Cardeal Zenari: a Síria precisa de ajuda, não deixemos morrer a esperança

Dez anos após a crise que envolveu a República Árabe, o Cardeal Núncio Apostólico em Damasco reitera a necessidade de ajuda em um cenário de pobreza, onde faltam escolas e hospitais, enquanto “o chão foi pisoteado e os céus atravessados pelas forças armadas de cinco potências em conflito umas com as outras”

Massimiliano Menichetti

A guerra na Síria destruiu vidas e paz e corre o risco de cancelar a esperança. Este é o medo do núncio apostólico de Damasco, o Cardeal Mario Zenari, que vive em um país dilacerado pela guerra, violência e interesses partidários há dez anos. Nem sempre foi assim, recorda, mas hoje tudo está faltando e é necessário uma “enxurrada” de ajudas direcionadas. No domingo (14) no Angelus e durante o voo de regresso da visita ao Iraque, o Papa voltou seus pensamentos para “a amada e martirizada Síria”.

Eminência, o Papa voltou a pedir a reconstrução, a convivência e a paz na Síria.

Desde o início do conflito, ficou célebre o binômio, muitas vezes usado nos apelos do Papa Francisco: “amada e martirizada Síria”. É um dos países mais próximos do seu coração. Também recentemente, durante a viagem apostólica ao Iraque, o Santo Padre mencionou a Síria. Durante o Angelus de ontem (14/03), falando do triste aniversário de dez anos de guerra, ele lembrou mais uma vez o imenso sofrimento da população e fez um apelo premente à solidariedade internacional para que as armas sejam silenciadas, pela reconciliação, pela reconstrução e a recuperação econômica. Para que assim a esperança de tantas pessoas, duramente provada pela crescente pobreza e incerteza do futuro, possa ser reavivada. Nos últimos anos, foram lançadas inúmeras iniciativas, primeiro do Papa Bento XVI, e depois do Papa Francisco, para cessar a violência e encaminhar o processo de paz. Da mesma forma as iniciativas em relação às ajudas humanitárias. Ficou célebre a convocação de um dia de jejum e oração pela paz na Síria em 7 de setembro de 2013, poucos meses após sua eleição como Papa. A Praça de São Pedro estava repleta de fiéis, precisamente num momento dramático, talvez um dos mais cruciais para a Síria. O próprio Papa o recordou no voo de regresso do Iraque alguns dias atrás. 

Como é a situação da Síria na luta contra a emergência da Covid-19?

Não é mais a Síria que eu conheci quando lá cheguei há doze anos como núncio apostólico. Hoje, saindo pelas ruas de Damasco, vejo longas filas de pessoas em frente às padarias, esperando pacientemente sua vez de comprar pão a preços subsidiados pelo Estado, muitas vezes o único alimento que se pode comprar… Cenas nunca vistas antes, nem mesmo durante os anos mais difíceis da guerra. E pensar que a Síria faz parte do chamado “Crescente Fértil”, a Alta Mesopotâmia, com planícies até onde a vista alcança, estendendo-se por cerca de 500 km entre os rios Eufrates e Tigre: um tapete de ouro durante o mês de maio, quando as plantações ficam douradas! Há também longas filas de carros em frente aos postos de gasolina, e é difícil encontrar diesel para o aquecimento doméstico, embora na parte leste do país, na fronteira com o Iraque, existam poços de petróleo que seriam suficientes para um abastecimento quase completo de combustível para uso doméstico.

Qual é o balanço dez anos após o início do conflito?

A Síria de hoje tem a face de um país onde, em comparação com dez anos atrás, várias categorias de pessoas estão desaparecidas: os mortos do conflito somam cerca de meio milhão; 5,5 milhões de refugiados sírios estão nos países vizinhos; outros 6 milhões vivem como nômades, com muita frequência, de uma cidade para outra como deslocados internos. Há também cerca de um milhão de migrantes desaparecidos. Dezenas de milhares de pessoas estão desaparecidas. Faltam os jovens para o futuro do país. Mais da metade dos cristãos estão faltando. Muitas crianças ficaram sem pai e também sem mãe. Para muitos deles falta um lar. Não há escolas, nem hospitais, nem pessoal médico e de enfermagem, e ainda mais há a emergência Covid-19. Faltam fábricas e atividades produtivas. Desapareceram inteiras cidades e bairros que foram destruídos e despovoados. O famoso patrimônio arqueológico, que atraia visitantes de todo o mundo, foi desperdiçado. O tecido social, o mosaico da convivência exemplar entre grupos étnicos e religiosos, foi seriamente danificado. A natureza também sofre com a poluição do ar, da água e do solo causada pelo uso de explosivos e vários tipos de artilharia nestes dez anos. O chão foi pisoteado e os céus atravessados pelas forças armadas de cinco potências em desacordo, como nos lembra o enviado especial da ONU para a Síria, Geir Pedersen. Em resumo, um quadro verdadeiramente desolador…

