas diante da perseguição do império. O evangelista quer lembrar que, com paciência e mansidão, precisamos continuar fiéis a Jesus, pois Ele é o Senhor do tempo e da história, e sabe a hora necessária para a colheita. Enquanto não chega tal momento escatológico, a Palavra e a Eucaristia são o alimento espiritual para que, compreendendo as verdades da fé, saibamos discernir. Por isso, Jesus termina dialogando com os apóstolos ao reafirmar a importância da compreensão: quem se deixa iluminar por sua Palavra será capaz de tirar coisas novas e velhas do seu tesouro.
Por fim, a segunda leitura – Rm 8,28-30 – nos dá a perfeita síntese e a firme esperança para essa caminhada. São Paulo nos consola ao afirmar que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28-30). Em suma, a sabedoria de Salomão e a decisão radical pelo tesouro do Reino encontram seu fundamento no desígnio eterno do Pai, que nos conheceu, predestinou, chamou, justificou e glorificou para sermos conformes à imagem de seu Filho. Portanto, não caminhamos na incerteza: o mesmo Deus que nos concede a graça de discernir a pérola preciosa é Aquele que conduz a nossa história para a santidade. Que o Espírito Santo nos conceda um coração sábio para escolher sempre a Vontade de Deus, sabendo que Nele o nosso futuro e a nossa salvação já estão guardados.


