Ao celebrarmos a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a Igreja nos convida a contemplar um Mistério que, apesar de tocar o Céu unindo realidades terrenas e divinas, antes de tudo se caracteriza pela transcendência de uma jovem, até então anônima para o mundo, mas única para Deus em seu infinito amor pela humanidade, isto para mostrar-nos que a Assunção não é um evento isolado na história da salvação, mas sim a antecipação gloriosa do próprio destino da Igreja. Para compreender a profundidade desta festa, precisamos olhar para a mística que envolve o Corpo Místico de Cristo desde as suas origens até os nossos dias.
Maria Assunta ao Céu é o espelho no qual a Igreja vê o seu futuro e a sua vocação definitiva. A história da Igreja não começa como uma instituição humana, mas como um mistério de graça nascido do lado aberto de Cristo na Cruz e manifestado em Pentecostes. No Cenáculo, lá estava a Igreja nascente: os Apóstolos, vacilantes e humanos, reunidos ao redor daquela que era a cheia de graça. Maria esteve presente na origem da Igreja como Mãe e Discípula Perfeita. Naquelas primeiras comunidades primitivas que dividiam o pão, sofriam perseguições e testemunhavam a ressurreição, Maria era a memória viva do Evangelho.
Ao longo dos séculos, a Igreja expandiu-se pelo mundo, contudo, essa marcha histórica é marcada por uma profunda tensão mística. A Teologia e a Tradição nos ensinam que a Igreja é Santa e Pecadora, a Casta Meretrix, na expressão de alguns Padres da Igreja, o que requer discernimento em sua correta interpretação. Por “Santa” entende-se a Igreja a partir de sua cabeça que é Cristo, em seu Espírito Santificador, em seus sacramentos e na Virgem Maria, que é o seu membro mais eminente e imaculado. Por “Pecadora” entende-se a Igreja a partir de seus membros terrestres, sujeitos às quedas, às divisões, aos escândalos e às mazelas de cada época, o que jamais, por si só, é capaz de definir a Igreja, comprometendo sua essência imaculada.
Caminhando através dos séculos, a Igreja frequentemente se vê “enlameada” pelas fragilidades humanas. Quantas vezes a poeira da história e o pecado de seus filhos pareceram ofuscar o brilho do Esposo! No entanto, assim como o ouro não perde seu valor por estar coberto de terra, a Igreja não perde sua santidade essencial por carregar pecadores em seu seio. Neste sentido, a Assunção de Maria é a garantia de que a lama da terra não tem a última palavra. Em Maria, a Igreja já é plenamente santa, sem mancha nem ruga. Ela é o protótipo da humanidade redimida. A mística da Igreja revela-se em uma admirável comunhão que une os fiéis em três estados distintos.
Em um primeiro estado, como Igreja Militante, somos nós que lutamos diariamente contra o Pecado, frequentemente feridos, mas firmes na Esperança; em um segundo estado, como Igreja Padecente, são os nossos irmãos que partiram na graça de Deus, mas que passam pela purificação final do amor divino para poderem contemplar a face do Pai sem véus; em um terceiro estado, a Igreja Triunfante, é a assembleia dos anjos e santos, encabeçada por Maria Santíssima, que já contemplam Deus face a face e intercedem sem cessar por aqueles que ainda caminham na terra. A Assunção de Maria é a ponte mística entre esses três estágios. Maria, assunta de corpo e alma, já vive na Igreja Triunfante aquilo que a Igreja Militante almeja e pelo qual a Igreja Padecente se purifica.
Nos tempos atuais, quando a Igreja enfrenta novos desafios morais, culturais e espirituais, a celebração da Assunção de Maria ganha um contorno de urgente profecia. A humanidade de hoje, tantas vezes desorientada, precisa olhar para Maria para recordar que fomos feitos para o Eterno. A Igreja continua em marcha. As quedas de seus membros, as perseguições externas e as dores do mundo não são capazes de deter o processo de transfiguração ao qual o Corpo de Cristo está destinado. Pela Assunção, somos chamados a cultivar a certeza de que o fim da jornada não é a cova, nem a decadência, nem a derrota; o fim da jornada é a glória do Pai.
Celebremos, pois, a Assunção de Nossa Senhora renovando a nossa fidelidade à Mãe Igreja. Se há poucos dias nos revigorávamos contemplando a face transfigurada de Cristo, deixemo-nos também hoje revigorarmo-nos pelo Mistério da Assunção de Maria, de modo a crescermos mais e mais neste caminho sublime de transfiguração e assunção, rumo às coisas do Céu, ao Deus que nos ama e nos quer bem, que nos sustenta e nos regenera, e que permanece fiel à sua Igreja, em toda sua amplitude, até a consumação dos tempos. Que a Virgem Assunta ao Céu interceda pela Igreja Militante, dando-nos coragem nas lutas; alivie e socorra a Igreja Padecente com sua maternal intercessão; e nos conduza um dia para a Igreja Triunfante, onde reinaremos com Cristo para sempre. Amém.


