Cristo, Nossa Páscoa, Nova Criação e Novo Êxodo – Cartas do Padre Jesus Priante

A Páscoa é a única chave que temos para ler o acontecer da nossa história pessoal e do universo.

A estrutura de nossa vida e de tudo quanto existe neste mundo é uma simbiose de morte e vida. A natureza ou antiga Criação antes de Cristo, participava desse binômio existencial de maneira circular: Tudo morria (estrelas, planetas, plantas e todos os entes vivos) para renascer, mas atrelado, sem poder romper, o ciclo do eterno retorno. A Criação teve de esperar, desde seu hipotético Big-Bang, 14 bilhões de anos para, finalmente, a vida triunfar, desvencilhada das cadeias da morte. Na cruz, com Cristo, morriam todas as mortes e, na sua Ressurreição, a vida revestia-se de gloriosa imortalidade. Na manhã do Domingo da Ressurreição, nascia uma Nova Criação e o Êxodo ou saída do povo hebreu da escravidão do Egito, emblema histórico de toda libertação, deixou de ter um caráter sociológico, para se tornar ontologicamente a libertação do pecado e da morte, que nenhuma revolução ou Moisés poderiam nos dar. Em Cristo, nossa Páscoa, nasce um novo mundo livre de todo mal, chamado Reino de Deus. O mistério da Páscoa se realiza e se faz presente de maneira sacramental, histórica e, realmente,no chamado “tríduo pascal”, sexta,sábado e domingo. Um tríduo que se alonga até o fim dos tempos.

O eminente teólogo alemão, Von Balthasar diz que a Páscoa ou Salvação de Cristo não nos separa do pecado e da morte até findarem nossa vida terrena e a historia da Criação, embora antecipa-se esse fim glorioso sacramentalmente. Para Von Balthasar, o símbolo mais expressivo da Páscoa é o Círio Pascal. Nele aparece a chama da vida e também a cruz da Paixão com cinco cravos inseridos na cera morta a representar as cinco chagas de Cristo crucificado a sofrer em nós os pecados, dores e mortes até todos sermos transformados pela sua Ressurreição. Como a cera, lentamente consumida e transformada em luz, assim nós e, por extensão este universo que habitamos, deixaremos nossa condição mortal para sermos glorificados pela chama da Ressurreição de Cristo, sendo o ser humano, a primeira criatura a desfrutar desse futuro glorioso.

A Páscoa é o acontecer de três dias: Sexta da Paixão e Morte, Sábado no qual morrem as palavras, e o Domingo, chamado de “Oitavo Dia”, porque não existe no tempo, pois a Ressurreição é o grande acontecer meta-histórico da Nova e Eterna Criação. A Páscoa diz Vitor Hugo nos lembra que viemos a este mundo passar algumas horas dentro duma realidade visível para passarmos a uma outra realidade invisível, infinita e eterna. Para quem crê neste Mistério, nada mais verdadeiro e sublime do que receber nestes dias a mais grandiosa notícia e salutar saudação:”FELIZ PÁSCOA”
PÁSCOA, O PASSO DA MORTE À VIDA.

“Pela hora nona, inclinando a cabeça, entregou seu espírito a Deus” (Mt.27,50).

“Desde a hora sexta até a hora nona, o sol se apagou”. “O véu do templo que separava o Santíssimo, lugar reservado só a Deus, se rasgou em duas partes,
Os túmulos abriram-se e muitos do que jaziam neles apareceram vivos em Jerusalém”.

O Mistério da Morte

Tudo isso aconteceu na mesma hora em que Cristo, em que seus pulmões recebiam as últimas moléculas de oxigênio. Esses fatos revelam-nos o mistério da morte. Morremos de fato? A cultura inglesa interpreta a morte como o passo da vida à vida, “life after life”. Para São Paulo, ela consiste numa “transformação”, o passo de uma maneira de ser a uma outra “forma” de ser. São João a expressou como um “novo nascimento”. A morte é, portanto, o mesmo passo ou Páscoa. À maneira como dormimos e acordamos, nós mesmos, dormiremos na nossa morte para acordar para um novo dia que, pela Ressurreição, será eterno.