Após estes longos anos de guerra, a economia está fortemente prejudicada, há falta de serviços básicos como escolas e hospitais, e a pobreza é outra praga que esmaga o povo. A Síria corre o risco de se perder em um cenário de abandono?

É verdade que em várias regiões da Síria, já há algum tempo, não caíram mais bombas, mas o que poderia ser chamado de “bomba” da pobreza, explodiu. Segundo os últimos números das Nações Unidas, cerca de 90% da população síria vive atualmente abaixo da linha de pobreza. É o pior dado do mundo! A lira síria perdeu muito de seu valor e os preços dos bens de consumo básicos subiram às estrelas. As pessoas chamam esta fase do conflito de “guerra econômica”. Além disso, há falta de fábricas, é difícil encontrar emprego e os salários são muito baixos, e ainda não há sinais de uma recuperação econômica substancial.

Há cerca de dois anos na maior parte do país as bombas cessaram, as Nações Unidas continuam seus esforços para negociar entre facções e governo, na frente interna estão trabalhando para uma nova Constituição, mas isso não parece ser suficiente para restaurar a esperança e a confiança. Por que?

Infelizmente, tem-se a impressão de que o processo de paz, organizado pela Resolução 2254 (2015) do Conselho de Segurança da ONU, está paralisado. Em seu briefing para o mesmo Conselho de Segurança em 9 de fevereiro, o Enviado Especial da ONU chamou a atenção para a necessidade de uma “diplomacia internacional construtiva sobre a Síria”, tanto para a continuação da reforma constitucional quanto para o processo de paz em geral. Durante alguns momentos cruciais nestes anos de guerra, ocorreu amargos debates e divisões dentro do Conselho de Segurança, e o direito de veto foi usado quinze vezes por alguns membros permanentes quando se tratava de adotar resoluções importantes. A partir disto, é fácil concluir que não haverá paz na Síria enquanto estas diatribes e divisões dentro do mais alto órgão responsável pela segurança e paz mundiais continuarem. Entretanto, além desses momentos decepcionantes e falimentares, também é necessário lembrar o acordo unânime da comunidade internacional em pelo menos duas ocasiões cruciais: a primeira, em setembro de 2013, quando, graças ao acordo entre os presidentes da Federação Russa e dos Estados Unidos, Putin e Obama, o grave e delicado problema do desmantelamento do arsenal químico sírio foi resolvido; outra ocasião foi quando foi votada por unanimidade a citada Resolução 2254, que, como mencionado, estabelece a “road map”, ou seja, o plano de intervenção para o processo de paz.

Há crianças que viveram apenas a dimensão da violência, da privação. Como essas feridas irão se cicatrizar?

Como em todas as guerras, também este longo e cruel conflito teve efeitos devastadores especialmente sobre os setores mais fracos da população, especialmente crianças, mulheres e idosos. Muitas crianças morreram sob os bombardeios ou no fogo cruzado, outras foram extraídas feridas e mutiladas sob os escombros, algumas morreram na travessia do mar, muitas outras sofreram traumas psicológicos difíceis de curar, muitas foram deixadas sem um ou ambos os pais. Muitas morreram de desnutrição, frio, desidratação, como os cerca de cinquenta bebês que morreram nos braços de suas mães enquanto fugiam de Baghouz no inverno de alguns anos atrás. Um certo número deles, junto com suas mães, ainda estão esperando em vários campos de refugiados para serem repatriados para seus países de origem, em condições muito precárias, especialmente no tristemente famoso campo de Al-Hol (Hassaké). Após a sangrenta batalha de Aleppo em 2016, apareceram vagando pelas ruas e ruínas da cidade vários milhares de crianças, sem família, nome e sobrenome. Graças aos esforços conjuntos das autoridades religiosas muçulmanas e cristãs de Alepo, procurou-se registrá-las no cartório com um nome e sobrenome, e para inseri-las em um caminho de reintegração social. Com uma escola em cada três fora de uso, cerca de dois milhões de crianças sírias não frequentam a escola. Algumas são vítimas de exploração sexual e outras são recrutadas. As meninas, em particular, são expostas a matrimônios precoces. O estopim que desencadeou o conflito foi aceso inconscientemente por uma dúzia de crianças de Daraa, no sul da Síria, que foram presas e detidas por alguns dias porque tinham escrito slogans contra o Presidente Assad na parede de sua escola. Tudo isso então caiu inexoravelmente sobre seus coetâneos como um cruel bumerangue. Um verdadeiro massacre de inocentes.

