A Palavra Semeada e a Esperança que não decepciona

    Reflexão para o 15º Domingo do Tempo Comum, Ano A

    Uma alegria verdadeira nos visita neste domingo, quando a liturgia nos convida a contemplar uma das imagens mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas que Jesus poderia escolher para falar do Reino dos Céus: a semente que cai na terra.

    Neste 15º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos conduz por um caminho de esperança que atravessa a natureza, a história humana e o coração de cada um de nós. Que a Providência nos ajude a compreender, com simplicidade de coração, o que o Senhor quer nos dizer hoje.

    A chuva que não volta vazia: A primeira leitura – Is 55,10-11 – nos oferece uma imagem que qualquer pessoa que já viveu no campo, ou que já observou uma plantação crescer, sabe reconhecer. O profeta Isaías compara a Palavra de Deus à chuva e à neve que descem do céu, irrigam a terra e a fazem germinar, dando semente para o plantio e pão para a alimentação. Assim como a chuva não retorna ao céu sem antes cumprir sua tarefa, também a Palavra do Senhor não volta vazia. Ela realiza aquilo que Deus quis, produz o efeito que Ele pretendeu ao enviá-la.

    Quantas vezes, em nossa vida de fé, duvidamos que nossas orações, nossos esforços de evangelização, nossas palavras de conforto e de fé lançadas aos quatro ventos, tenham algum efeito real! Pois bem, o profeta nos assegura que a Palavra de Deus jamais é estéril. Ela pode demorar, pode parecer silenciosa, mas trabalha em silêncio como a chuva que penetra a terra antes de fazer brotar a espiga. É preciso confiança, é preciso paciência, é preciso aquela fé que sabe esperar o tempo de Deus.

    O salmo responsorial, tirado do Sl 64(65),10-14, continua nessa mesma linha de louvor, celebrando a generosidade de Deus para com a terra: as colinas se enfeitam de alegria, os campos se revestem de trigais, e tudo canta de alegria. É a imagem de uma criação que responde com fartura ao cuidado do Criador. E a resposta do salmo, inspirada em Lc 8,8, já antecipa o Evangelho que ouviremos: “A semente caiu em terra boa e deu fruto”.

    O gemido da criação e a glória que nos espera: A segunda leitura, tirada da Carta de São Paulo aos Romanos – Rm 8,18-23 – amplia ainda mais esse horizonte. O Apóstolo nos fala dos sofrimentos do tempo presente, que ele considera pequenos diante da glória que há de ser revelada em nós. Toda a criação, diz Paulo, está gemendo como que em dores de parto, esperando ansiosamente o momento em que se revelarão os filhos de Deus.

    Essa é uma palavra de enorme consolo para os nossos dias. Vivemos tempos de sofrimento, de incertezas, de violência que fere tantas famílias em nossas grandes cidades. Mas São Paulo nos ensina a olhar para além da dor imediata, sem negar o sofrimento, mas colocando-o dentro de um horizonte maior: o horizonte da libertação e da glória que Deus reserva a quem persevera. Assim como a natureza atravessa o inverno para florescer na primavera, também a nossa existência atravessa provações à espera da plena manifestação da vida em Cristo.

    Como não recordar aqui a realidade de tantos hospitais, asilos e casas de acolhimento mantidos por instituições católicas e filantrópicas, onde o sofrimento humano é acompanhado com carinho e competência, sempre na esperança de que aquele gemido, mencionado por São Paulo, seja transformado em cuidado e em dignidade para cada pessoa atendida? Ali, no meio da fragilidade, a esperança cristã se faz gesto concreto.

    A parábola do semeador: quatro tipos de terra, um só convite. Chegamos, então, ao coração da liturgia deste domingo: a parábola do semeador, no Evangelho de Mateus 13,1-23. Jesus, sentado na barca, às margens do mar da Galileia, conta uma história conhecida de todo agricultor daquela terra. O semeador sai a semear e sua semente cai em quatro tipos de solo: à beira do caminho, em terreno pedregoso, entre espinhos e em terra boa.

    Reparemos que o semeador da parábola não é cauteloso nem econômico. Ele espalha a semente generosamente, mesmo sabendo que parte dela será perdida. É assim que Deus age conosco: com uma generosidade que não calcula riscos, que não mede prejuízos, que continua semeando a sua Palavra em todos os corações, mesmo naqueles que parecem, à primeira vista, pouco propícios.

    Cada um de nós, ao ouvir esta parábola, é convidado a se examinar diante das quatro terras. Somos, por vezes, terra da beira do caminho, quando deixamos que as distrações do dia a dia impeçam a Palavra de penetrar. Somos terreno pedregoso, quando recebemos a fé com entusiasmo passageiro, mas não deixamos que ela lance raízes profundas capazes de resistir às dificuldades. Somos terra de espinhos, quando as preocupações do trabalho, da ansiedade financeira ou da busca incessante por reconhecimento sufocam o que Deus semeou em nós. E somos, esperamos, também terra boa, aquela que ouve a Palavra, compreende e produz fruto: cem, sessenta, trinta por um.

    O importante é não desanimar diante das próprias fragilidades. A parábola não é uma sentença definitiva sobre quem somos, mas um espelho que nos convida à conversão permanente. Nenhuma terra pedregosa é condenada a permanecer assim para sempre. Com a graça de Deus e com o cuidado de quem cultiva a própria vida espiritual através da oração, dos sacramentos e da caridade, é possível transformar pedras em solo fértil, arrancar espinhos e abrir espaço para que a semente cresça com vigor.

    Deus habita esta cidade, Deus habita cada coração: Aqui no Rio de Janeiro, cidade que carrega tanta beleza e, ao mesmo tempo, tantos desafios, gosto sempre de repetir que Deus habita esta cidade. Ele não se cansa de semear sua Palavra nas ruas, nas famílias, nas comunidades, nos hospitais, nas escolas, mesmo quando o solo parece árido ou tomado por espinhos. A missão de cada um de nós, batizados, é justamente colaborar com esse semeador incansável, sendo instrumentos de evangelização em nosso ambiente de trabalho, em nossa família, em nossa cidade.

    Que esta liturgia nos renove o desejo de ser terra boa, capaz de acolher a Palavra com fé e de fazê-la frutificar em obras concretas de caridade e de esperança. Como recorda São Paulo, os sofrimentos do tempo presente não têm a última palavra. A glória que Deus prepara para os seus filhos é infinitamente maior. E, como diz Isaías, a Palavra do Senhor não volta vazia: ela cumprirá em nós, com paciência e com amor, tudo aquilo que Deus deseja realizar.

    Rezemos, pois, para que a Igreja que peregrina nesta cidade e em todo o Brasil seja sempre terra boa, semeadora de esperança, aberta ao Reino dos Céus. Que a Virgem Maria, primeira a acolher a Palavra em seu coração e a fazê-la frutificar em sua vida, nos acompanhe neste caminho.

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