Até Cristo, o sono da morte estava retido nos cemitérios, termo grego que significa dormitório. Na morte de Cristo, nós e o universo “passamos” de uma maneira de ser e viver, sujeitos à caducidade do tempo e limitação espacial, para a realidade infinita e eterna de Deus. Dessa nova forma de ser e viver não temos categorias mentais para poder compreender ou imaginar. Mas, pela fé, sabemos que, nós e toda a Criação, estamos realizando essa Páscoa. O fato do sol se
apagar por três horas durante a agonia de Cristo, mostrava a Páscoa do universo. As estrelas ainda morrem para serem transformadas gloriosamente (Rm 8). Elas e o resto da Criação tem de esperar sua Páscoa final. Só o ser humano tem o privilégio de celebrar a Páscoa com Cristo no mesmo dia da morte. Por isso, Jesus disse ao ladrão que lhe pedia estar com Ele no seu reino: “Hoje estarás comigo nele”.

OS QUE DORMIAM NOS SEPULCROS APARECERAM A SEUS FAMILIARES

Assim como os que ainda dormiam nos sepulcros, na mesma tarde em que Jesus morria na cruz, para mostrar sua Páscoa em favor de todos, levantaram-se e “apareceram” a seus familiares, como Jesus também “aparecerá” aos seus discípulos na manhã da Ressurreição, certificando a nova vida, imortal e gloriosa, que teremos ao deixar este mundo, sujeito à dor, ao pecado e à caducidade.

O detalhe do “véu do templo” se rasgar revelava não haver uma segunda morte definitiva (inferno) ou intermediária (purgatório). A todos, como disse ao bom ladrão, que de bom não tinha nada, Jesus nosy dirá no dia de nossa morte: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Só um louco pode ficar indiferente ao acontecimento da Páscoa.

A TUMBA VAZIA

“Na manhã de domingo, antes de amanhecer, Maria Madalena foi ao sepulcro onde Jesus foi sepultado e o encontrou vazio” (Jo.20,1). Fato constatado horas depois pelos discípulos João e Pedro. O túmulo vazio é o último fato histórico referente a Jesus de Nazaré.

A vida pascal além – túmulo de Jesus e nossa é meta-histórica, não é possível constatar neste mundo dimensionado pelo espaço e tempo.

O mundo vindouro após a morte é invisível, infinito e eterno, não por isso menos real.

Ver a vida na morte é o maior milagre invisível da Fé. A tumba vazia revolucionou a mentalidade e a crença do povo judeu, que esperava a abertura dos sepulcros e a ressurreição no fim dos tempos, quando Deus julgaria vivos e mortos. Esse final da História anunciado pelos profetas e esperado pelo povo de Israel tornava-se presente em Cristo, que veio não para julgar e condenar, mas para salvar os que antes dele morreram e aos que, graças à sua Ressurreição, não mais morrerão ou dormirão, mas passarão para seu Reino.

Deus em Cristo ressuscitado fez um “novo testamento” e sua última vontade, que não será quebrantada, é de salvar-nos a todos. O sepulcro vazio de Jesus, era um fato necessário para nossa Fé. Se Cristo tivesse deixado seus “restos mortais”, como todos nós deixaremos, no cemitério, a Ressurreição, entendida como o passo de nós mesmos, como pessoas, para outra vida, ficaria ininteligível. Poderíamos pensar apenas num reino de almas, conforme pensam outras culturas. Da mesma maneira, Jesus, assim como outras pessoas falecidas em Jerusalém, precisaram “aparecer”, não da maneira como são e vivem na condição de ressuscitados, que é fisicamente impossível, mas para, humanamente, Deus poder-nos revelar essa nova vida invisível, que não pertence a este mundo. A Ressurreição é o triunfo sobre a derrota.

