Evite alimentos e bebidas ultraprocessados

Ana Lydia Sawaya

A obesidade tornou-se um problema de saúde pública no mundo a partir de 1980 e mais recentemente no Brasil. É uma doença que primeiro acomete os adultos e agora, também, as crianças e adolescentes. O excesso de peso traz junto consigo o diabetes, o câncer e doenças cardiovasculares. Cada vez mais, encontramos crianças que têm excesso de peso com um quadro metabólico pré-diabético. Isso nunca tinha acontecido antes. Mas não só isso: muitos pais não sabem que seus filhos estão com excesso de peso.

O que aconteceu em 1980 para que a obesidade aumentasse enormemente no mundo e agora no Brasil? Dois hábitos de vida foram introduzidos no dia a dia: andar e se movimentar muito pouco e o consumo de alimentos e bebidas “ultraprocessados”. O que é isso? São alimentos e bebidas inventados e fabricados pelas indústrias de forma crescente a partir dessa data nos Estados Unidos, e que depois se espalharam pelo mundo e se tornaram de consumo diário ou muito frequente. São formulações feitas em laboratório por essas indústrias que contêm muitos ingredientes, além de uma quantidade muito alta de sal, açúcar, óleos vegetais e gorduras, e que incluem substâncias que nunca foram usadas antes em alimentos normais preparados em casa, como as que intensificam muito o sabor, dão cor artificial, adoçam, são emulsificantes, dando uma consistência agradável ao produto, e outros aditivos usados para imitar as qualidades sensoriais dos alimentos naturais (aparência, sabor, cor e consistência). Muitas vezes, os aditivos industriais são usados para encobrir sabores menos agradáveis do produto que foi inventado e fabricado pela indústria. Esses produtos são muito saborosos, mas geram menos saciedade, de forma que as pessoas ficam com fome mais rápido.

Quais produtos alimentares e bebidas são ultraprocessados? A lista é grande e vai desde todos os tipos de refrigerante (com ou sem açúcar ou adoçantes), sucos e chás de caixinha prontos para beber, bebidas em pó para diluir em água, biscoitos, bolachas, chocolates, rosquinhas, balas, macarrão instantâneo ou pronto para consumo, salsichas, linguiças, carnes industrializadas, como hambúrgueres, iogurtes desnatados, cremosos e adoçados, barras de cereais etc. O consumo desses produtos aumentou 22% no Brasil na última década. Nas famílias onde existem pessoas com sintomas de obesidade, esse consumo é 35% superior ao das demais.

Os produtos ultraprocessados são os mais lucrativos para as indústrias, pois têm, na maioria das vezes, componentes muito baratos na sua composição. São também os produtos que mais estão presentes nas propagandas de televisão, em outdoors e na mídia, exatamente pelo seu alto retorno financeiro. São tão lucrativos e geram tanto retorno financeiro que as indústrias que os produzem cresceram muito no mundo e hoje têm uma enorme força de barganha junto ao governo brasileiro, de forma que até agora as propagandas desses produtos não foram regulamentadas. O Chile, por exemplo, fez uma lei que desde novembro de 2017 proíbe a propaganda desses produtos na televisão das 6h às 22h; e desde 2016 obrigou a indústria a alterar as embalagens dos produtos, retirando personagens icônicos, como o tigre que ilustrava a caixa de cerais matinais açucarados.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenta, sem sucesso, há mais de uma década, regular a publicidade desses produtos para crianças e adolescentes, assim como proibir sua comercialização em escolas. Infelizmente, muitos desses produtos fazem ainda parte da merenda escolar. O Brasil têm hoje 15% das crianças e 58% dos adultos com excesso de peso. A pressão junto à Anvisa e as ações judiciais interpostas pelo setor publicitário e de alimentos têm coibido uma legislação mais rigorosa no País. Por isso, o conhecimento por parte da população dos problemas que esses alimentos e bebidas causam para a saúde é fundamental para que seu consumo diminua para o benefício de todos.

 

Fonte: Jornal o São Paulo

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