Luz e Trevas

    Após termos celebrado as cinco semanas da Quaresma e, no último domingo, iniciado a Semana Santa com a celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, começamos, a semana maior para os cristãos católicos, na qual somos chamados a participar das celebrações também das tradições populares todos os dias.

    Só existe uma Semana Santa ao longo de todo o ano; por isso, devemos fazer o esforço de participar de todas as celebrações. Ao longo do ano, não conseguimos participar das missas todos os dias da semana; quem sabe, então, possamos fazer esse esforço nesta semana. O tempo da Quaresma é um tempo forte, em que devemos intensificar a oração, o jejum e a caridade. Por isso, como forma de intensificar a nossa oração, participemos das celebrações todos os dias desta semana.

    O tempo da Quaresma ainda é marcado pela penitência, pela mudança de vida e pela conversão. Por isso, ao longo desta semana, algumas paróquias ainda oferecem celebrações penitenciais e atendimento de confissões. Busquemos a nossa conversão pessoal e a reconciliação com Deus, para podermos celebrar de coração puro a Páscoa do Senhor. É importante que as igrejas permaneçam abertas ao longo desta semana, possibilitando aos fiéis a confissão e a participação nas celebrações da Semana Santa.

    Ao longo desta Semana Santa, acompanhamos Jesus entrando em Jerusalém e sendo aclamado como rei (Domingo de Ramos). Contemplamos Jesus angustiado, enquanto as trevas parecem tomar conta do mundo, pois a luz está sendo retirada de nós (Ofício de Trevas e Sermão do Depósito). Contemplamos o encontro de Jesus (Senhor dos Passos) com sua Mãe (Nossa Senhora das Dores), no caminho ao Calvário. Meditamos as dores de uma Mãe ao ver o seu Filho ser entregue à morte, como uma ovelha levada ao matadouro (meditação das dores de Nossa Senhora). A partir da Quinta-feira Santa tem início o Tríduo Pascal, uma única celebração que começa na Quinta-feira Santa como sinal da cruz e termina somente no Sábado Santo, na Vigília Pascal com a bênção final. Vivemos o mistério pascal celebrando a Ceia do Senhor, a Morte na Cruz e sua Ressurreição que começa a grade comemoração no domingo quando celebramos a grande festa da Páscoa da Ressurreição.

    Se participarmos bem de toda a Semana Santa, desde o Domingo de Ramos até o Domingo de Páscoa, chegaremos renovados à Páscoa do Senhor. Podemos ainda, ao longo desta semana, intensificar o nosso jejum e a nossa abstinência, conformando a nossa vida com a entrega de Jesus na cruz por nós. Iniciamos a Semana Santa com o mundo envolto em trevas, pois o grande “Rei” está sendo entregue à morte; a “luz” está sendo retirada do mundo. E terminamos novamente iluminados por essa “luz”, por meio da Ressurreição de Nosso Senhor.

    Meditamos o momento em que Nosso Senhor foi preso e a oração que Jesus proferiu no momento de sua agonia no Horto das Oliveiras, que, inclusive, meditamos nos mistérios do Rosário. Jesus faz essa oração quando se sente sozinho: todos os discípulos o abandonam, e Ele permanece só. Eles fogem por medo, pensando que poderia acontecer o mesmo com eles. A partir desse momento, Jesus tem consciência de que chegou a sua hora, e os soldados o prendem.

    Essa celebração é muito rica em detalhes; ela nos introduz no mistério que é celebrado na Semana Santa. É preciso resgatar essas celebrações que fazem parte da fé popular do povo; devemos manter essas tradições e transmitir esse legado às futuras gerações. Ao longo desta semana, intensifiquemos também a nossa oração pela paz. Unamo-nos aos irmãos e irmãs da Terra Santa que estão impedidos de celebrar o grande momento do ano devido à guerra local.

    Celebramos o Ofício de Trevas, o Sermão do Depósito, recordando que, quando Jesus foi crucificado e morreu, uma escuridão tomou conta de toda a terra. O Filho da “luz” é entregue ao filho das “trevas”; nesse momento, parece que o mal está vencendo. Mas, no Sábado Santo, a luz ressurgirá, e o “bem” vence o “mal”. Nesta noite, podemos fazer uma reflexão e perceber quantas vezes preferimos o caminho das trevas em vez do caminho da luz. Todas as vezes que nos afastamos de Deus e optamos pelo pecado, caminhamos nas trevas. Por isso, ao longo da Quaresma, somos chamados a realizar a nossa confissão sacramental, para que possamos ser alcançados e iluminados pela luz de Cristo e, assim, iluminar também aqueles que se aproximam de nós.

    Durante a noite, é mais propício que as trevas tomem conta do mundo, conforme rezamos na oração das Completas (Liturgia das Horas): “Agora que o clarão da luz se apaga”, e ainda pedimos: “da noite a pavorosa escuridão, com vossa claridade iluminai”. Ou seja, durante a noite, pode ser mais fácil cair no pecado, mas devemos pedir que a luz de Cristo nos ilumine, para que o mal não nos acometa. Por isso, é importante rezarmos antes de dormir, pedindo a proteção divina. A luz de Deus deve permanecer sempre acesa em nossos corações.

    No Domingo de Ramos, aclamamos Jesus como Rei, acenando os nossos ramos, como fez o povo de Israel. Mas, diferentemente daquele povo, não gritaremos para crucificá-lo; ao contrário, meditaremos a sua entrega por nós, pois Ele morreu para nos salvar, e o aclamaremos no dia da Ressurreição, pedindo que seja a nossa luz e guie os nossos passos.

    Nesta noite, ao mesmo tempo em que celebramos a entrega de Jesus e contemplamos as trevas que parecem se apoderar do mundo, devemos rezar para que, ao final, a luz vença as trevas. Por isso, ao término dessa celebração, volta ao centro do altar uma vela acesa, após todas as outras terem sido apagadas, pois a luz de Cristo não pode ser extinguida: ela vence as trevas. Recordamos ainda que a luz de Cristo permanece viva no meio de nós por meio da ação do Espírito Santo. Há também uma luz na Igreja que nunca se apaga, sinal de que Cristo está vivo e continua iluminando o mundo: a luz do sacrário. Que, da luz do sacrário de nossas igrejas, Cristo ilumine o mundo inteiro.

    Jesus não tinha motivo para ser condenado à morte; foi condenado injustamente. Recordemos, nesta noite, tantas pessoas que são condenadas ou presas injustamente. Recordemos também as guerras que vivemos atualmente internacionais, nacionais e locais e quantos inocentes já perderam a vida. Pensemos nas “guerras civis” que enfrentamos em nossas cidades, por meio da violência urbana.

    O Papa tem insistido muito para que rezemos pela paz e para que cesse a morte de inocentes; que, em vez das armas, as autoridades busquem resolver seus conflitos pelo diálogo. A guerra é ruim para todos e fere a humanidade inteira.

    Rezando nessas intenções, peçamos que a luz de Cristo permaneça acesa neste mundo tão conturbado e que, apesar das dificuldades e perseguições, perseveremos até o fim no anúncio do Evangelho. Que a luz de Cristo Ressuscitado ilumine o mundo com a sua vitória.

    Celebremos com fé e piedade esta Semana Santa, procurando participar, na medida do possível, de todas as celebrações. Por meio delas, podemos acompanhar os últimos passos de Jesus até a morte de cruz e sua gloriosa Ressurreição. Aproveitemos ainda esta semana maior para realizar a confissão sacramental, caso ainda não tenhamos tido oportunidade.

    Que o Senhor nos ajude e o Espírito Santo nos ilumine.

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