O SILÊNCIO DO SÁBADO

Na morte morrem todas as palavras. Para que serviriam nossos discursos se morremos? Enquanto estamos na lides do tempo e do espaço, fecham-se os sulcos que o barco abre nas águas, a ferida no ar que deixa o vôo da águia, as pegadas do camelo fendidas na areia, mas Cristo deixou aberto para sempre os sepulcros que detinham a vida na morte. Nascem assim as Palavras da Vida Eterna.

Numa homilia de autor anônimo do século II, sobre o Sábado Santo, se diz: “Há grande silêncio na terra, o Rei não dorme. Foi buscar Adão e Eva. Eles, logo que viram a Cristo, lhe saudaram: “O Senhor esteja com todos”, e Jesus lhes respondeu: ” E com vosso espírito”. E tomando-os pela mão, lhes disse: “Levantem, vocês que dormem. Eu sou o vosso Deus, que por vocês se tornou filho e escravo. Dormi na cruz para despertar vocês que dormiam no Hades. Levantem. Vamos embora pois Eu sou a Árvore da Vida que lhes estava proibida. Tudo está preparado para celebrar a Festa do Reino”.

Quão longo seria o silêncio do sábado e interminável a noite sem Cristo ressuscitado. Por isso, impacientes, apressamos o grande dia da Ressurreição celebrando a Grande Vigília da Páscoa, na qual os discursos e as palavras são pequenas para expressar sua grandeza, por são necessários os símbolos, linguagem da alma, que unem o visivel e o invisível, o temporal e oeterno.

VIGÍLIA DA PÁSCOA, OU O SÁBADO DE ALELUIA

As palavras que definem esta Noite, mais radiante que o dia, sao extremamente simbólicas. Vigília sugere expectativa. Não se dorme porque espera-se algo ou alguém. Nesta noite há uma citação de Deus para com todos os povos: “Nessa noite eu passarei” (Ex.12). E Jesus a torna pessoal quando na última ceia disse, celebrando com seus discípulos a Páscoa: Não mais a celebrarei até ser celebrada no meu Reino. Embora essa Páscoa seja celebrada toda vez que celebramos a Eucaristia, ela se fará visível por ocasião da sua vinda gloriosa, esperada no fim dos tempos. Por isso, dizemos na celebração eucaristica: “Anunciamos, Senhor, a sua morte e a sua ressurreição, enquanto esperamos sua vinda”. Não podemos esperar nada fora de um determinado tempo e lugar. Razão pela qual podemos afirmar ser a Vigília da Páscoa esse momento concreto no qual Cristo aparecerá glorioso para realizar a Páscoa universal da Criação.

Precisamente essa expectativa ou esperança prolonga a mesma esperança do povo de Israel. Também este povo que celebra a Páscoa ou “passover” tornando presente o acontecimento da sua libertação do Egito, assim como o ressurgir da vida na primavera, esperam nessa noite a vinda do seu Messias. Durante a ceia pascal celebrada nas casas, deixam a porta semi-aberta e um lugar vazio para a vinda do Messias, identificado com o profeta Elias. Ao findar esse rito sacramental da esperança da sua salvação, os comensais dizem: “Hoje ainda escravos, amanhã livres!”, esperando de um ano para outro a chegada do seu Salvador. Nesse mesmo horizonte de esperança, com maior razão e otimismo, nós, cristãos, esperamos a vinda gloriosa de Cristo na Vigília da Páscoa. Se nessa próxima noite Cristo não vier, ficaremos esperando mais um ano. Por isso, São Paulo diz que temos de viver de “Páscoa em Páscoa”.

O cristão não conta nem acumula anos, apenas vive anualmente de Páscoa em Páscoa. Essa noite derradeira, na qual Cristo é esperado, acontecerá também no dia da nossa morte pessoal, quando passaremos ao dia glorioso da nossa Ressurreição.

A Vigília da Páscoa é o grande emblema ou sacramento que nos permitirá partir deste mundo cheios de paz e alegria. A Aleluia matará o silêncio da morte.