Qual o papel os jovens, presente e futuro, na reconstrução do país?

Os jovens são os melhores recursos de um país. Eles são o futuro da sociedade e da Igreja. Infelizmente, a Síria e a Igreja perderam muito desse incomparável patrimônio. Um grande número deles, de fato, não vendo um futuro seguro, tomaram o caminho do exílio. Pode-se definir esta perda incalculável como outra “bomba” mortal para a Síria.

Estima-se que são necessários US$ 400 bilhões para movimentar novamente a Síria. O senhor acha que é necessário um esforço maior da comunidade internacional?

As Nações Unidas, as várias ONGs envolvidas no campo humanitário e as Igrejas estão tentando lidar com as muitas emergências, especialmente a alimentação e a saúde. Infelizmente, a reconstrução e o início da economia, para a qual seriam necessárias várias centenas de bilhões de dólares, ainda não começaram. Além do grave fenômeno da corrupção e de vários outros fatores, as sanções, em particular, têm um efeito negativo sobre tudo isso. Para este trabalho de reconstrução e recuperação econômica, é necessária uma intervenção poderosa e urgente da comunidade internacional. A paz não chegará à Síria sem reconstrução e sem o início da economia. “Desenvolvimento é o novo nome da paz”, escreveu o Papa São Paulo VI na Encíclica “Populorum Progressio”, de 1967. E o Papa Francisco, em sua encíclica “Fratelli tutti”, nº 126, citando a “Centesimus annus” do Papa São João Paulo II, fala da necessidade de garantir o “direito fundamental dos povos à subsistência e ao progresso”. Se me permitem tomar emprestado e parafrasear o título de um romance que surgiu há alguns anos, “A paz como um rio”, existe a necessidade de um “rio” de ajuda para a reconstrução de hospitais, escolas, fábricas e diversas infraestruturas.

Qual é o papel da Igreja neste contexto?

Um enorme desafio que está diante das várias religiões presentes na Síria, em particular a cristã e muçulmana, é a reconciliação e a costura do tecido social, danificado por estes longos anos de guerra. A Igreja, além disso, está ativa no terreno com uma vasta rede de projetos humanitários aberta a todos, sem diferenças étnico-religiosas, graças à ajuda de várias instituições de caridade de todo o mundo. Poderíamos dizer que é o trabalho do “Bom Samaritano”.

Como se está vivendo este período da Quaresma e com qual horizonte?

Estamos tentando viver esta “Quaresma” junto com o povo, que dura, sem interrupção, há 10 anos, esperando poder vislumbrar o fim do túnel e um vislumbre da recuperação da Síria, uma “ressurreição” deste país.

Qual é o seu desejo, seu apelo para este país?

Uma jornalista síria, com o pseudônimo de Waad Al-Kateab, escreveu no “The New York Times” de 7 de fevereiro de 2020 um artigo intitulado: “Somos deixados sozinhos a enfrentar a morte”. E o Papa Francisco, em 9 de janeiro de 2020, por ocasião da troca de saudações de Ano Novo com o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, disse: “Refiro-me ao cobertor de silêncio que ameaça cobrir a guerra que devastou a Síria ao longo desta década”. A Síria, nestes longos anos de guerra, perdeu a paz, perdeu pessoas, perdeu jovens, perdeu cristãos. Muitas pessoas perderam e também estão perdendo a esperança. Poderia ser comparado ao infeliz da parábola do “Bom Samaritano”: atacado por ladrões, assaltado e deixado meio morto e humilhado à beira da estrada. A Síria está esperando para ser reabilitada social e economicamente, e para ter sua dignidade reconhecida. Por isso, um agradecimento especial vai para todos os “bons samaritanos”, alguns dos quais até perderam a vida ao mostrar-lhe sua generosa solidariedade: são instituições humanitárias internacionais, organizações religiosas, indivíduos privados. Não deixemos a esperança morrer!

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