Ao iniciarmos um novo ciclo litúrgico, somos convidados a recordar que a vida da Igreja se organiza também através do tempo. Cada etapa do ano litúrgico é cuidadosamente estruturada para nos conduzir, domingo após domingo, ao encontro com Cristo e com o mistério de sua vida, morte e ressurreição. É nesse contexto que compreendemos a divisão dominical dos anos litúrgicos em A, B e C, cada qual dedicado, de modo especial, a um evangelista sinótico: Mateus, Marcos ou Lucas.
O novo ano litúrgico inicia sempre nas primeiras vésperas do primeiro domingo do Advento e se encerra na semana da Solenidade de Cristo Rei, última semana do Tempo Comum. No Ano A, meditamos sobretudo o Evangelho segundo Mateus; no Ano B, o Evangelho segundo Marcos; e no Ano C, o Evangelho segundo Lucas. O Evangelho de João aparece no tempo pascal e também nas grandes festas e solenidades. Essa organização permite que os fiéis conheçam a particularidade com que cada evangelista apresenta Jesus: semelhantes em muitos aspectos, porém não idênticos.
A Igreja adota esse sistema justamente para que, no decorrer de 3 anos tenhamos escutado toda a Sagrada Escritura aos domingos na missa. Assim como a vida, o ano litúrgico é cíclico: ao longo dos tempos litúrgicos contemplamos todos os mistérios da vida pública de Cristo. Nas celebrações durante a semana (feriais), as primeiras leituras seguem outro ciclo, dividido em anos pares e ímpares. Dessa maneira, quem participa da missa diariamente, ao longo de cerca de dois anos, percorre praticamente toda a Sagrada Escritura.
A cada ano, as celebrações trazem nuances diferentes. Algumas datas mudam, especialmente festas e solenidades, o que também anima a vida espiritual dos fiéis. As leituras dominicais variam conforme o evangelista sinótico correspondente, evitando qualquer repetição mecânica. Assim, ao participar das missas — diariamente ou apenas aos domingos —, sempre ouviremos algo novo, capaz de tocar o coração. A Palavra de Deus, iluminada pelo Espírito Santo, desperta em nós amor pelas Escrituras e pela Eucaristia.
O ano litúrgico começa com o Tempo do Advento, seguido pelo Tempo do Natal, que vai até a Festa do Batismo do Senhor. Em seguida, inicia-se a primeira parte do Tempo Comum, que prossegue até a terça-feira de Carnaval. A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e vai até o tríduo pascal. A partir da Páscoa inicia-se o Tempo Pascal, que culmina em Pentecostes. Depois, retoma-se o Tempo Comum. Além disso, ao longo de todo o ano, diversas festas e solenidades marcam a caminhada de fé da comunidade.
O Evangelho de Mateus pode ter sido escrito por volta dos anos 60 d.C. e está profundamente ligado ao judaísmo do primeiro século, destinado especialmente aos recém-convertidos — os chamados judeu-cristãos. Todos os evangelhos começaram a ser redigidos após a paixão, morte e ressurreição de Jesus, tendo esse mistério como motivação central. Embora Mateus seja reconhecido como autor, o texto nasce também da reflexão comunitária. Seu objetivo era evangelizar, explicar quem foi Jesus e transmitir o que Ele deixou para a humanidade.
A intenção principal de Mateus é apresentar Jesus como o “Filho de Deus”, enviado para tirar os pecados do mundo. Também busca convencer os judeus de que Jesus é o Messias esperado. Alguns se converteram e acolheram essa pregação; outros resistiram, e Mateus precisou dialogar com ambos.
O Evangelho de Mateus é o único que menciona explicitamente a palavra “Igreja”. Contém episódios singulares, como relatos da infância de Jesus, e apresenta a versão mais completa das bem-aventuranças (Mt 5). Para Mateus, “bem-aventurado” é aquele que faz a vontade de Deus. Por meio da multiplicação dos pães, ele ensina a importância da partilha, remetendo diretamente à vida eucarística da comunidade: quem partilha o pão espiritual deve também partilhar o pão material com os que necessitam.
Escrito originalmente em grego e posteriormente traduzido para o latim, o Evangelho de Mateus apresenta cinco grandes discursos, que se destacam na leitura:
- O Sermão da Montanha (capítulos 5–7).
- As instruções missionárias aos Doze (capítulo 10).
- O discurso das parábolas (capítulo 13).
- As orientações para a vida comunitária (capítulo 18).
- O Sermão escatológico no Monte das Oliveiras (capítulos 24–25).
Meditar esses discursos — em casa, na igreja ou em grupos de oração — ajuda-nos a compreender como Mateus apresenta Jesus como o Filho de Deus e como descreve as bases da Igreja nascente. São textos que revelam o modo de viver como comunidade de amor, à imagem da Santíssima Trindade.
A comunidade cristã, ao ler Mateus, é convidada a olhar para si mesma, reconhecer a presença de Cristo no meio dela e, por isso, praticar a justiça, a caridade e o amor fraterno. É Jesus quem nos envia em missão, e para sermos verdadeiros discípulos, é indispensável amar o próximo.
Ao longo deste ano litúrgico, empenhemo-nos em meditar o Evangelho de Mateus e colocar em prática seus ensinamentos. Amemo-nos uns aos outros, partilhemos entre nós o alimento material e espiritual e sejamos, de fato, testemunhas de Cristo nos dias de hoje.