A VIGÍLIA PASCAL, NOITE DOS SÍMBOLOS

Culturalmente diríamos que nunca durante o ano e a vida somos tão humanos como na Vigília Pascal. A antropologia define o ser humano como essencialmente simbólico, isto é, unido ao transcendente.

Símbolo em grego significa o que une. E a que nos poderíamos unir para existir e viver se não for a Deus? Vejamos alguns desses eloquentes símbolos da Vigília Pascal:

O FOGO

A matéria inerte é vivificada através do fogo, símbolo do Espírito de Deus. É como celebrar a Ressurreição ou transformação de toda a Criação.

O CÍRIO

Esse mesmo Espírito vivificante ressuscita Jesus da morte, para se tornar Luz e vida do mundo. Sua chama, como por osmose, ao longo dos tempos, vai absorvendo a dor, o pecado e a morte do mundo, como pregamos no Pregão Pascal: “A morte foi absorvida pela vitória”. Dessa Luz Vital todos participamos. Por isso, cada pessoa nessa Vigília porta uma vela acendida do Círio, símbolo de Cristo, Círio ressuscitado. Esse símbolo também o expressamos no nosso costume de acender ou portar uma vela para acompanhar nossas preces e, particularmente, para acompanhar os que deixam este mundo. Daí o termo velório dado ao lugar onde levamos nossos defuntos.

NARRATIVA DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Cumprindo o mandamento de Deus para celebrarmos a Páscoa, nessa noite, conforme Dt.6, temos de contar (Agadá) a história da Salvação de geração, em geração. São lidas nove leituras a relatar o acontecimento da Criação e momentos mais importantes da Salvação desde Abraão, pai da fé na vida imortal, até Cristo Ressuscitado, em quem culmina a aventura dos séculos. As palavras nessa noite são sacramento, realizam o que anunciam.

O BATISMO

Símbolo de um novo nascimento, segundo Jo.3, ou de transformação em Rm, 6, é o grande sacramento da Páscoa. Mais do que renovar, como costumamos dizer, nessa noite somos de fato batizados, mergulhados na morte de Cristo, para com Ele ressucitar. Na história da salvação nada se repete, tudo acontece realmente.

LADAINHAS DE TODOS OS SANTOS

Na Vigília Pascal , o Céu, a Nova Jerusalém, como afirma o livro do Apocalipse, desce à terra. Também vivemos este rito simbólico que nos conecta com o que está além de nós na Eucaristia quando antes de entoar o canto do Santo dizemos e cantamos com “todos os anjos e santos”.

EUCARISTIA

Este é o grande sacramento ou símbolo da nossa fé, a ser celebrado, por mandato de Cristo, até sua volta. Jesus adiantou a Páscoa eucarística antes dela acontecer historicamente na véspera da sua morte. E logo que Ele ressuscitou, a tornou a celebrar no mesmo dia da sua Ressurreição com os discípulos de Emaús (Lc.24) e, com os outros discípulos, durante os 40 dias que permaneceu com eles, certificando com suas “aparições” que de fato ele estava vivo. Cada domingo e cada dia o acontecimento único e singular da Páscoa se faz presente, sem se repetir, em toda celebração ecucaristica. Ela não é lembrança de um passado, mas “represencializaçao” ou memorial que transcende os tempos. A Eucaristia, afirma o Concilio Vaticano II, “é fonte e cume da nossa Fé cristã” e também ação de Cristo em tempo real da nossa Salvação. Talvez a Salvação seja mais fácil e segura do que nós pensamos. Na Eucaristia temos esse segredo ou Mistério.

FELIZ PÁSCOA. CRISTO RESSUSCITOU, VERDADEIRAMENTE RESSUSCITOU, SEJA ELE NOSSA ALEGRIA E NOSSO GOZO. ALELUIA!

Padre Jesus Priante
Espanha
(Edição por Malcolm Forest. São Paulo.)
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