Bispos do Conselho Pastoral refletem sobre inteligência artificial e comunhão na Igreja

A reunião do Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) iniciou na manhã desta terça-feira, 22, com a apresentação de duas análises de conjuntura aos bispos da Presidência da Conferência, presidentes de Comissões Episcopais, assessores e representantes de pastorais e instituições eclesiais que participam do encontro. A análise de conjuntura sociocultural abordou a questão da inteligência artificial e a eclesial sobre a comunhão da Igreja em ambientes plurais.

A reunião foi aberta pelo arcebispo de Goiânia (GO) e primeiro vice-presidente da CNBB, dom João Justino de Medeiros Silva, que substitui o presidente, cardeal Jaime Spengler, neste primeiro dia de encontro por conta da participação de dom Jaime nos funerais de dom Dadeus Grings, arcebispo emérito de Porto Alegre (RS), falecido ontem, 21.

Dom João Justino recordou aos presentes um trecho da carta do Papa Leão XIV aos Bispos da América Latina e do Caribe por ocasião dos 300 anos da canonização de São Toríbio de Mogrovejo. “O Papa fala da vocação e do ministério do bispo, retomando o rito da chegada do bispo à diocese. No final, destaca a vida de bispos santos e beatos que marcaram a América Latina”, resumiu dom João Justino.

Ele leu o trecho da carta na qual o Papa resgatou o momento em que o bispo se encontra à porta da Catedral e recebe a água benta e asperge-se a si e aos presentes:

“O gesto remete-o à fonte comum do Batismo. Antes de ser pastor, é discípulo; antes de presidir ao Povo de Deus, conta-se entre os batizados, tornados filhos em Cristo.”

Ainda no início do encontro, o núncio apostólico no Brasil, dom Giambatistta Diquattro, saudou os presentes e recordou a fala do Papa Leão XIV aos bispos de recente nomeação. “O Papa recordou que nenhum bispo caminha sozinho. Essas palavras também alcançam os trabalhos desse conselho, chamado a favorecer a escuta, o discernimento e corresponsabilidade pastoral a serviço das igrejas particulares”, destacou.

Inteligência Artificial

A análise preparada pelo Grupo de Análise de Conjuntura Padre Thierry Linard tratou do tema “Democracia, opinião pública na era digital – plataformas de inteligência artificial, desafios para a dignidade humana, a verdade e o bem comum”.

A reflexão tratou da transformação digital que modificou não apenas os meios utilizados nas comunicações, mas as próprias condições em que as pessoas formam opiniões, constroem relações, tomam decisões e participam da vida democrática.

“As tecnologias passaram a intermediar atividades econômicas, relações sociais, processos educativos, produção de conhecimento e disputas políticas. Trata-se de uma mudança de grande alcance que precisa ser compreendida sem ingenuidade, mas com discernimento”, explicou o bispo de Carolina e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura, dom Francisco Lima.

A indicação diante dos desafios e possibilidades dos avanços tecnol[ogicos é não cair em duas armadilhas: “nem no entusiasmo tecnológico sem crítica, que vê cada inovação uma espécie de salvação; nem na tentação de atribuir à tecnologia, isoladamente, conflitos que possuem raízes históricas, econômicas, culturais e políticas”.

Dom Francisco apresentou a análise considerando a missão da Igreja em contribuir para formar consciências no contexto da cultura digital, e o chamado, inspirado na encíclica Magnifica Humanitas de desarmar a tecnologia e resguardar a dignidade humana.

“O que percebemos é que a Inteligência Artificial é um fato e que ela não é um destino, mas uma construção humana. Aquilo que pode ser mudado, nós podemos mudar. Fica uma mensagem de esperança, um apelo ao discernimento humano: precisamos discernir o que existe. A técnica é fria, não tem coração, somos nós que devemos colocar isso dentro dela”, resumiu dom Francisco, convidando a desconstruir aquilo que leva à discriminação, à polarização e à pretensão de substituir o julgamento humano.

Comunhão

A segunda análise de conjuntura tratou da comunhão na Igreja, numa realidade em que se encontram oposições de ideias em ambientes plurais. A apresentação do Instituto Nacional de Pastoral (Inapaz) parte da hipótese de que rupturas refletem uma situação aguda de um contexto crônico e que merece atenção.

Num mundo caótico, com forte enfraquecimento de paradigmas e referências, aparecem, as “retrotopias”, segundo definiu dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis (RJ) e presidente do Inapaz. O termo é inspirado numa definição de Zygmunt Bauman sobre a busca de um passado idealizado e que oferece certa segurança.

A reflexão concentrou-se, após a apresentação do cenário, em perceber como a proposta pastoral da CNBB pode dialogar com grupos que podem ter uma visão retrotópica da vida eclesial.

Segundo dom Joel, o Mistério da Encarnação de Jesus “nos leva a caminhar na história rumo ao futuro” e o chamado à comunhão ensina que, “na discordância, busca-se o consenso”.

“O diferente exacerbado, não deve nos apavorar, mas levar ao encontro”, disse dom Joel, citando  o Papa Francisco.

A sinodalidade, assim, continua como horizonte na Igreja: “todos, juntos, para frente”. O desafio, segundo o Inapaz, é manter nessas espiritualidades, processos e estruturas de comunhão. E tanto as Diretrizes da Ação Evangelizadora quanto o Documento Final do Sínodo são referências com os caminhos da missão (capítulo 5 das DGAE) e as propostas de conversão das relações, dos vínculos e dos processos (capítulo 6 das DGAE).

Outra intuição que ganhou destaque para a promoção da comunhão numa realidade de dissenso é Conversa no Espírito. A metodologia sinodal favorece um diálogo fraterno entre pessoas que pensam diferente, partindo da abertura à ação do Espírito Santo com a oração.

Luiz Lopes Jr | Fotos: Paulo Augusto Cruz

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