A experiência da Cruz!

    Seguimos avançando em nosso itinerário litúrgico, findando, por sua vez, o oitavo mês de nosso calendário civil, e também progredindo no gradual processo de maturidade da fé, preparando-nos para seguir com Jesus de Cesaréia de Filipe a Jerusalém, iluminados pelos textos sagrados do Evangelho de São Mateus. No último domingo fomos levados a reconhecer Cristo nas salas de aula e nos leitos de dor, percebendo a educação e a saúde como ambientes sagrados de encontro com Deus. Agora, o Evangelho deste XXII Domingo do Tempo Comum conduz-nos a uma dimensão ainda mais profunda e exigente desse mistério: a experiência da Cruz vivida no cotidiano da doação profissional e humana.

    Logo após a grande profissão de fé em Cesaréia de Filipe, Jesus começa a mostrar aos seus discípulos que o caminho do Messias não é feito de triunfalismo humano. Ele precisa ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, ser morto e ressuscitar. Diante disso, Pedro toma Jesus à parte e o repreende: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!” A reação de Pedro é compreensível. Todos nós fugimos da dor, do desgaste e do sofrimento. No entanto, a repreensão de Jesus a Pedro é incisiva: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.”

    Quando olhamos para realidades como as da Educação e da Saúde, percebemos com clareza como a tentação de Pedro se manifesta no nosso tempo. É a tentação de buscar uma profissão sem desgastes, uma carreira de sucessos sem renúncias, uma pedagogia sem paciência e uma medicina sem compaixão. É o risco de transformar o ato de educar e o ato de cuidar em meros contratos burocráticos e frios, desprovidos da alma da doação. Mas o que significa, na prática dessas vocações, o mandato de Jesus: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”?

    No universo da Educação, a cruz do professor e do educador não é uma abstração; ela tem o rosto das salas de aula lotadas, do esgotamento mental, da desvalorização social, da incompreensão das famílias e da paciência necessária para ensinar aquele que tem mais dificuldade de aprender. Tomar a cruz na educação é recusar a desistência, é não entregar os jovens ao desânimo e ao cinismo, mantendo vivo o compromisso com a verdade e a formação do caráter. Nos rincões da Saúde, a cruz do médico, do enfermeiro, do técnico e do cuidador revela-se nos plantões exaustivos, na falta de estrutura dos hospitais, na dor de ver um paciente partir e no peso emocional de carregar o sofrimento alheio. Tomar a cruz na saúde é não permitir que a rotina automatize o coração; é manter a capacidade de chorar com os que choram e estender a mão com ternura ao doente fragilizado.

    Na Primeira Leitura (Jr 20, 7-9), o profeta Jeremias desabafa o peso de sua missão, sentindo-se esgotado ao ponto de querer parar, mas descobrindo interiormente um “fogo ardente” que não consegue conter. Quantos professores, médicos e cuidadores não se sentem exatamente como Jeremias? Sentem-se tentados a despadronizar o amor e a desistir diante das dificuldades sistêmicas. É aqui que a graça de Deus atua: sustentando esse “fogo interior” para que o serviço não se transforme em desespero. São Paulo, na Segunda Leitura (Rm 12, 1-2), exorta-nos: “Não vos conformeis com este mundo!” O mundo ensina a lei do menor esforço, do ganho rápido e da busca individual pelo conforto a qualquer custo. O Evangelho, ao contrário, lembra-nos de que a vida só encontra sentido quando é doada, e Jesus o conclui com o grande paradoxo do Reino: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

    Aquele que guarda seu tempo, sua ciência, seus talentos e seu afeto apenas para si mesmo, preservando-se de todo desgaste, acaba por definhar na insuficiência do seu próprio egoísmo. Mas o professor que gasta a vida preparando uma boa aula, o profissional de saúde que doa a sua energia à beira do leito, o agente pastoral que dedica suas horas ao próximo, estes perdem a vida aos olhos do mundo, mas a encontram em plenitude diante de Deus.

    Irmãos e irmãs, peçamos nesta Eucaristia por todos os nossos educadores, profissionais e trabalhadores da saúde. Que o Senhor lhes dê a força para não recuarem diante das cruzes do cotidiano, lembrando-lhes de que o desgaste por amor ao próximo nunca é em vão, mas é o próprio caminho que conduz à vitória da Ressurreição. Amém.

    + Antônio Carlos Altieri, SDB

    Arcebispo Emérito de Passo Fundo, RS

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