Em espírito e em verdade

    Quem já não recebeu uma carta dessas que dizem que, fazendo isto ou aquilo, algo de bom acontecerá, um milagre para sermos precisos, e lhe trará felicidade? Ou talvez se trate desses pregadores anunciando que fazendo isto ou aquilo conseguiremos a salvação de uma maneira absolutamente segura.

    As devoções correm e continuam correndo pelas comunidades cristãs: é necessário fazer as nove primeiras sextas-feiras do mês ao Coração de Jesus ou a novena a determinado santo; rezar o rosário todos os dias, ou peregrinar a um determinado santuário, ou orações diversas e novenas… Sempre parece que há uma condição, mais ou menos difícil de ser cumprida e se nos apresenta uma espécie de prova, necessária para conseguirmos a salvação e irmos para o céu.

    A samaritana, igualmente, andava com esses problemas. Entre samaritanos e judeus havia uma disputa. Alguns diziam que o culto a Javé apenas poderia ser celebrado no Monte Garizim e outros afirmavam que somente em Jerusalém. Uns diziam que era necessário seguir certas normas, outros indicavam normas diferentes. Conclusão: eles não se falavam. De repente, surge Jesus, um judeu, e pede água à mulher, uma samaritana. Tem sede e pede água. É, assim, um ser humano que expõe sua necessidade. Nada mais. Para Jesus, não importa que aquela mulher seja samaritana. É uma irmã a mais. É filha de Deus.

    Aqui começa um diálogo em que Jesus convidará a samaritana a ir mais além das normas e dos cultos. Tal como diz Jesus, aproxima-se a hora em que aqueles que adoram Jesus o farão “em espírito e verdade”, e não neste monte ou em outro, ou cumprindo tais ou tais leis. Abre-se, desta forma, a mente da samaritana e ela anuncia aquilo que viu e ouviu aos demais samaritanos.

    Mas o que significa esse “em espírito e verdade”? Talvez devêssemos colocar junto a esse relato da samaritana a parábola do bom samaritano. Talvez, assim, encontrássemos a chave daquilo que significa para Jesus adorar a Deus. Não é algo que fazemos no templo – recordemos que na parábola se reprova, precisamente, a atitude do sacerdote e do levita – porque se adora a Deus no lugar em que se encontra.

    E Ele é encontrado no próximo. De maneira mais clara, no necessitado e naquele que sofre. Neste ponto, nos vem à memória uma citação de Santo Irineu; “A glória de Deus é a vida do homem”. A proposta de Jesus para os judeus e samaritanos é a mesma: o culto nada mais é do que um folclore se não está fundamentado em um real amor a Deus. Este se manifesta primeiramente no amor aos que nos estão próximos, sobretudo aos que sofrem.

    A reflexão sobre o evangelho do terceiro domingo da Quaresma será bom para querermos transformar a nossa vida em um autêntico louvor a Deus.

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